terça-feira, 19 de setembro de 2017

Capítulo 63 – MIB – MÚSICA IMPOPULAR BRASILEIRA


Leio a milionésima megarreportagem vendendo as maravilhas da tal nova MPB. Há quem a chame de indie, música feita de maneira independente dos meios de comunicação de massa, das gravadoras e rádios e jabá e TV.
Esta matéria tem direito a fotos dos artistas posando como os artistas de décadas passadas, Rita Lee, Tim Maia, Cartola. A mais chamativa tem um time de caras novas imitando a pose da capa de Tropicália, o disco que lançou Gil, Caetano, Gal, e o movimento que até hoje dá assunto. É gente como Romulo Fróes, Márcia Castro, Naná Rizinni, Marcelo Jeneci e Emicida.
Quem? Não se avexe. Ninguém conhece, fora jornalistas, publicitários e similares. Ninguém ouve. Ninguém se importa. Eles não fazem MPB, Música Popular Brasileira. Fazem MIP: Música Impopular Brasileira.
No Valor Econômico, mesmo final de semana, o jornalista Tárik de Souza garante que os ídolos dos anos 60, tropicalistas à frente, é que continuam comandando a massa. Banca a afirmação com números: Caetano vendeu nove mil cópias de seu último disco. Isso é ser popular? E Paula Fernandes é o quê?
A nova geração da música brasileira, como a nova geração do nosso cinema, e a nova geração da nossa literatura, está confortável na sua eterna impopularidade e no seu eterno sucesso de crítica. Porque vive confortavelmente sendo impopular. E os elogios da crítica, além de acariciar o ego, garantem uns caraminguás no circuito que paga bem pelo perfume da descolância. Não discuto se tem livro bom aqui e canção maravilhosa acolá. Não é o ponto.
Minha explicação para esse estado de coisas é sociológica e psicológica, e rasinha e panorâmica. Ano passado resumi em uma frase. A publicação das duas reportagens no mesmo final de semana me cutuca.
Todo mundo conhece a geração que decolou nos festivais, e eles continuam influindo nos criadores mais jovens. Continuam nas primeiras páginas dos cadernos de artes e nas capas das revistas de cultura. Os shows, 90% hits do século passado, lotam com nostálgicos de bolsos fundos. Mas Chico Buarque, Gil e Cia. não estão nas homepages dos portais, nem nos programas de auditório. Não dão clique, não atraem audiência, não fazem sucesso. Ninguém ouve. Ninguém se importa. Hoje também fazem MIP.
Jornalista tem que contar uma história. Geralmente conta a sua. Muitas vezes, em vez de abrirmos os olhos para o universo lá fora, nos deixamos hipnotizar pelas estrelinhas próximas, à nossa altura e ao alcance de nossas mãos. Daí é um passo para concluirmos: essa geração é minha turma, a minha turma é que fez ou faz história, e, portanto, eu, que registro a cena, e ajudo a construí-la, faço história também. Sou importante. I’m a star.
Tárik vê o mundo pelos olhos de seus contemporâneos. Quem não? Nunca fui crítico musical nem militante cultural, mas fiz minha partezinha para empurrar para os holofotes a turma que despontou no início dos 90, mangue beat, Raimundos, Planet Hemp etc. Foi uma espécie de new wave tupi atrasada, múltiplos gêneros e discursos, verdadeiramente internacionais, organicamente brasileiros. Nenhuma revolução, não, mas valeu. Eles falaram com os jovens da época de igual para igual. Arejaram o ambiente. Não tenho saudade.
A comparação da geração 2012 com a Tropicália é forçada. Em comum, só a obscuridade dos retratados hoje com os tropicalistas, no dia do lançamento de Tropicália. Esses novos nomes da música brasileira falam com pouquíssimos (assim como os velhos hoje). O camarada Maurício Ângelo resumiu bem no site Movin Up: O indie vai bem, falta falar com o público.
Antigamente, dinheiro de músico vinha de vender disco e ingresso pra show. É para isso que eles queriam aparecer (e para pegar mulher/homem, naturalmente). Famosos, as gravadoras pagavam propina para eles tocarem no rádio e aparecerem na TV. Hoje, há muitas outras maneiras, patrocínios daqui, leis de incentivo dacolá, usar o tênis tal no videoclipe e pronto. O sistema antigo era podrão, mas explícito, e criou astros.
O novo sistema é menos transparente e gerou, por enquanto, uma ceninha incestuosa onde todo mundo toca com todo mundo, todo mundo é amigo de todo mundo, e que importa para muito poucos. E nem sei se importa mesmo, ou se é só a coisa descolada a fazer e dizer. Numa certa idade e círculos, ser aceito como descolado é importante. O termo moderninho para se falar descolado é hipster. Hipsters querem falar com hipsters. Aparecer no Datena ou tocar na rádio Disney seria ostracismo certo.
Uma diferença grita entre os artistas que despontaram em 1968 e os que despontam em 2012. Os tropicalistas começaram a emplacar quando se renderam à TV, ao Chacrinha. Sugiro ler o manifesto antitropicalista de Augusto Boal, comunista da ala mal-humorada. Ele cravou na época: os tropicalistas não usaram os programas de auditório para seus próprios fins; é o contrário; eles é que se renderam à lógica da comunicação de massa. Os baihunos (ê, Millôr!) retrucaram: patrulha. E neste fla-flu continuam muitos.
Os novos artistas da MIP não parecem almejar seu momento no Gugu. O sucesso de massa seria um fracasso, e a expulsão do mundinho hipster. Nada de Teleton para esta turma. Nada de festa do peão, capa da Caras, big money. É uma turma de Tom Zés — ninguém com a ambição desmedida e falta de decoro de um Caetano ou Gil. E, claro, nenhum Torquato Neto ou Rogério Duprat à vista.
Existe música que faz muito sucesso no Brasil, hoje. Sucesso imenso, tanto quanto os Simonais e Wanderléas que dominavam as paradas quando os Tropicalistas faziam toda aquela força para fazer sucesso. É o que eu chamo de Música Super Popular Brasileira, e frequentemente me chapa a relação cama-e-mesa destes artistas com a mídia. Leonardo cantando no Faustão, enquanto o filho luta pela vida no hospital, vai além da minha capacidade de ficar boquiaberto.
A maior parte desta música superpopular existe para embalar festas e amores, e para encher os bolsos seus criadores. É funcional. A Música Impopular Brasileira nem uma coisa nem outra. Não equaciono popularidade e validade estética. A arte mais preciosa frequentemente foi e é privilégio de poucos. Observo o óbvio. Uma geração de Tom Zés terá o impacto limitado do seu patrono. Chamar isso de sucesso é fracassar.

André Forastieri

Nenhum comentário:

Postar um comentário