Capítulo 63 – MIB – MÚSICA IMPOPULAR BRASILEIRA
Leio a milionésima megarreportagem vendendo
as maravilhas da tal nova MPB. Há quem a chame de indie, música feita de
maneira independente dos meios de comunicação de massa, das gravadoras e rádios
e jabá e TV.
Esta
matéria tem direito a fotos dos artistas posando como os artistas de décadas
passadas, Rita Lee, Tim Maia, Cartola. A mais chamativa tem um time de caras
novas imitando a pose da capa de Tropicália, o disco que lançou Gil, Caetano,
Gal, e o movimento que até hoje dá assunto. É gente como Romulo Fróes, Márcia
Castro, Naná Rizinni, Marcelo Jeneci e Emicida.
Quem? Não
se avexe. Ninguém conhece, fora jornalistas, publicitários e similares. Ninguém
ouve. Ninguém se importa. Eles não fazem MPB, Música Popular Brasileira. Fazem
MIP: Música Impopular Brasileira.
No Valor
Econômico, mesmo final de semana, o jornalista Tárik de Souza garante que os
ídolos dos anos 60, tropicalistas à frente, é que continuam comandando a massa.
Banca a afirmação com números: Caetano vendeu nove mil cópias de seu último
disco. Isso é ser popular? E Paula Fernandes é o quê?
A nova geração da música brasileira, como a nova geração do
nosso cinema, e a nova geração da nossa literatura, está
confortável na sua eterna impopularidade e no seu eterno sucesso de crítica.
Porque vive confortavelmente sendo impopular. E os elogios da crítica, além de
acariciar o ego, garantem uns caraminguás no circuito que paga bem pelo perfume
da descolância. Não discuto se tem livro bom aqui e canção maravilhosa acolá.
Não é o ponto.
Minha explicação para esse estado de coisas é sociológica e
psicológica, e rasinha e panorâmica. Ano passado resumi em uma frase. A publicação das duas reportagens no mesmo
final de semana me cutuca.
Todo mundo
conhece a geração que decolou nos festivais, e eles continuam influindo nos
criadores mais jovens. Continuam nas primeiras páginas dos cadernos de artes e
nas capas das revistas de cultura. Os shows, 90% hits do século passado, lotam
com nostálgicos de bolsos fundos. Mas Chico Buarque, Gil e Cia. não estão nas
homepages dos portais, nem nos programas de auditório. Não dão clique, não
atraem audiência, não fazem sucesso. Ninguém ouve. Ninguém se importa. Hoje
também fazem MIP.
Jornalista
tem que contar uma história. Geralmente conta a sua. Muitas vezes, em vez de
abrirmos os olhos para o universo lá fora, nos deixamos hipnotizar pelas
estrelinhas próximas, à nossa altura e ao alcance de nossas mãos. Daí é um
passo para concluirmos: essa geração é minha turma, a minha turma é que fez ou
faz história, e, portanto, eu, que registro a cena, e ajudo a construí-la, faço
história também. Sou importante. I’m a star.
Tárik vê o
mundo pelos olhos de seus contemporâneos. Quem não? Nunca fui crítico musical
nem militante cultural, mas fiz minha partezinha para empurrar para os
holofotes a turma que despontou no início dos 90, mangue beat, Raimundos,
Planet Hemp etc. Foi uma espécie de new wave tupi atrasada, múltiplos gêneros e
discursos, verdadeiramente internacionais, organicamente brasileiros. Nenhuma
revolução, não, mas valeu. Eles falaram com os jovens da época de igual para
igual. Arejaram o ambiente. Não tenho saudade.
A comparação da geração 2012 com a Tropicália é forçada. Em comum,
só a obscuridade dos retratados hoje com os tropicalistas, no dia do lançamento
de Tropicália. Esses novos nomes da música brasileira falam com pouquíssimos
(assim como os velhos hoje). O camarada Maurício Ângelo resumiu bem no site
Movin Up: O indie vai bem, falta falar com o público.
Antigamente, dinheiro de músico vinha de vender disco e ingresso
pra show. É para isso que eles queriam aparecer (e para pegar mulher/homem,
naturalmente). Famosos, as gravadoras pagavam
propina para eles tocarem no rádio e aparecerem na TV. Hoje, há muitas
outras maneiras, patrocínios daqui, leis de incentivo dacolá, usar o tênis tal
no videoclipe e pronto. O sistema antigo era podrão, mas explícito, e criou
astros.
O novo
sistema é menos transparente e gerou, por enquanto, uma ceninha incestuosa onde
todo mundo toca com todo mundo, todo mundo é amigo de todo mundo, e que importa
para muito poucos. E nem sei se importa mesmo, ou se é só a coisa descolada a
fazer e dizer. Numa certa idade e círculos, ser aceito como descolado é
importante. O termo moderninho para se falar descolado é hipster. Hipsters
querem falar com hipsters. Aparecer no Datena ou tocar na rádio Disney seria
ostracismo certo.
Uma
diferença grita entre os artistas que despontaram em 1968 e os que despontam em
2012. Os tropicalistas começaram a emplacar quando se renderam à TV, ao
Chacrinha. Sugiro ler o manifesto antitropicalista de Augusto Boal, comunista
da ala mal-humorada. Ele cravou na época: os tropicalistas não usaram os
programas de auditório para seus próprios fins; é o contrário; eles é que se
renderam à lógica da comunicação de massa. Os baihunos (ê, Millôr!) retrucaram:
patrulha. E neste fla-flu continuam muitos.
Os novos
artistas da MIP não parecem almejar seu momento no Gugu. O sucesso de massa
seria um fracasso, e a expulsão do mundinho hipster. Nada de Teleton para esta
turma. Nada de festa do peão, capa da Caras, big money. É uma turma de Tom Zés
— ninguém com a ambição desmedida e falta de decoro de um Caetano ou Gil. E,
claro, nenhum Torquato Neto ou Rogério Duprat à vista.
Existe
música que faz muito sucesso no Brasil, hoje. Sucesso imenso, tanto quanto os
Simonais e Wanderléas que dominavam as paradas quando os Tropicalistas faziam
toda aquela força para fazer sucesso. É o que eu chamo de Música Super Popular
Brasileira, e frequentemente me chapa a relação cama-e-mesa destes artistas com
a mídia. Leonardo cantando no Faustão, enquanto o filho luta pela vida no
hospital, vai além da minha capacidade de ficar boquiaberto.
A maior
parte desta música superpopular existe para embalar festas e amores, e para
encher os bolsos seus criadores. É funcional. A Música Impopular Brasileira nem
uma coisa nem outra. Não equaciono popularidade e validade estética. A arte
mais preciosa frequentemente foi e é privilégio de poucos. Observo o óbvio. Uma
geração de Tom Zés terá o impacto limitado do seu patrono. Chamar isso de
sucesso é fracassar.
André
Forastieri
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