Capítulo 57 – HÁ QUEM TENHA MEDO DE QUE O MEDO ACABE
O medo foi um dos meus primeiros mestres, antes de ganhar confiança
em suas reais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios, os
anjos quando chegaram já era para me guardarem. Os anjos atuavam como uma
espécie de agentes de segurança privada das almas. Nem sempre os que me
protegiam sabiam a diferença entre sentimento e realidade, isso acontecia por
exemplo quando me ensinavam a recear os desconhecidos, na realidade a maior
parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos,
mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância
reproduziam esse velho engano de estamos mais seguros em ambientes que
reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de que eu estaria
mais protegido apenas por não me aventurar para lá da fronteira da minha
língua, da minha cultura, do meu território. O medo afinal foi o mestre que
mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal uma invisível mão
roubava a minha coragem de viver e audácia de ser eu mesmo. No horizonte
vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura algo me sugeriu o
seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas má, do que coisas má
propriamente ditas. Não sabia que pro ideal que nasci e cresci a narrativa do
medo tinha uma invejável casta internacional. Os chineses que comiam crianças,
os chamados turistas que lutavam por independência e um ateu barbudo como um
anormal. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas, morreu quando
morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes a nossa porta, os ditos
turistas são hoje governantes respeitáveis e Carl Marx, o ateu barbudo, é um
simpático avô que não deixou descendência. O preço, dessa construção de terror,
foi, no entanto, trágico para o continente africano, em nome da luta pelo
comunismo como sendo uma das mais indivisíveis barbaridades em nome da
segurança mundial foram colocados e conservados no poder alguns dos ditadores
mais sanguinários de toda a história. A mais grave dessa longa herança de
intervenção externa é a facilidade com que essas elites africanas continuam a
culpar os outros com os seus próprios fracassos. A guerra fria esfriou, mas o
maniqueísmo que se tinha não desarmou inventando rapidamente outras geografias
do medo ao oriente e o ocidente e porque se trata de entidades demoníacas, não
bastam os seculares de outras nações, precisamos de intervenção com
legitimidades divinas. O que era ideologia passou a ser crença e o que era
política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de
poder. Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos, para produzir inimigos
é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um
dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que em segredo tomam
decisões em nosso nome. É isto o que nos dizem. Para superar as ameaças
domesticas precisamos de mais polícia, de mais prisões, mais segurança privada
e menos privacidade. Para enfrentarmos as ameaças globais, precisamos de mais
exércitos, de mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa
cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos
sabemos que sobre o caminho, poderia começar pelo desejo de conhecermos melhor
esses caminhos o que do outro lado aprendemos a chamar “eles. ” Aos adversários
políticos e militares junta-se agora o clima, a demografia e epidemias. O
sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é
traiçoeira e a humanidade é imprevisível. Vivemos como cidadãos e como espécie
em permanente situação de emergência. Como em qualquer outro estado de sítio as
liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a
racionalidade deve ser suspensa. Todas essas restrições servem para que não
sejam feitas perguntas, como por exemplo estas: por que motivo a crise
financeira não atingiu a indústria do armamento? Por que motivo se gastou no
ano passado um trilhão e meio de dólares em armamento militar? Por que razão os
que hoje tentam proteger os civis da Líbia, são exatamente os que mais armas
venderam aos Líbios de al-Gaddafi? Por que motivo se realizam mais seminários
sobre segurança do que sobre justiça? Se queremos resolver e não apenas
discutir a segurança mundial, teremos que enfrentar ameaças bem reais e
urgentes. Há uma arma de destruição maciça que está sendo usada todos os dias,
em todo o mundo, sem que seja preciso o pretexto de guerra, essa arma chama-se
fome. Em pleno século vinte e um, um em cada seis ser humano passa fome. O
custo para superar a fome mundial seria uma fração muito pequena do que se
gasta em armamento. A fome será sempre em vida a maior causa de segurança do
nosso tempo. Mencionar ainda outra silenciando a violência: em todo o mundo uma
em cada três mulheres foi ou será vítima de violência sexual durante seu tempo
de vida. É verdade, sobre uma grande parte do nosso planeta pesa uma condenação
antecipada sobre o fato simples de serem mulheres. A nossa indignação por aí é
bem menor pelo medo, sem darmos contas fomos convertidos em soldados de um
exército sem nome e como militar sem farda deixamos de questionar. Deixamos de
fazer perguntas e discutir razões. As questões éticas estão esquecidas por está
provada a barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra não temos que
fazer prova de coerência, nem de ética, nem de legalidade. É sintomática a
única construção humana que pode ser vista de espaço, seja uma muralha. A grande
muralha foi erguida para proteger a china das guerras e das invasões. A muralha
não evitou conflitos e nem parou os invasores. Possivelmente morreram mais
chineses construindo a muralha do que vítimas das invasões do que realmente
aconteceram. Dizem que alguns dos trabalhadores que morreram foram emparedados na
sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são a metáfora
do quanto o medo pode nos aprisionar. Há muros que separam nações, há muros que
dividem pobres e ricos, mas não há hoje no mundo muros que separam os que têm
medo dos que não têm medo. Sobre as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós,
sul e norte, do acidente ao oriente. Os que trabalham têm medo de perder o
trabalho, os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho, quando não
tem medo da fome, tem medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os
militares têm medo da falta de armas e as armas têm medo da falta de guerras e
se calhar acrescento agora eu, há quem tenha medo de que o medo acabe.
Mia Couto
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