terça-feira, 25 de julho de 2017

Capítulo 57 – HÁ QUEM TENHA MEDO DE QUE O MEDO ACABE

O medo foi um dos meus primeiros mestres, antes de ganhar confiança em suas reais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios, os anjos quando chegaram já era para me guardarem. Os anjos atuavam como uma espécie de agentes de segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam a diferença entre sentimento e realidade, isso acontecia por exemplo quando me ensinavam a recear os desconhecidos, na realidade a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para lá da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território. O medo afinal foi o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal uma invisível mão roubava a minha coragem de viver e audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura algo me sugeriu o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas má, do que coisas má propriamente ditas. Não sabia que pro ideal que nasci e cresci a narrativa do medo tinha uma invejável casta internacional. Os chineses que comiam crianças, os chamados turistas que lutavam por independência e um ateu barbudo como um anormal. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas, morreu quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes a nossa porta, os ditos turistas são hoje governantes respeitáveis e Carl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência. O preço, dessa construção de terror, foi, no entanto, trágico para o continente africano, em nome da luta pelo comunismo como sendo uma das mais indivisíveis barbaridades em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no poder alguns dos ditadores mais sanguinários de toda a história. A mais grave dessa longa herança de intervenção externa é a facilidade com que essas elites africanas continuam a culpar os outros com os seus próprios fracassos. A guerra fria esfriou, mas o maniqueísmo que se tinha não desarmou inventando rapidamente outras geografias do medo ao oriente e o ocidente e porque se trata de entidades demoníacas, não bastam os seculares de outras nações, precisamos de intervenção com legitimidades divinas. O que era ideologia passou a ser crença e o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder. Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos, para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que em segredo tomam decisões em nosso nome. É isto o que nos dizem. Para superar as ameaças domesticas precisamos de mais polícia, de mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentarmos as ameaças globais, precisamos de mais exércitos, de mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que sobre o caminho, poderia começar pelo desejo de conhecermos melhor esses caminhos o que do outro lado aprendemos a chamar “eles. ” Aos adversários políticos e militares junta-se agora o clima, a demografia e epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade é imprevisível. Vivemos como cidadãos e como espécie em permanente situação de emergência. Como em qualquer outro estado de sítio as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa. Todas essas restrições servem para que não sejam feitas perguntas, como por exemplo estas: por que motivo a crise financeira não atingiu a indústria do armamento? Por que motivo se gastou no ano passado um trilhão e meio de dólares em armamento militar? Por que razão os que hoje tentam proteger os civis da Líbia, são exatamente os que mais armas venderam aos Líbios de al-Gaddafi? Por que motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça? Se queremos resolver e não apenas discutir a segurança mundial, teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. Há uma arma de destruição maciça que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que seja preciso o pretexto de guerra, essa arma chama-se fome. Em pleno século vinte e um, um em cada seis ser humano passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fração muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será sempre em vida a maior causa de segurança do nosso tempo. Mencionar ainda outra silenciando a violência: em todo o mundo uma em cada três mulheres foi ou será vítima de violência sexual durante seu tempo de vida. É verdade, sobre uma grande parte do nosso planeta pesa uma condenação antecipada sobre o fato simples de serem mulheres. A nossa indignação por aí é bem menor pelo medo, sem darmos contas fomos convertidos em soldados de um exército sem nome e como militar sem farda deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e discutir razões. As questões éticas estão esquecidas por está provada a barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra não temos que fazer prova de coerência, nem de ética, nem de legalidade. É sintomática a única construção humana que pode ser vista de espaço, seja uma muralha. A grande muralha foi erguida para proteger a china das guerras e das invasões. A muralha não evitou conflitos e nem parou os invasores. Possivelmente morreram mais chineses construindo a muralha do que vítimas das invasões do que realmente aconteceram. Dizem que alguns dos trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são a metáfora do quanto o medo pode nos aprisionar. Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos, mas não há hoje no mundo muros que separam os que têm medo dos que não têm medo. Sobre as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, sul e norte, do acidente ao oriente. Os que trabalham têm medo de perder o trabalho, os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho, quando não tem medo da fome, tem medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas e as armas têm medo da falta de guerras e se calhar acrescento agora eu, há quem tenha medo de que o medo acabe.

Mia Couto             

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