Capítulo 53 – SAMBA, CARNAVAL E MUITO SUOR
O ano havia acabado se tornando passado;
acabara de ficar pelo caminho dando lugar a um novo. Estávamos em pleno começo
do ano novo, ainda com a boca seca e ruminando gostos misturados de uma ressaca
recente, quando a nossa frente já se vislumbrava uma outra festa, a do Rei
Momo. Confesso, não sou chegado a esse festejo. Nunca tive vocação para folião.
Sempre nessa data ou época do ano, eu, se aparecesse oportunidade, fugia para
qualquer lugar longe dos tamborins. Incentivo quem goste e dou a maior força
para os três dias sem parar, mas eu não. O máximo que eu chegava, era assistir,
se não viajasse, ao desfile das escolas de samba. É, sem sombra de dúvidas, um
espetáculo de grande magnitude e sem correr o risco de errar, uma das maiores e
mais bonita festa popular do país, quiçá, do mundo.
Eu estava sempre junto ao um amigo, naquela
época, que tinha como profissão, talento e dom, ponho tudo junto, pois era-lhe
uma coisa nata, executar certos trabalhos em pequenos, médios e grandes
cartazes, placas, portas, ou seja o que desse e lhe contratasse para escrever à
mão livre. Tinha uma precisão milimétrica e uma técnica de dar inveja aos que
saiam de qualquer curso, além de realizar trabalhos em silkscreen. Estávamos em
plena Praça Tiradentes, lugar de compositores, mulher da vida fácil, travestis
e jogadores. Nós nos posicionávamos entre os compositores e os jogadores de
sinuca, mas não apostávamos, só gostávamos de jogar e diga-se de passagem eu
jogava muito bem. Entre um cafezinho aqui e outro logo mais, sempre cruzávamos
com um conhecido e num desses momentos, ficamos sabendo que haveria uma reunião
com os diretores da Banda da Tiradentes, que sairia durante o carnaval. Vinham
desde o meio do ano com um projeto para resgatar a tradição da Banda. Meu amigo
me disse que iria participar da reunião, eu como não estava a fim, disse-lhe
que iria para casa e que voltaríamos a nos ver no dia seguinte, assim fizemos.
Nos encontramos dia seguinte e ele veio com uma novidade surpreendente.
Disse-me que no decorrer da reunião, um membro do conselho deu a ideia de se
fazer um adorno, um adereço, que não seria carregado na mão e sim na cabeça, ou
seja, uma faixa com o nome da banda. Então, diante desse fato e com a aprovação
dos demais, ele se adiantou e disse que fazia. Depois que a reunião acabou,
ficou para conversar a respeito de saber detalhes como: quantidade, cor,
largura e, claro apresentar o orçamento. Agora, vinha a parte que eu estava
doido para perguntar, mas ele não deu nem tempo. Já com tudo acertado, reuniu
coragem e pediu adiantamento de cinquenta por cento, pois não tinha um puto
para comprar o material. Disse que de cara o momento ficou tenso, mas havia um amigo
que avalizou e garantiu que ele não iria aplicar nenhum golpe, mesmo porque se
o fizesse... Diante do acontecido, virou-se para mim e perguntou: “Está sem
trabalho? Precisando de uma grana? Então, vem me ajudar, que levarás um
qualquer para passar bem o carnaval. ” “Já
é! Tamo junto! ” Os dias transcorreram
com a gente indo a diversos lugares para comprar o material mais em conta. Tudo
comprado e a tela do silk pronta, começamos a fabricação. Eu ajudava em tudo
que não fosse a arte final, ou seja, na preparação, como o corte do tamanho da
fita, tira-las após a impressão para a secagem e por aí vai. Realmente dá um
trabalhão. Sozinho, dava para fazer, mas demoraria bem mais para terminar o
serviço, além de que o convite tinha a finalidade de me dar uma força, pois
estava caído de dinheiro, ao contrário dele que durante o dia trabalhava para
uma loja e o serviço quando pegou já sabia que teria de realiza-lo a noite,
então, juntou a fome com a vontade de comer, um dinheirinho extra para ele e um
para mim que estava precisando. Não demoramos muito para realizar o combinado.
Entregamos o material, que fora minuciosamente analisado, que recebeu aprovação
unanime. Pagamento feito e antes de nós nos despedirmos, o presidente da banda
pediu para esperar um instante, foi até uma mesa, rabiscou num papel e quando
voltou, entregou ao meu amigo dizendo-lhe: “Vai nesse endereço, é um bar,
procura uma pessoa com esse nome e diz que foi eu que te mandei, entrega esse
cartão, e diz a ele que você faz o que estão precisando, mas não demora, se
puder vá amanhã. ” Agradecemos muito e
saímos dali eufóricos com a nova possibilidade. Daí veio a ideia de que ali no
ponto dos compositores nós poderíamos arrumar mais serviço, principalmente essa
das faixas de cabeça com o nome de banda, escola de samba, blocos, só tínhamos
que conversar com alguns amigos sambistas que frequentavam o lugar. Mas antes
de colocarmos em prática a nossa ideia, fomos ao tal endereço, encontrar o tal
sujeito, a fim de fechar mais serviço. No local, um bar, era noite, perguntamos
ao balconista pelo nome do sujeito, que apontou para o final do salão, onde se
encontrava uns caras reunidos em duas mesas, repletas de garrafas de cervejas e
uma de whisky. Quando nos aproximamos, ninguém se importou com a nossa presença,
nós não tínhamos cara de qualquer ameaça, continuavam o papo animadamente,
tivemos que pedir licença com a intenção de chamar a atenção e quando
conseguimos, pedimos para falar com o indicado. Todos ali eram bem mais velhos
que nós, eram senhores maduros, marcados pela vida, de repente virou-se um e
disse ser ele e o que nós queríamos. Mostramos o cartão e desfiamos o nosso
rosário. Ao terminarmos, ele perguntou se além das faixas nós também fazíamos
camisetas com o brazão da Banda e o nome, meu amigo afirmou eu sim. Voltando-se
para o grupo, parecia que ali se resolvia tudo, perguntou o que eles achavam,
veio um monte de pergunta para ele e para nós e finalmente começaram a sondar
qual seria o custo, para isso fora necessário fazermos anotações com a
quantidade de camisetas, o Brazão, as palavras e o número de faixas. Recolhida
as informações ficamos de voltar outro dia para a entrega do orçamento. Antes
de partirmos, perguntamos se teríamos que comprar as camisetas ou eles as
forneceriam; não teríamos que comprar, só estampar. Três dias depois nos
encontrávamos no bar apresentando o orçamento, claro, que veio aquele famosa
chorada, mas nós sabíamos que eles tinham dinheiro, então criamos uma série de
alegações, mas no fim diminuímos um pouco. Bem, negócio fechado, agora é que
vinha a pior parte, que não tinha como ser diferente, nós estávamos começando,
portanto, cheios de dedos, escolhemos um e enfiamos na ferida, saiu o pedido de
adiantamento. O tempo fechou. Alguns falavam com uma certa sutileza, mas havia
um que era um grosso, não tinha papas na língua, seu linguajar detonava ofensas
e deixava bem claro que nós iriamos aplicar um golpe. Nós sabíamos que não era
fácil, mas fazer o quê? Sem adiantamento nada feito, então, o sujeito que fora
indicado chamou-nos a sentar e, olhando dentro dos nossos falou pouco, mas
disse tudo: “Escuta, eu vou dar o adiantamento, mas fiquem sabendo que seja lá
aonde vocês morem, se não aparecerem com a encomenda eu acho vocês. Tá bom? ”
Meteu a mão no bolso e tirou um maço de notas, contou e passou para a mão do
meu amigo. Meio sem jeito nos despedimos, para começar com as faixas, as
camisetas voltaríamos daqui a cinco dias para pega-las. O sem educação ainda
quis nos atrapalhar, adjetivando-nos com o seu vocabulário chulo, mas o major,
é, essa era a patente do homem, não deu ouvidos. Dentro do ônibus conseguimos
relaxar um pouco, contudo a lembrança recente nos deixava assustados. Ainda,
mais tarde, brincamos imitando o Zé do Contra, coisa rápida, pois a responsa
era eminente. Entramos em ação imediatamente. Os dias passaram rapidamente,
enquanto fazíamos as faixas, tão rápido que já estava na hora de buscar as
camisetas. Como já tínhamos um bom número de faixas, levamos conosco para
adoçar a boca principalmente do Zé do Contra. Quando mostramos o trabalho,
todos ficaram animados, quer dizer quase todos, mas também não ouve reclamação,
agora foi recomendação, ao nos entregarem as camisetas, a do sujeitinho era
diferente, ele havia comprado a dele num outro tecido e um pouco diferente e
fez questão de entrega-la de suas próprias mãos, com a recomendação para que
caprichássemos. Deixamos os meninos brincando com as faixas e voltamos para o
ateliê, tínhamos muito trabalho para realizar. Terminamos as faixas. Agora
começava o trabalho mais apurado. Preparada as telas, partimos para impressão.
Eram duas impressões, então tínhamos que realizar a primeira e esperar que
secasse para vir e terminar o serviço com a segunda impressão. Como eu falei
anteriormente, nós trabalhávamos a noite, as vezes íamos até de madrugada, tal
o ritmo que resolvemos empregar. Como todas a camisetas eram iguais, com
exceção da do sujeitinho, então, deixamos ela por último. Acabamos a impressão
de todas e aí meu amigo pegou a tal camiseta e colocou para faze-la, só que ela
receberia uma tinta diferente, mas distraidamente ele sapecou a mesma tinta das
outras, quando levantou a tela e viu, quase enfartou, justo a dele, aquilo era
muito castigo. Acendemos um cigarro cada um e fomos fumar enquanto ela secava.
Na nossa cabeça só víamos a imagem do sujeito descarregando sua fúria em cima
de nós. Enquanto fumávamos, meu amigo teve uma ideia um tanto arriscada, mas
que poderia dar certo, ele teria que ter muita precisão, porem era uma saída.
Voltamos a atenção para a camisa, ela já havia secado, daí ele pegou a peça,
colocou em posição de uma nova impressão, ainda perguntei: “Vai imprimir em
cima da impressão? É isso? ” No que me respondeu que sim, faria por cima, bem
em cima, cobrindo a tinta anterior. Ajustou milimetricamente, baixou a tela e
sapecou a tinta certa, olhou pro céu e pediu a Deus que desse certo. Ao
levantar a tela o resultado foi outro, para espanto nosso as duas tintas fizeram
com que o erro ficasse lindo, diferente, elas não se sobrepuseram, ao contrário,
ficaram ladeadas e isso provocou um efeito que certamente, como observou bem
meu amigo, jamais seria repetido, porém, ainda assim, não tínhamos certeza de
que o chato ficaria satisfeito ou puto. Bem amigos, como essa história se
prolonga um pouco mais que as demais, terei de faze-la em duas partes, então,
peço paciência e marcamos um novo encontro, para terminarmos esse papo, na
semana que vem. Inté!
Nenhum comentário:
Postar um comentário