domingo, 18 de junho de 2017

Capítulo 53 – SAMBA, CARNAVAL E MUITO SUOR

O ano havia acabado se tornando passado; acabara de ficar pelo caminho dando lugar a um novo. Estávamos em pleno começo do ano novo, ainda com a boca seca e ruminando gostos misturados de uma ressaca recente, quando a nossa frente já se vislumbrava uma outra festa, a do Rei Momo. Confesso, não sou chegado a esse festejo. Nunca tive vocação para folião. Sempre nessa data ou época do ano, eu, se aparecesse oportunidade, fugia para qualquer lugar longe dos tamborins. Incentivo quem goste e dou a maior força para os três dias sem parar, mas eu não. O máximo que eu chegava, era assistir, se não viajasse, ao desfile das escolas de samba. É, sem sombra de dúvidas, um espetáculo de grande magnitude e sem correr o risco de errar, uma das maiores e mais bonita festa popular do país, quiçá, do mundo.
Eu estava sempre junto ao um amigo, naquela época, que tinha como profissão, talento e dom, ponho tudo junto, pois era-lhe uma coisa nata, executar certos trabalhos em pequenos, médios e grandes cartazes, placas, portas, ou seja o que desse e lhe contratasse para escrever à mão livre. Tinha uma precisão milimétrica e uma técnica de dar inveja aos que saiam de qualquer curso, além de realizar trabalhos em silkscreen. Estávamos em plena Praça Tiradentes, lugar de compositores, mulher da vida fácil, travestis e jogadores. Nós nos posicionávamos entre os compositores e os jogadores de sinuca, mas não apostávamos, só gostávamos de jogar e diga-se de passagem eu jogava muito bem. Entre um cafezinho aqui e outro logo mais, sempre cruzávamos com um conhecido e num desses momentos, ficamos sabendo que haveria uma reunião com os diretores da Banda da Tiradentes, que sairia durante o carnaval. Vinham desde o meio do ano com um projeto para resgatar a tradição da Banda. Meu amigo me disse que iria participar da reunião, eu como não estava a fim, disse-lhe que iria para casa e que voltaríamos a nos ver no dia seguinte, assim fizemos.
Nos encontramos dia seguinte e ele veio com uma novidade surpreendente. Disse-me que no decorrer da reunião, um membro do conselho deu a ideia de se fazer um adorno, um adereço, que não seria carregado na mão e sim na cabeça, ou seja, uma faixa com o nome da banda. Então, diante desse fato e com a aprovação dos demais, ele se adiantou e disse que fazia. Depois que a reunião acabou, ficou para conversar a respeito de saber detalhes como: quantidade, cor, largura e, claro apresentar o orçamento. Agora, vinha a parte que eu estava doido para perguntar, mas ele não deu nem tempo. Já com tudo acertado, reuniu coragem e pediu adiantamento de cinquenta por cento, pois não tinha um puto para comprar o material. Disse que de cara o momento ficou tenso, mas havia um amigo que avalizou e garantiu que ele não iria aplicar nenhum golpe, mesmo porque se o fizesse... Diante do acontecido, virou-se para mim e perguntou: “Está sem trabalho? Precisando de uma grana? Então, vem me ajudar, que levarás um qualquer para passar bem o carnaval. ”  “Já é! Tamo junto! ”  Os dias transcorreram com a gente indo a diversos lugares para comprar o material mais em conta. Tudo comprado e a tela do silk pronta, começamos a fabricação. Eu ajudava em tudo que não fosse a arte final, ou seja, na preparação, como o corte do tamanho da fita, tira-las após a impressão para a secagem e por aí vai. Realmente dá um trabalhão. Sozinho, dava para fazer, mas demoraria bem mais para terminar o serviço, além de que o convite tinha a finalidade de me dar uma força, pois estava caído de dinheiro, ao contrário dele que durante o dia trabalhava para uma loja e o serviço quando pegou já sabia que teria de realiza-lo a noite, então, juntou a fome com a vontade de comer, um dinheirinho extra para ele e um para mim que estava precisando. Não demoramos muito para realizar o combinado. Entregamos o material, que fora minuciosamente analisado, que recebeu aprovação unanime. Pagamento feito e antes de nós nos despedirmos, o presidente da banda pediu para esperar um instante, foi até uma mesa, rabiscou num papel e quando voltou, entregou ao meu amigo dizendo-lhe: “Vai nesse endereço, é um bar, procura uma pessoa com esse nome e diz que foi eu que te mandei, entrega esse cartão, e diz a ele que você faz o que estão precisando, mas não demora, se puder vá amanhã. ”  Agradecemos muito e saímos dali eufóricos com a nova possibilidade. Daí veio a ideia de que ali no ponto dos compositores nós poderíamos arrumar mais serviço, principalmente essa das faixas de cabeça com o nome de banda, escola de samba, blocos, só tínhamos que conversar com alguns amigos sambistas que frequentavam o lugar. Mas antes de colocarmos em prática a nossa ideia, fomos ao tal endereço, encontrar o tal sujeito, a fim de fechar mais serviço. No local, um bar, era noite, perguntamos ao balconista pelo nome do sujeito, que apontou para o final do salão, onde se encontrava uns caras reunidos em duas mesas, repletas de garrafas de cervejas e uma de whisky. Quando nos aproximamos, ninguém se importou com a nossa presença, nós não tínhamos cara de qualquer ameaça, continuavam o papo animadamente, tivemos que pedir licença com a intenção de chamar a atenção e quando conseguimos, pedimos para falar com o indicado. Todos ali eram bem mais velhos que nós, eram senhores maduros, marcados pela vida, de repente virou-se um e disse ser ele e o que nós queríamos. Mostramos o cartão e desfiamos o nosso rosário. Ao terminarmos, ele perguntou se além das faixas nós também fazíamos camisetas com o brazão da Banda e o nome, meu amigo afirmou eu sim. Voltando-se para o grupo, parecia que ali se resolvia tudo, perguntou o que eles achavam, veio um monte de pergunta para ele e para nós e finalmente começaram a sondar qual seria o custo, para isso fora necessário fazermos anotações com a quantidade de camisetas, o Brazão, as palavras e o número de faixas. Recolhida as informações ficamos de voltar outro dia para a entrega do orçamento. Antes de partirmos, perguntamos se teríamos que comprar as camisetas ou eles as forneceriam; não teríamos que comprar, só estampar. Três dias depois nos encontrávamos no bar apresentando o orçamento, claro, que veio aquele famosa chorada, mas nós sabíamos que eles tinham dinheiro, então criamos uma série de alegações, mas no fim diminuímos um pouco. Bem, negócio fechado, agora é que vinha a pior parte, que não tinha como ser diferente, nós estávamos começando, portanto, cheios de dedos, escolhemos um e enfiamos na ferida, saiu o pedido de adiantamento. O tempo fechou. Alguns falavam com uma certa sutileza, mas havia um que era um grosso, não tinha papas na língua, seu linguajar detonava ofensas e deixava bem claro que nós iriamos aplicar um golpe. Nós sabíamos que não era fácil, mas fazer o quê? Sem adiantamento nada feito, então, o sujeito que fora indicado chamou-nos a sentar e, olhando dentro dos nossos falou pouco, mas disse tudo: “Escuta, eu vou dar o adiantamento, mas fiquem sabendo que seja lá aonde vocês morem, se não aparecerem com a encomenda eu acho vocês. Tá bom? ” Meteu a mão no bolso e tirou um maço de notas, contou e passou para a mão do meu amigo. Meio sem jeito nos despedimos, para começar com as faixas, as camisetas voltaríamos daqui a cinco dias para pega-las. O sem educação ainda quis nos atrapalhar, adjetivando-nos com o seu vocabulário chulo, mas o major, é, essa era a patente do homem, não deu ouvidos. Dentro do ônibus conseguimos relaxar um pouco, contudo a lembrança recente nos deixava assustados. Ainda, mais tarde, brincamos imitando o Zé do Contra, coisa rápida, pois a responsa era eminente. Entramos em ação imediatamente. Os dias passaram rapidamente, enquanto fazíamos as faixas, tão rápido que já estava na hora de buscar as camisetas. Como já tínhamos um bom número de faixas, levamos conosco para adoçar a boca principalmente do Zé do Contra. Quando mostramos o trabalho, todos ficaram animados, quer dizer quase todos, mas também não ouve reclamação, agora foi recomendação, ao nos entregarem as camisetas, a do sujeitinho era diferente, ele havia comprado a dele num outro tecido e um pouco diferente e fez questão de entrega-la de suas próprias mãos, com a recomendação para que caprichássemos. Deixamos os meninos brincando com as faixas e voltamos para o ateliê, tínhamos muito trabalho para realizar. Terminamos as faixas. Agora começava o trabalho mais apurado. Preparada as telas, partimos para impressão. Eram duas impressões, então tínhamos que realizar a primeira e esperar que secasse para vir e terminar o serviço com a segunda impressão. Como eu falei anteriormente, nós trabalhávamos a noite, as vezes íamos até de madrugada, tal o ritmo que resolvemos empregar. Como todas a camisetas eram iguais, com exceção da do sujeitinho, então, deixamos ela por último. Acabamos a impressão de todas e aí meu amigo pegou a tal camiseta e colocou para faze-la, só que ela receberia uma tinta diferente, mas distraidamente ele sapecou a mesma tinta das outras, quando levantou a tela e viu, quase enfartou, justo a dele, aquilo era muito castigo. Acendemos um cigarro cada um e fomos fumar enquanto ela secava. Na nossa cabeça só víamos a imagem do sujeito descarregando sua fúria em cima de nós. Enquanto fumávamos, meu amigo teve uma ideia um tanto arriscada, mas que poderia dar certo, ele teria que ter muita precisão, porem era uma saída. Voltamos a atenção para a camisa, ela já havia secado, daí ele pegou a peça, colocou em posição de uma nova impressão, ainda perguntei: “Vai imprimir em cima da impressão? É isso? ” No que me respondeu que sim, faria por cima, bem em cima, cobrindo a tinta anterior. Ajustou milimetricamente, baixou a tela e sapecou a tinta certa, olhou pro céu e pediu a Deus que desse certo. Ao levantar a tela o resultado foi outro, para espanto nosso as duas tintas fizeram com que o erro ficasse lindo, diferente, elas não se sobrepuseram, ao contrário, ficaram ladeadas e isso provocou um efeito que certamente, como observou bem meu amigo, jamais seria repetido, porém, ainda assim, não tínhamos certeza de que o chato ficaria satisfeito ou puto. Bem amigos, como essa história se prolonga um pouco mais que as demais, terei de faze-la em duas partes, então, peço paciência e marcamos um novo encontro, para terminarmos esse papo, na semana que vem. Inté!  

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