Capítulo 51 - FASCINAÇÃO
Certa vez recebi uma proposta para tocar num casamento. A priori fiquei desconfiado de poderia ser uma roubada, como se diz e, botei minha barba de molho. Como assim tocar num casamento? Banquinho e violão? Pedi para conversar com a noiva, mas nem precisei, me disseram que fora ela quem pedira a minha contratação. Então, pensei melhor e antes de aceitar, queria saber aonde se da noiva que daria o evento e se eu podia ver o espaço num todo e onde eu ficaria. Não era nada especial, era até simples, não diria acanhado, simples mesmo, me deixou mais animado e menos temeroso. O local já havia sido alugado há bastante tempo, a resolução quanto a minha contratação é que se deu próximo de celebração. Havia sido um pedido da noiva. Olha que coisa linda de saber. A mãe da que conversou comigo, foi quem me disse, fiquei lisonjeado. Ela também achou a ideia maravilhosa. Nessa conversa agradável, firmamos o custo do compromisso e eu não fui nem um pouco olho grande, ajustei exatamente o justo, que pelo que se seguiu pareceu-me dentro do esperado, pois em seguida ao valor mencionado, ela pediu-me pra esperar, momentaneamente se retirou do recinto e voltou me surpreendendo com o valor inteiro em dinheiro vivo, nota sobre nota, ainda aleguei que era desnecessário, bastava um adiantamento, mas recebi de volta uma repreensão: “Deixe de besteira! Nós confiamos em você e no seu trabalho. Temos certeza de que os convidados ficarão surpresos.” Depois dessa, só me restou prometer que faria o máximo para corresponder as expectativas. Nos despedimos calorosamente. No dia do casamento, cheguei na casa de festa duas horas antes, para arrumar as coisas, para que nada desse errado. Tinha que montar o equipamento no local, passar o som, verificar se atenderia adequadamente e satisfatoriamente durante a festa com o espaço cheio e, por aí vai… Depois de tudo nos conformes, nessas horas é que você se dá conta de como o tempo passa rápido, voa, quando dei por mim, adentrava um emissário avisando que a cerimônia do casamento havia acabado e que não demoraria muito os nubentes entrariam no salão. Eu havia separado uma música especial para entrada, se tratava de “fascinação”, então, me posicionei aguardando a chegada do casal, mas precisamente da noiva e quando ocorreu, ouviu-se por toda extensão do salão a música escolhida acompanhando os passos dos nubentes. As mesas estavam espalhadas pelo salão, permitindo adequadamente a movimentação dos garçons e eu me encontrava numa posição estratégica evitando pessoas perto da fiação, mas minha paz foi interrompida quando o número de convidados mostrou-se superior ao das mesas e cadeiras postas. Tiveram que recorrer ao estoque, colocando mais mesas e cadeiras e, inevitavelmente elas foram se aproximando de mim, que quando vi, estava cercado por elas. Tudo bem, fazer o quê? O que não tem remédio, remediado está. Fiquei aguardando que todos estivessem devidamente acomodados, mesmo porque a barulheira impedia que eu tocasse, não havia outro jeito. Então, quando tudo parecia resolvido, pude finalmente dar início a minha participação e contribuição. Fazia pouco tempo que eu havia começado, quando surgiu o primeiro imprevisto. Conforme as mesas foram colocadas ao meu redor, as pessoas, os garçons, começaram a transitar e com isso tropeçavam inadvertidamente na fiação, causando falta de corrente elétrica e consequentemente ausência de som. Na primeira eu pacientemente refiz a ligação, mas na terceira interrupção eu comecei a me irritar, foi quando surgiu uma alma caridosa e inteligente e resolveu o problema. Pegando a fiação, ele alçou fora do alcance das pessoas, passando por cima de suas cabeças, usou algumas amarras em pontos estratégicos e assim permitiu-me que prosseguisse com o meu trabalho sem sobressaltos e interrupções. Naquele momento eu me sentia o próprio artista que resolve fazer um show acústico sozinho bem próximo do seu fã clube. As pessoas a minha volta curtiam cada música com muito prazer, dava para se notar em seus olhos, o brilho e, ainda mais quando resolviam arriscar cantar algumas, não era nada muito alto, mas notava-se ou melhor ouvia-se. A sensação era maravilhosa, indescritível, tanto, que eu me empolguei e deixei para fazer o primeiro intervalo depois de quase duas horas no ar. Quando avisei que faria uma pequena pausa para beber água, fui efusivamente aplaudido. Agradeci e fui para o meu intervalo, aproveitando para comer alguma coisinha, que afinal cantor também é fio de Deus. Nesse meio tempo, parei para pensar que a minha escolha não foi por economia de dinheiro, foi por gosto, mas acredito que muita gente deve ter estranhado chegar na festa e encontrar um cara sozinho, cantando acompanhado apenas de um violão, não deixa de ser diferente, pois normalmente contrata-se uma banda, ou ainda, um cara que apronte uma aparelhagem que reproduza músicas por mais de cinco horas ininterruptamente, que hoje recebe o nome de DJ. Eu procurei dosar o volume do som, para não agredir muito e permitir que as pessoas pudessem confraternizar harmoniosamente entre os seus familiares. Numa ocasião dessa, existem tipos diferentes de grupos: Os familiares que até nem se encontram muito, só em enterro ou alguma festividade importante, como essa; os amigos mais chegados dos noivos, que também coincidentemente alguns são padrinhos e seus parentes; os vizinhos, nem todos, mas alguns acompanharam os noivos desde criança e são pessoas muito próximas dos pais; e claro, os que vem na aba. Pronto, estão aí o suficiente para encher um salão, mesmo com algumas baixas. Isso quando as famílias e os noivos concordam que a realização de uma festa não pode faltar, tem que documentar o momento. Para quem tem família grande torna-se um pesadelo, quase não sobra espaço para convidar amigos, sempre vão ficar de fora alguns, são decisões difíceis e amargas, para evitar isso só um megaevento, mas para isso o gasto no meu entender é desperdício. Deixando a divagação de lado, assumi meu posto, expondo agora uma outra face musical. Reproduzi para os convivas algumas pérolas do nosso rock brasileiro, passeando por várias bandas e roqueiros solos. Comecei pela jovem guarda até os grandes hits do nosso áureo movimento das bandas brasileiras. Vi que tinha gente querendo dançar, sacudi os ossos, só que não havia espaço, então, alguns acompanhavam com palmas, fazendo uma marcação e outros levantavam perto da mesa mexendo o corpo o quanto dava. Ficamos mais duas horas nessa batida. O meu violão era um folk com encordoamento de aço e, para melhorar o som dele, que já era bom, eu usava um pedal de efeito. Esse momento da festa, era aquele em que as pessoas estão mais alegres, mais soltas, devido ao efeito do álcool, que tem o poder de desinibir até carolas, então, era o momento certo, pena que não havia espaço para evaporá-lo dançando, mesmo assim, como eu disse, alguns se ajeitaram, ou seria, se atreveram. Não importa. O que importa é que foram duas horas de imensa alegria, tanto para eles, quanto para mim. Ao final, eu estava precisando descansar um pouco, mas era só uns vinte minutos, que já já eu estaria pronto para a última rodada. Quando parei e pedi tempo, dessa vez não foram só aplausos, vieram apupos e assobios. No descanso, não chegava a ser bem um descanso, vinham pessoas me cumprimentar e queriam conversar, como se eu fosse um astro da música popular, faziam perguntas, eu tinha que me conter, sem parecer esnobe, para preservar a minha voz. Se houvesse um camarim, como faz falta nessas horas, eu beberia minha água e esticaria o corpo numa confortável poltrona ou num sofá, calado ou falando o mínimo possível e em tom baixo. Mas ali, era outra coisa, era sem essas frescuras, quem é que liga para isso ou sabe. Eu tinha mais é que aproveitar o momento de glória e era isso que acontecia. Nessas horas nem sobe nos saltos, mantenha-se humilde e verdadeiro com os que se aproximam, afinal eu não era em nada melhor do que eles e ninguém, mesmo os consagrados não o são. Eu mesmo admiro o trabalho de muitos músicos, compositores, cantores, mas não babo, não idolatro e se cobrarem muito caro para eu sair de casa para assisti-los, vão ficar no vácuo. Concordo que esse tipo de trabalho, que é artístico, merece reconhecidamente ter seu valor, mas nada exorbitante. Para isso existem eventos realizados para pessoas que podem se dar ao luxo de pagar o luxo, as vezes pagam alto até para um lixo, o que eu não aceito, aí me desculpe quem veste a carapuça, quem não tem condições e se endividam ou outra coisa, só para ficar no gargalo do show do bonitinho ou bonitinha. Se liga, eles não te enxergam, faça alguma melhor para a sua vida. Realize você alguma coisa. Admiração não pode se confundir com veneração. Admire sim, quem você acha o máximo, mas não venere ninguém, só porque canta legal ou toca maneiro, pense que ele come, caga, ronca, cospe, fede, adoece, tem cárie, igualzinho a você. Pronto falei! Quando voltei para o encerramento, resolvi fazer uma levada mais calma, afinal estava chegando a hora de cortar o bolo, finalizar as fotos e, caçar rumo. Dessa vez fiquei só uma hora, pois completaria as cinco da contratação, se houvesse necessidade ficaria mais, mas não foi preciso, a maioria das pessoas realmente estavam se despedindo. Não tive mais nenhuma contratação para casamento. Acredito que esse foi atípico nesse quesito. Normalmente são músicas eletrônicas ou bandas, como já citei anteriormente. Foi uma experiência maravilhosa, tão maravilhosa que resolvi relatar. Inté!
Os sonhos mais lindos sonhei
De quimeras mil, um castelo ergui
E no teu olhar, tonto de emoção,
Com sofreguidão, mil venturas previ
O teu corpo é luz, sedução
Poema divino cheio de esplendor
Teu sorriso quente, inebria, entontece
És fascinação, amor
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