sábado, 1 de abril de 2017

Capítulo 43 – FESTA NA PARÓQUIA

Ainda na época da casa de festa.
Andava eu numa correria danada. Além de sexta-feira ter que tocar, em virtude dessa pequena exposição, chovia convite para eventos: casamentos, confraternização de funcionários, aniversários, a maioria era na casa de festa mesmo. Um desses convites, porém, que não seria na casa de festa, foi o de um Monsenhor que era pároco numa igreja em outro bairro, mas que exercia em nossa paróquia participação na administração. Haviam lhe recomendado os meus préstimos, para tocar numa festa que a sua paróquia iria realizar. Ele me procurou para saber se para o dia eu estaria disponível e se o convite seria aceito. Eu não só estaria disponível, como o faria sem cobrar um tostão. A princípio achou que não era justo, mas eu ponderei e não arredei pé. Estávamos combinados. Procurei saber dele se a paróquia tinha um sistema de som adequado para reproduzir um bom som no lugar aonde iria acontecer a festa, não me garantiu e chegamos à conclusão de que seria melhor levar um de minha confiança. Comentei que para esses casos, normalmente eu apelava para um paroquiano conhecido nosso que trabalhava com som, realizando festas e que já tinha até ideia do que seria suficiente, pois em outras ocasiões, parecida com essa, utilizei a aparelhagem.
Naquele mesmo dia, como era um sábado, fui procurar o nosso amigo com a intenção de me antecipar para não haver imprevisto, agendando e reservando a aparelhagem para o dia. Para essas coisas, mesmo sendo gratuito, o compromisso assumido deveria ser honrado, então como teria coisas, que fugiria do controle, em minhas mãos, se fazia necessário garantir com antecedência para não correr nenhum risco. Encontrei-o em casa e após os comprimentos fui direto ao ponto. Descrevi a situação dando-lhe dia e horário, para quem seria a gentileza e o que eu precisaria. Concluímos que uma caixa só de boa potência no amplificador e um bom alto-falante bastaria. Me convidou para entrar, saímos do quintal da frente e fomos para os fundos, onde ele possuía um quarto especialmente para guardar os aparelhos, chegando lá me mostrou uma que para ele era suficiente. No momento imaginei como faria a distribuição do som e concordei que era suficiente. Não custa lembrar que era um empréstimo e não um aluguel, pois como eu não cobraria, apelei para que ele por conhecer também o Monsenhor não cobrasse, desde de que não fizesse falta para ele. Como seria para dali há duas semanas, pedi-lhe para anotar na agenda, mas garantiu-me que não era necessário, já estava agendado na sua memória. Nos despedimos e eu voltei para casa mais tranquilo, por ter resolvido já com antecedência essa parte.
As duas semanas passaram normalmente. Toquei, como sempre, na sexta na casa de festa, tendo como único diferencial uma contratação para um evento, mas como seria para o mesmo dia da festa da paróquia, não pude aceitar. No sábado do compromisso a tarde, não me lembro o que me levou, mas fui resolver alguma coisa perto da casa do amigo da aparelhagem e quando voltava para casa andando pela calçada, não havia outro caminho melhor, onde ficava a dele, me deparei com o próprio para minha surpresa, em seu portão carregando o espaço da caçamba de uma camionete, com a ajuda de dois sujeitos, com algumas caixas de som enormes. Aproveitei para confirmar o nosso compromisso e avisar que viria as 18:30 h com o meu carro para buscar a aparelhagem. Ele confirmou, mas avisou que não precisava ir buscar o som, que entre 18:30 e 19:00 horas ele passaria na porta da paróquia do nosso bairro que ficava na mesma rua onde eu morava, pois poderia fazer este caminho sem atrapalha-lo em seu trabalho e ali me entregaria o som. Falou e disse! Mais para o final da tarde comecei a arrumar a minha mala com os apetrechos que possuía: Pedestal para o caderno de músicas, caderno com as músicas, pedestal para o microfone, microfone, pedaleira, alguns cabos, encordoamento reserva, juntei a mala ao case com o violão e deixei tudo preparado, era só pegar e colocar no carro. Mais próximo do horário tomei meu banho, me arrumei, coloquei tudo no carro e quando chegou a hora desci a rua até a frente da paróquia para esperar o nosso amigo passar para entregar o som. Cheguei dez minutos antes do combinado para não atrasar, porém, deu 18:30, 18:40, 18:50, 19:00 horas e nada, comecei a ficar preocupado. Esperei até as 19:30, aí não aguentei mais, liguei o carro e fui até a casa dele. A casa estava escura, mas assim mesmo do portão gritei o seu nome várias vezes, até que finalmente sua filha veio me atender. Pediu-me desculpas pela demora, mas é que estava nos fundos vendo televisão e só agora é que ouviu. Perguntei-lhe pelo pai e expliquei o motivo de estar ali. Ela não sabia de nada, o pai havia saído para trabalhar numa festa. Ainda argumentei se por acaso não estaria separado o som que havíamos combinado e deixado no quarto que ficava nos fundos onde guardava as caixas. Desesperado fiz uma leve pressão para que me deixasse entrar e olhar. Ela não se opôs, entramos e quando chegamos, após abrir a porta, constatamos que não havia nada, o local estava vazio, o mesmo que eu havia visitado e visto cheio de caixa de som, agora se encontrava as moscas. Acendeu o pisca alerta da cabeça aos pés, o desespero tomou conta de mim. Agradeci, ela não tinha culpa de nada, voltei para o carro e me dirigi para a frente da paróquia. Olhei para o relógio, já passava das 20:00 horas, mais precisamente eram 20:20 minutos e agora o que fazer? Com essa eu não contava. Que situação! Pensar, pensar, PQP! Lembrei-me da casa de festa, dali aonde estava dava para vê-la, estava fechada, não tinha sido alugada, poderia pegar o som de lá. Fui até a casa da dona, mas minhas esperanças foram assassinadas, não havia ninguém em casa, tinham saído. Engraçado como de acordo com a situação a hora passa lentamente ou voa, no meu caso voava, já eram 21:00 horas, para um compromisso marcado para as 20:00 horas, se eu chegasse agora, não afetaria tanto, mas eu ainda nem havia resolvido o imbróglio que me encontrava. Pensar, pensar, PQP! Recorri a alguns amigos, dos que estavam em casa, poucos, ninguém tinha o que eu precisava, os outros eu não encontrei, afinal era um sábado à noite, normalmente as pessoas saiam. Me rendi, não havia solução, mas também não era hora para covardia, por falar em hora, a maldita já estava encostando em 22:00 horas, o jeito era partir para o local e me desculpar com o Monsenhor e os seus fiéis, foi o que eu fiz.

Ao chegar já passava das dez, mais precisamente beirando dez e meia, meu amigo Monsenhor estava preocupadíssimo, não com atraso para a festa e sim se havia ocorrido algum acidente ou defeito envolvendo o meu carro, até pediu a uns jovens paroquianos que pegassem o carro da paróquia e dessem uma boa volta em torno e um pouco mais afim de verificar. Ficou feliz em ver que estava tudo certo, mas quis saber o motivo da demora. Depois de toda a explicação e da vergonha em que me encontrava, Monsenhor mostrando toda a sua benevolência, calma diante de situações adversas, experiência e sabedoria suficientes para passar por cima dessas pequenas coisas sem se abalar, lamentou eu não ter tomado a decisão de ir já na primeira hora de atraso, pois o que importava era a confraternização, claro que todos esperavam a atração que fora anunciada, mas a festa aconteceria com ou sem a música ao vivo. Me informou que àquela hora muita gente já havia se retirado, porém, ainda havia gente suficiente para me ouvir e me perguntou o que eu havia levado. Descrevi o que eu tinha dentro do carro, ele então chamou alguns jovens e pediu que providenciasse ou até improvisasse meios para que eu pudesse tocar. Peguei minhas coisas, me levaram para um salão onde se encontravam mesas espalhadas com um número razoável de pessoas, imaginei que deveria, no horário marcado, ter o triplo. Os meninos me mostraram o que tinham, trouxeram um amplificador, eu olhei e reparei que havia um sistema de som com caixas pequenas espalhadas bem próximas ao teto, puxaram a fiação das caixas e verificamos as entradas e saídas para podermos ligar o microfone e o violão e termos saída de som para as caixas. Depois de uns vinte a meia hora de trabalho, estava eu sentado pronto para tocar. Testei o som cantando logo uma música, o retorno não era dos melhores, mas satisfazia e, prossegui. Em dado momento, me veio um paroquiano e ao pé do ouvido me fez um pedido: “Moço, será que dá para tocar música para gente dançar? ” Era uma situação inusitada para mim, nunca tinham feito esse pedido, mas ao mesmo tempo era bom, pois ele não especificou um gênero. Fazendo uma breve analise das pessoas presentes, conclui que poderia ser forró, xaxado, samba canção e até bossa nova. Confesso a vocês, meu repertório de forró e xaxado era muito pequeno, então, lasquei um samba canção e enveredei pela bossa nova, como o pessoal encheu o salão aos pares tirei coelho da cartola para satisfazê-los o máximo possível. Fiquei cantando quase duas horas direto. A festa não iria até tarde, se eu tivesse chegado dentro horário, muita gente foi embora antes não por cansar de me esperar, foram porque dormem cedo e também porque participam da missa das sete da manhã no domingo. Monsenhor viu que quem ficou estava se divertindo e permitiu que se alongasse um pouco mais. Para mim foi um alívio, ver que apesar de todo sufoco, eu pude oferecer algumas horas de alegria. Ao final me ofereceram um lanche, eu havia até esquecido o que era fome, tamanha a preocupação. Me despedi de todos os meninos que me ajudaram, em particular do Monsenhor, com a consciência mais tranquila, entrei no carro e me dirigi para casa. No meio do caminho cheguei a uma conclusão: O amigo que me deixou na mão, isso não se faz, acabou me mostrando uma realidade que até então eu não tinha atentado para esse detalhe. Se era de minha vontade continuar aceitando compromissos como esses, eu deveria providenciar um equipamento próprio, meu, só meu, que não dependesse de ninguém, eu sabia que custava caro, mas estava na hora de começar a fazer uma poupança e me tornar independente. Cheguei em casa com essa resolução, que poria em prática já a partir da próxima semana. Quanto ao sujeito, não me procurou para maiores explicações, o que evidenciou culpa e eu pelo meu lado nunca mais o vi. Inté! 

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