Capítulo 44 – MÁQUINA INFERNAL
Ainda na casa de festa.
Estávamos, como eu disse em relatos
anteriores, naquela fase de quase todo fim de semana, um sim e outro também,
chover; as vezes forte, as vezes fraca, mas intermitente e as vezes como
naquele dia, garoava. O pessoal que frequentava tanto para me ouvir quanto para
confraternizar, já sabia que nessas condições o bar funcionava no salão ao
invés do espaço externo. Havia alguns inconvenientes, fardos pela proximidade
aos ouvintes. Como um frequentador que cismava em dar uma de papagaio de
pirata; ele ficava atrás de mim e por cima do ombro colado ao meu ouvido, podia
ler a letra no caderno no pedestal e cantar, só que ele era desafinado e fora
do tom, então a minha concentração tinha que ser dobrada, para não me deixar
influenciar por sua voz e assim arruinar a minha apresentação. No início fiquei
um pouco incomodado, mas com o tempo fui conhecendo a pessoa, tanto que
acabamos amigos, tal era sua simpatia, alegria, generosidade, ou seja, aquele
que podemos chamar de gente boa, sem medo de errar. Esta pequena
inconveniência, que se tornara um hábito aceitável, acontecia quando a música
escolhida era uma das suas preferidas e esse impulso me deu uma ideia, que se
der tempo ainda neste texto eu conto o que fiz.
Havia acabado de chegar com as minhas
coisas, para me arrumar num canto do salão afim de começar a tocar, quando
fomos surpreendidos, eu e a dona, por um casal conhecidos dela, junto a eles o
seu filho, vindos sei lá de que bairro, pessoas que a dona não via há tempos e,
portanto, a surpresa, mas após as saudações, explicaram o motivo da visita:
Através de amigos em comum, tinham tomado conhecimento que a amiga estava com
uma casa funcionando como bar e com música ao vivo, como seu filho era músico e
cantor, estavam ali para oferecer os préstimos do rapaz. Eu estava bem próximo
arrumando a aparelhagem e não tinha como não ouvir. A dona alegava que já
possuía um cantor, até apontava para mim, que estava mais que satisfeita, porém
o casal era insistente, pediam que ouvisse seu filho pelo menos um pouco, ela
irredutível mantinha-se firme, sem deixar de ser educada, afirmando que era
desnecessário. Interrompi a conversa para avisar a dona que um cabo não estava
funcionando e que eu teria que ir até em casa para buscar outro, coisa que
seria ir num pé e voltar noutro. Não levei mais que vinte minutos, quando
cheguei me deparei com a barraca toda armada. O garoto estava atrás de um
teclado, usando o meu microfone, tocando e cantando como se fosse o artista da
casa. Normalmente quando eu reconhecia entre os fregueses um amigo músico ou se
por acaso alguém indicava que entre eles havia um músico, eu sempre perguntava
se o colega gostaria de nos honrar com a sua presença nos dando uma canja. Eu
dificilmente aceitava quando era reconhecido, não por desfeita, mas porque
naquele momento sempre estava bebendo e como me encontrava num momento de
lazer, sem concentração, procurava evitar algum desastre. Agora, ali era outra
situação, era o que podíamos chamar de invasão de domicílio. Procurei a dona,
ela estava na porta da cozinha gesticulando para que eu a visse, quando a
avistei, me chamou. Assim que ficamos próximos, me informou que foi tão rápido
e ela sem querer ser grosseira deixou. Pediu que eu relaxasse, que mesmo que o
garoto ficasse a noite inteira, o que não acreditava, o meu cachê estava
garantido, trabalhando ou não. Me assentei junto a uns amigos para apreciar a
performance do postulante a vaga, que não existia, de músico da casa. Do que
via e ouvia darei a minha opinião imparcial como músico e frequentador da casa.
O rapaz tinha boa desenvoltura, habilidade no teclado e o canto, nada especial,
dava para o gasto. Diferentemente do violão, o teclado eletrônico possuía uma
programação de ritmos, que bem ensaiado com a harmonia fornecia um resultado
bom, era o que nós no particular chamávamos de máquina infernal. No caso
especifico dele, havia apenas um senão, o repertório. Como era um jovem, seu
repertório era formado majoritariamente por músicas pop, inclusive em inglês,
se fosse em outro lugar, com outro público, ele certamente seria uma atração, mas
ali o pessoal gostava mesmo era de uma boa dose de MPB de qualidade. Além do
que, a maneira como os pais usaram para colocar seu pimpolho em evidência já o
tinha condenado. A dona do bar, por educação e para não criar um clima tenso
não interrompeu, mas não aprovou a atitude tomada por eles sem sua autorização.
Quando tudo aconteceu, havia muito pouca gente dentro do recinto, então,
conforme iam chegando, as pessoas estranhavam num primeiro instante, achando
que eu havia saído, mas depois que se assentavam, na primeira oportunidade
perguntavam por mim, ouviam que nada tinha mudado, era só uma canja, que daqui há
pouco eu tocaria. Assim como a casa era procurada por músicos oferecendo seus
préstimos, eu também recebia convites para trocar de lugar, mas ambos estávamos
harmoniosamente satisfeitos, então, não trocávamos nossa boa parceria. O rapaz
ficou mais de uma hora cantando, mas não agradou. Enquanto ele desmontava e
guardava suas coisas, a dona foi educadamente agradecer a ele e aos pais e
participa-los de que o lugar já se encontrava preenchido e que para o momento
não havia nenhum interesse. Durante a conversa, eu fui me posicionando, ligando
o que era preciso, testando e antes mesmo deles partirem já estava executando
uma música. Eles ficaram ainda por algum tempo, suficiente para me ouvir cantar
umas cinco músicas, depois partiram sem deixar saudades. Desde do início,
quando eu voltei de casa e me deparei com a situação, nós dois, eu e a dona, já
conversávamos sobre. Ela estava tão surpreendida quanto eu, pois enquanto eu ia
buscar um cabo, ela foi chamada na cozinha e lá de dentro ouviu o som se
espalhar pelo salão, foi quando se deu conta de que eles haviam armado para
cima dela. Ficou puta, mas manteve a pose. Houveram explicações que não deu nem
ouvidos, ela não era boba, já havia sacado a jogada, só deixou bem claro que
assim que eu voltasse e quisesse tocar, ele pararia. Mas aí entramos num acordo
e deixamos o garoto tocar o quanto ele quisesse. A partir do momento que os
pais ficaram sabendo que aquilo estava sendo considerado como teste e que, portanto,
não haveria cachê, mesmo que ele tocasse a noite toda, a estratégia deles
mudou. Não sou um músico formado, portanto, nem sindicalizado, mas havia, e me
parece ser do sindicato, uma indicação, quanto ao tempo a ser trabalhado pelo
artista nos estabelecimentos, coisa que variava dependo do acerto ou da exploração,
cada um sabe de si, mas o normal, penso, eram três tempos de 45 minutos ou um
pouquinho mais, com intervalo de 15 minutos e a forma de pagamento, aí que
variava muito, ia desde o valor já acertado, independentemente se a casa enchia
ou não, até o famoso Couvert artístico, valor que as casas acrescentavam ao
valor da conta pela apresentação musical. Apropriando-me desse raciocínio,
informo-lhes que o rapaz cessou sua apresentação ao fim do primeiro tempo,
deixando para mim os outros dois. Foram pouquíssimas vezes em que eu usei
rigorosamente essa tabela, com o intuito de me livrar rapidamente da tarefa,
justamente quando o momento deixou de ser prazeroso e se tornou tarefa, fora
isso, alguém próximo – esposa, amigo, a dona – é que vinha me lembrar de dar
uma paradinha, aí é que eu notava muitas vezes que já estava cantando há duas
horas direto. Não resta dúvida que temos de ter disciplina, não confundir com indiferença,
mas, como recusar um, dois, três pedidos a mais quando estamos para terminar e
o público quer ouvir um pouco mais, não tem como negar, mesmo porque isso me deixava lisonjeado, o jeito é atender usando três músicas que sejam bem conhecidas e
admiradas, fazendo a plateia canta-la, deixando sua voz desaquecer aos poucos
ali mesmo no banquinho. O papagaio de
pirata já estava para lá de inconformado, achando que não teria sua vez. Por
falar nisso, lá em cima no começo do relato, disse-lhes que havia tido uma
ideia e que compartilharia com vocês, se desse tempo. Como o relato se alongou,
fico devendo, mas é coisa rápida, já na próxima semana trarei o relato da ideia
na íntegra, promessa é dívida. Inté!
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