Capítulo 45 - KARAOKÊ
Ainda na casa de festa.
Como havia prometido a vocês, faço
agora o relato da ideia que o papagaio de pirata me deu. Quem leu o capítulo
anterior sabe do que eu estou falando quando me refiro ao papagaio de pirata. Era
um amigo que gostava de ficar atrás de mim, por cima do ombro direito e colado
ao ouvido, enquanto lia a letra da música no caderno ao pedestal, cantando
junto comigo, só que fora do tom e desafinado, no início quase que me
atrapalho, mas depois tirava de letra. E esse impulso dele, me deu uma ideia
que resolvi executa-la, mas para isso me reuni com a dona da casa, explicando o
que seria e o que ela teria que fazer. Bem, todo mundo sabe o que é um karaokê,
pois bem, era isso, só que ao invés de ser com o CD, seria ao violão e as
músicas para escolha, do caderno de trabalho. Quanto a dona da casa, ela teria
que arrumar brindes, para premiar os três melhores colocados, que seriam
escolhidos por um corpo de jurados que iriamos escolher a dedo. Começaríamos a
divulgação na sexta anterior com os fregueses presentes, inclusive já com os
brindes, mostrando que a brincadeira teria premiação. Ela gostou da ideia e
resolveu investir nos brindes. Tudo devidamente acertado, resolvemos colocar em
prática a ideia. Primeiro é claro fizemos promessas e acertamos com São Pedro
que nos desse trégua por duas semaninhas para que pudéssemos realizar a
brincadeira no espaço aberto, o de fora. Ele aceitou. Na sexta-feira o céu
estava firme, assim nos foi permitida a abertura do bar no grande espaço
externo. Divulgamos como combinado e, no mesmo dia podemos escolher e convidar
quase todos os jurados, o que deixava adiantado boa parte. Agora, era esperar
que na próxima sexta a casa enchesse. Aonde eu trabalhava os mais chegados
sabiam que eu tocava toda a noite de sexta e, já algum tempo queriam fazer uma
visita, então, aproveitei o evento para convida-los. Na quinta, véspera do dia,
me informaram que eu podia contar com eles e que reservasse umas três mesas
perto do cantor, no caso eu; expliquei que normalmente a casa não trabalhava
com reservas, mas que para eles tentaria junto a gerência abrir uma exceção, já
que eram um público vindo de longe do local a meu convite, não sem antes,
estabelecermos um horário limite, caso acontecesse alguma coisa impedindo-os de
comparecer, as mesas seriam liberadas.
No dia, céu novamente firme,
temperatura agradável, casa pronta para receber o público, som devidamente
instalado, só naquele momento, quando entraram os primeiros fregueses, foi que
me dei conta de um pequeno, mas, incomodo detalhe. As músicas que as pessoas
iriam escolher para cantar no “karaokê” eram as músicas que eu normalmente
cantava, as que estavam nos cadernos, só que elas estavam cifradas no meu tom e
cada pessoa possui o seu próprio tom, então, após a música ser escolhida eu
teria de descobrir, de uma certa maneira rápido, qual seria o tom do candidato.
Ora, para um músico profissional era uma tarefa simples. MÚSICO PROFISSIONAL! O
que não era o meu caso. Eu era apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no
banco, sem parentes importantes e vindo do interior, quero dizer, apenas um
compositor cantor, que para compor e poder cantar sem precisar de ajuda,
aprendeu meio que na marra, sendo autodidata, sem formação acadêmica, portanto
ia ser um grande desafio, isso se não fosse um fiasco. Como sempre fora movido
pela intuição, a minha, naquele momento me dizia que vinha tempestade pela
frente, mas por outro lado, tinha certeza que poderia passar por esse mar
revolto, não sem avarias, mesmo sem experiência, contudo, com sabedoria.
Enquanto refletia sobre esse por menor, a casa ia lotando. A brincadeira
começaria só quando tivéssemos um número razoável de candidatos, que
esperávamos conseguir rapidamente. Esse trabalho de inscrever candidatos, uma
amiga da dona ficou encarregada, durante esse tempo eu tocaria normalmente e
aproveitaria para reforçar o convite aos presentes a participar da brincadeira.
Quando terminei a primeira etapa da minha apresentação, fui ter com o pessoal,
para saber se já podíamos começar. Já tínhamos número suficiente para dar início
a competição musical. Fiz meu intervalo e aproveitei para acrescentar mais um
detalhe: Que fosse copiado para um pedaço de papel pequeno o nome de cada
participante, embrulhado e colocado dentro de um saco, para que pudéssemos
sortear a ordem de apresentação. Voltando para o meu posto, mostramos os
brindes mais uma vez para a galera e anunciamos que começaríamos a brincadeira
sorteando os participantes do primeiro aos dois últimos, aproveitamos para
apresentar os jurados que iriam pontuar de 1 a 10 a nota da apresentação. Mão
no saco e lá veio o primeiro. A música já havia sido escolhida, mas o tom,
esse, confesso, tive que me virar, pois a pessoa, descobrir durante a execução,
além de desentoada, era desafinada, aí nem músico profissional dá jeito. Depois
que acabou, fiquei pensando se os próximos seriam todos assim, não podia crer,
havia esperança que a maioria conseguisse cantar razoavelmente. Não estávamos
ali para revelar nenhum cantor ou um grande intérprete, era uma brincadeira,
mas carecia do mínimo, afinação, os desafinados ou desentoados, eram atração à
parte, tinham sua graça, faziam a festa dos amigos, eram motivos de zoação.
Cada participante tinha as suas particularidades, como disse no texto lá atrás,
as avarias aconteceriam, mas foram poucas, para ser mais exato foram duas que
eu não consegui achar o tom direito. Mas venhamos e convenhamos, mesmo eu,
quando começava a aprender uma música nova para acrescentar no repertório me
deparava com o tom, o que parecia simples quando eu tocava aquele monte de músicas
no bar, na verdade me dava um tremendo trabalho para ajustar de acordo com o
meu tom ou meu alcance vocal, assim mesmo, eu só apresentava a música depois de
muito ensaio, então, aquelas pessoas que ali estavam e que não tinham nenhuma
noção qual seria o se tom, mesmo eu pedindo para que cantassem um pedacinho do
início da música, ninguém entrava no tom certo e muitos nem afinados,
participavam de uma brincadeira e era assim que deveria ser encarado. Ainda bem
que todos entenderam o espírito da coisa, assim não houve nenhum
constrangimento, pelo contrário, tanto os que participavam, como os que ouviam estavam
se divertindo. Houve quem começou com uma e pulou para outra, não haviam
regras, para quê? Houve quem pediu para cantar outra vez, pois tinha feito a
escolha errada e queria melhorar a pontuação para tentar ganhar um dos prêmios,
mas mesmo assim o problema não estava na música escolhida e sim na pessoa. O
karaokê terminou, enquanto faziam as contas eu pude descansar e tirar o peso
das costas. O resultado saiu, foram premiados os três melhores da noite sob
aplausos e gritarias. A diversão era a tônica daquela noite, momento de pura
confraternização, digna de pertencer ao rol das boas lembranças. Eu, voltei a
ocupar o meu posto, prosseguindo com a programação da casa, para mais um tempo
de boa MPB para deleite dos presentes. Meus amigos do trabalho estavam
encantados com o local e claro, impressionados com a minha performance. Eles
ouviam eu falar a respeito, mas achavam que era só gogó. A partir daquele dia
passaram a me chamar para tocar em eventos no bairro em que eles moravam. Então,
nos próximos relatos trarei para vocês uma ou duas das mais interessantes ou
relevantes apresentações nesse novo território. O bom nessas oportunidades, é
que o artista tem contato com novas pessoas, novos ouvidos, e assim, começa a
ampliar sua identidade e consequentemente sua lista de fãs. Vocês devem estar
curiosos para saber se o papagaio de pirata cantou, não, porque ele não foi,
estava viajando. E pensar que tudo começou por causa dele. Inté!
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