sábado, 29 de abril de 2017

Capítulo 47 – COINCIDÊNCIAS

Nos relatos que passarei para vocês a partir de agora, meus caros leitores, terão e serão três coincidências dessas de cair o queixo, porém, a veracidade dos fatos ficará apenas na crença de que eu não teria motivos para mentir e que, portanto, a minha palavra e escrita é a única prova cabível. Se sou merecedor dessa confiança, desde já agradeço.
A primeira coincidência surpreendente deu-se no final dos anos setenta, início dos anos oitenta. Como escrevi nos primeiros capítulos, eu aprendi a tocar violão, sem nem ter o instrumento em casa. Foi preciso pedir um emprestado, recorrendo a uma namorada e, com a ajuda dela e do meu amigo guitarrista, ensaiei os primeiros acordes, me aplicando no treinamento. O meu maior interesse não era me tornar um virtuoso instrumentista, era simplesmente aprender o básico, que seria suficiente para compor. Eu desenvolvi mais a mão esquerda, a dos acordes, do que a direita, a do ritmo. Algumas músicas vinham do nada na minha mente, então, eu precisava saber tocar para de imediato construir a base para não as perder. Outras, eu conseguia construir dentro de uma combinação de acordes. A parte mais difícil e dolorosa, para mim, sempre foi a letra. Umas eu fiz por completo, outras eu começava a escrever, normalmente uma ou duas estrofes, aí empacava, então, era socorrido pelo meu parceiro guitarrista, que completava a letra sem desviar o sentido. Como sempre fui de trabalhar mais em compor novas melodias, as vezes recebia letras de amigos, se gostasse guardava por perto, de repente aparecia uma melodia que cabia direitinho, além de combinar com a letra. Pronto saia mais uma do forno. Certa vez acabara de compor uma melodia e, estava tocando-a várias vezes, para dar acabamento, mas sentia que ela podia e devia render uma segunda parte. Enquanto não saia o restante, me veio a letra na mente. Era um tema diferente, não era coisa de namorado apaixonado, sofrência ou amor impossível, era... vamos a ela: “Homens Estranhos” - “Um dia alguns homens estranhos chegaram a cidade – E logo a cidade ficou ciente de toda verdade – Que aqueles homens todos traziam consigo as suas máquinas – E o povo da cidade foi saber que iam erguer uma fábrica.” “E um dos homens veio dizer que aquilo era o progresso – E o povo da cidade foi ouvindo um tanto incertos – Ele dizia que toda a cidade teria emprego – E o povo da cidade aceitou com pouco de medo.” Como vocês podem perceber eu havia feito duas estrofes com quatro versos e a música colocada em cima, tanto da primeira, quanto da segunda estrofe era a mesma, daí a necessidade de uma outra parte, que eu tentava, mas não conseguia ajeitar a gosto. Numa breve visita a minha casa, mostrei ao amigo guitarrista, inclusive com o restante da letra e ele, como de costume, imediatamente aplicou uma melhora e para finalizar, depois de repeti-la algumas vezes, introduziu a segunda parte, que caiu como uma luva. Aqui o restante da letra: “E em poucos meses a fábrica só conseguia – Roubar o silêncio da cidade que antes dormia – E um por um de toda a cidade começou a partir – E formaram uma outra cidade bem longe dali.” Ficamos satisfeito, eu mais ainda, por tê-la finalmente terminado e incluímos no nosso repertório da banda. Agora, a coincidência surpreendente. Eu possuía e ainda possuo, graças aos deuses da escrita, sabedoria, conhecimento e poesia, como Atenas ou Calíope da mitologia grega, Tot da mitologia egípcia e Minerva da mitologia romana, um enorme gosto por literatura, que me permitiu o prazer de saborear histórias escritas por grandes autores literários, dentre esses eu descobrir um brasileiro, no meio de tantos famosos, José J. Veiga, que à primeira vista fui por curiosidade e depois me tornei fã. O primeiro que me caiu às mãos foi: Os Cavalinhos de Platiplanto. Fiquei encantado. Procurei mais. Encontrei o surpreendente: A hora dos ruminantes. Nesse livro foi que se revelou a grande coincidência e surpresa, não que fosse um a cópia do outro, mas a história misturava e apresentava características muito semelhantes com a ideia que havia escrito, claro que o livro dá de dez na minha pequena letra, mesmo porque ele desenvolve o tema da pacata cidade enfrentando, não só homens estranhos, como outras adversidades, mas quando acabei de ler, fiquei apavorado com a coincidência. Parecia que eu já havia lido o livro e resolvido fazer um resumo para musica-lo. Eita!
A segunda coincidência se deu num arranjo que eu fiz, ajeitando uma melhor maneira para tocar e cantar uma música da Legião Urbana. Dentre o belíssimo repertório da banda, eu havia pinçado algumas para ensaiar, mas no meio dessas tinha uma em especial, que eu tentei reproduzir dentro do ritmo da gravação, entretanto, as tentativas foram infrutíferas. Diante da dificuldade, não era tanto a dificuldade, era mais para o resultado final, que não me agradava, portanto, depois de ensaiar várias vezes e não gostar, estava quase desistindo, quando me veio uma ideia. Resolvi mudar completamente a andamento da música. É um rock. Tem sua cadência mais acelerada. Simplesmente tirei o pé do acelerador e toquei num compasso mais lento. O resultado de imediato me agradou. Eu não sabia como o público iria reagir, mas resolvi arriscar. Ensaiei muitas vezes, até ter certeza de que poderia apresenta-la sem erros. Desde a adolescência que eu curtia muito rock, principalmente o progressivo, era o que eu mais ouvia. Só que quando eu resolvi tocar e cantar a la banquinho e violão, dei preferência a nossa MPB, com algumas incursões em outros gêneros. A música da banda Legião Urbana, que resolvi mudar o andamento foi “Será”. Eu já havia feito esse tipo de interferência em outras obras, tendo obtido retorno positivo, então, não era uma novidade quanto a inovações, contudo, há tiros que sai pela culatra, sendo assim, antes preparei o público para uma leitura diferente da obra. Quando acabei de apresentar a minha versão, os puristas preferiam no original, mas gostaram, os demais acharam interessante e apoiaram. Precisar, precisar quanto tempo eu fiquei tocando antes de acontecer a coincidência, isso eu não sei exatamente, acredito que de um a dois meses. Foi quando a versão deixou de ser minha e, passou a ser a versão da Simone, grande intérprete da MPB, pois nas rádios a gravação dessa cantora justamente com o mesmo andamento que eu havia criado para a música da Legião, tocava a exaustão. Aí o que era uma novidade, passou a ser uma normalidade. Tenho certeza de que nem a cantora, quanto mais quem fez o novo arranjo para ela, jamais me ouviram. Tudo não passou de uma incrível coincidência. Agora, os meus amigos mais próximos aproveitaram para me zoar, comentando que eu havia arrumado um dinheiro em cima da gravação e que estaria escondendo o jogo. Uma coisa é certa, a partir desse acontecimento, eu tomei uma maior consciência do meu potencial criativo. O que antes, dentro da minha modéstia, encarava como forma de adaptação diante dos meus limites, agora enxergava como uma marca, um estilo, uma assinatura. Essa gravação, que coincidentemente era igual a minha criação, avalizou fortemente os meus instintos musicais.

E para finalizar, a terceira coincidência. Essa foi um pouco mais assombrosa. Aconteceu antes de eu começar a tocar em bar. Ainda naquela fase de muita inspiração retida, prontas para aflorar e, que desde o convívio diário e entendimento entre eu e o violão, começaram a ocupar o espaço sonoro do meu apartamento. Eu estava bem mais rápido que os ratos, que levam 19 dias de gestação – definitivamente leitura é cultura. Só não dava para competir com o resultado final, pois cada ninhada vem em média 12 filhotes. Bem, deixando o mundo animal de lado, só sei dizer que eu estava compondo um número razoável por mês. O estilo era diversificado, com predominância no rock rural. Eu ouvia de tudo que possuísse qualidade, mas sempre com os ouvidos antenados no rock progressivo. Foi exatamente por estar sempre atento as novidades, aos lançamentos, das grandes bandas progressivas, que se deu a assombrosa surpresa. Ela veio no álbum “Wish You Were Here” do Pink Floyd e se chama “Have a Cigar”. Naquela época os lançamentos não eram simultâneos, isso provocava um hiato entre a data que teria sido lançado na Inglaterra e Estados Unidos, até chegar nas lojas daqui. No caso desse, foi em setembro de 1975, quando chegou efetivamente aqui não sei. A única coisa que eu sei, é que quando ouvi o disco pela primeira vez, me deparei com essa música, no meio das outras, que se destacava particularmente por possuir um trecho idêntico a uma composição minha. Eu poderia pular de alegria, porque afinal, os feras haviam composto uma ideia minha, mas não, eu fiquei foi muito preocupado, a partir daquele momento, fora os meus parceiros, as pessoas que acompanhavam a obra daquela banda, apontariam para um plágio, o que não era verdade, mas como provar o contrário? Passado o susto inicial, a música continua como foi feita e todas as vezes em que cantei em público nunca houve nenhuma menção ou uma mínima comparação, pelo menos na minha frente ou que eu saiba. Inté!

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