Capítulo 48 – JABACULÊ
Me lembrei agora de um causo
interessante ainda na época da banda. Havíamos feito algumas gravações num
estúdio e queríamos mostrar o resultado em alguma gravadora. Duas músicas
tinham a participação do tecladista Ricardo Feghali, posteriormente integrante
da banda Roupa Nova, sucesso até hoje. Começamos por aquela, onde recebi uma
proposta para gravar – leiam capítulo 39 “Caminhos” – sob condições, que
digamos, bastante recusável. Nós não conhecíamos ninguém que poderia ser o
nosso Q.I., apenas conhecíamos dois produtores em que sabíamos o seus nomes e
fisionomias. O primeiro, havíamos sido abordados em MG por olheiros dele, pelo
menos foi assim que eles se apresentaram, quando pediram uma fita nossa para
levar ao tal. Como morávamos no RJ, ficamos nós mesmo de fazer esse trabalho,
mas não foi bem assim, tão simples. O cara disse que não conhecia ninguém com
os nomes citados e não deu nenhuma chance. O outro, nós acompanhamos um amigo -
lembram do capítulo 40 “Escolhas” – que tivera uma chance, mas a perdeu e com
ele nós também, pois por mais que esbarrássemos com o sujeito e tentávamos
fazê-lo entender que o nosso som era outra coisa, ele não nos dava atenção. Estávamos
meio que desanimando, quando o pai de um amigo nosso, que era mecânico de uma
oficina de carros, próximo a uma gravadora bem conhecida, mandou um recado para
mim, através de seu filho, pois foi através do mesmo que ele soube da nossa
peregrinação, para que fossemos até a oficina, que ele nos levaria até uns
conhecidos na gravadora. Fomos eu e o guitarrista. Eu já o conhecia,
apresentei-lhe o parceiro e ele não enrolou, imediatamente avisou que iria sair
um instante aos colegas de trabalho e voltando-se para nós pediu-nos que o
acompanhasse. Saímos da oficina, andamos uns cem metros e chegamos até a
portaria da gravadora. Ele estava com o macacão de trabalho cheio de manchas de
graxa, mas quando chegamos a recepcionista o avistou, sem nenhum receio,
cumprimentou e ouviu dele com quem ele queria falar. Após ligar e anuncia-lo,
voltou-se para nós e disse-nos que podíamos entrar. Ficamos espantados com a
facilidade e rapidez. Assim que passamos pela portaria, adentramos num ambiente
aonde prevalecia salas envidraçadas, cada qual com a sua função. O nosso amigo
mecânico, não conhecia nenhum produtor, quer dizer, conhecer, conhecia, mas,
sabe como é, produtor não se pode incomodar assim se você não for uma pessoa muito
íntima, então, chegamos numa sala que após passarmos pela porta, descobrimos
que se tratava dos caras que editavam as músicas antes de serem gravadas. Eles
pegavam a fita, ouviam e se o produto fosse viável, providenciavam um contrato
de edição, assegurando que mesmo que as músicas não fossem gravadas por aquela
gravadora, eles receberiam pela edição, muito espertos. Nós não tínhamos noção
do tamanho da encrenca. Parecia que ali, sendo aprovado, teríamos a grande
chance de ser chamado por um produtor, então, depois de algumas semanas
assinamos o contrato que chegou para nós já todo preenchido, com os títulos das
músicas todas. Eu e o guitarrista havíamos feito um pacto, apesar de haver
música gravada de autoria de um só, colocamos todas em parceria. Naquele
momento achávamos que conseguiríamos o nosso objetivo ali mesmo. Ledo engano. Mas,
como diz o ditado: “Quem não morre, não vê Deus. ”
A parte do estúdio de gravações e as
salas dos produtores ficavam numa outra área do terreno, bem atrás e, esse
pessoal entrava pela entrada da garagem com os seus carrões, onde havia uma
proteção com porteiro e seguranças de empresa particular, devidamente
uniformizados. Afinal, eram pessoas que não deveriam ser incomodadas por
postulantes a carreira de cantor. Nós ficávamos
restritos só a parte da frente. Com as idas e vindas, ficamos conhecidos da
recepcionista, nos dando uma certa liberdade para irmos até a sala dos caras da
edição. Eu, que morava mais próximo, ia praticamente uma vez por semana, a
intenção, além de acompanhar o processo funcional da casa, era que talvez, quem
sabe, pudesse esbarrar com algum produtor e ser apresentado. As músicas,
segundo os novos amigos, foram apresentadas junto com outras, para uma
avaliação de pretensão a lista de apresentação para o repertório de algum
artista da casa, mas nenhuma notícia favorável veio a aparecer. Com o convívio
na gravadora, fui aos poucos sendo apresentado a outros departamentos. Um em
particular me chamou atenção: Numa sala, ficavam mesas perfiladas e, em cada
mesa um funcionário sentado diante de um aparelho de rádio, ligado numa
determinada estação, com um fone de ouvido e uma prancheta. Eu fui parar nessa
sala sozinho, estava eu passeando pelas dependências, quando de repente me vi
diante dessa cena. A princípio, não entendi absolutamente nada, mas como fiquei
olhando, sem que os funcionários, absortos em suas funções, me notassem,
procurava entender o que acontecia ali, até que um japonês saído sei lá da
onde, acredito que da sua sala particular, chegou, me viu, mas não ligou e nem
perguntou e, entrando na sala se dirigiu até um funcionário, pegando a
prancheta, depois de uma breve olhada, voltou-se para o rapaz e proferiu a
sentença: “até a essa hora só tocou esse número de vezes? ” Ele se referia a
uma determinada música. Ao que o rapaz respondeu: “sim chefe, só. ” Aí veio a
réplica impositiva: “Então está errado. Liga para a rádio, porque nós pagamos
para tocar x vezes e nesse ritmo não vão cumprir o acordo. Manda eles
obedecerem a planilha. ” Depois se dirigiu a outras mesas e só mais uma é que
estava na mesma situação, então a recomendação foi a mesma. Retirou-se avisando
que voltaria mais tarde e queria os resultados acertados. Passou por mim meio
puto, se dirigindo a sua sala. Fiquei observando os dois funcionários ligarem
para as rádios, cada um para a estação da sua prancheta e, depois o diálogo que
transcorreu com o mesmo tom do chefe. Naquele momento, conheci, mais que isso,
eu vi, um procedimento, que já havia escutado que funcionava, mas não fazia
ideia como. O cantor/compositor ou só cantor, gravava um disco. Durante o
processo de escolha do repertório ou depois das gravações, escolhiam uma música
que chamariam de: “música de trabalho” Essa música que recebia essa alcunha
teria a obrigação de estourar e carregar as outras participantes do disco. Para
isso o departamento de marketing trabalhava na divulgação e, entre as várias
maneiras, claro que o rádio tinha um peso enorme, só que para isso acontecer e
se tornar um retorno financeiro, era preciso investir primeiro. Esse investimento
nas rádios recebia o singelo nome de “jabá”, que é uma abreviação de
“jabaculê"¹, também utilizado nos programas de auditórios nas tevês, porém
com intensidade maior nas emissoras de rádio. O valor do investimento variava
de acordo com o número de vezes que se acertava para tocar e, também variava de
artista para artista. Ainda hoje, ouço falar nesse nome ou se preferir
expressão. Na oportunidade o que me chamou muito atenção, foi eu ter
presenciado “in loco” a execução desse sistema, com estrutura formalizada e
monitoramento constante. Até hoje, quando, mesmo não ouvindo, fico sabendo que
certa música toca muitas vezes durante o dia em várias rádios, me lembro
daquele departamento. Acredito que com o passar dos anos alguma coisa se
modificou, mas a expressão “jabá” é guerreira, continua, persisti. Em tempos de
mediocridade, podemos dizer que frequências ressonantes oscilam em máxima
amplitude, atingindo seus objetivos pela lei da repetição. “Água mole em pedra
dura, tanto bate até que fura. ” Eu
não julgo, apenas relato. O julgamento, se quiserem faze-lo, fica por conta de
vocês, mas antecipadamente vos lembro que julgar não nos compete. Inté!
¹Jabaculê, também conhecido como jabá, é um termo utilizado na
indústria da música brasileira para denominar uma espécie de suborno em que
gravadoras pagam a emissoras de rádio ou TV pela execução de determinada música
de um artista. Não se sabe exatamente a origem do termo ou quando ele passou a
ser amplamente usado no meio. Uma das versões seria a que um jornalista,
apaixonado pela culinária nordestina, ao receber uma certa quantia para
divulgar uma dupla de cantores, teria exclamado na presença de alguns colegas,
"O jabá do almoço de hoje está garantido". Dali em diante, esses
colegas passaram a utilizar a palavra com o sentido que tem hoje nos meios de
comunicação. Jabaculê seria uma corruptela da expressão, ao que se sabe, também
cunhada nesse sentido pelo mesmo autor.
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