sábado, 20 de maio de 2017

CAPÍTULO 50 - O REFRÃO

Não faz tanto tempo assim, não havia internet e pouca gente tinha telefone fixo e, isso nunca foi um entrave, pelo contrário, vivíamos muito bem, quiçá melhor. Então, sem e-mail ou WhatsApp, ficamos esperando (funcionava muito bem) o correio nos trazer a correspondência que confirmaria as nossas convicções. Não demorou muito, chegou o convite oficial para participarmos do festival, estávamos classificados, como esperávamos. A partir daí o guitarrista foi confirmar com os rapazes se no dia da apresentação eles não teriam compromissos em algum evento. Feito a sondagem e, recebida a resposta de não haver impedimento, começamos os preparativos para a competição. 
O festival era um incentivo cultural da prefeitura de Duque de Caxias e, como responsável estava à frente, participando da secretária de cultura, o nosso personagem central: Chico Chicão. Homem de cultura e incentivador das várias formas de expressão dentro das artes. A música era seu combustível maior. Músico, compositor, cantor, produtor, arranjador e, principalmente incentivador de novos talentos, bandas e cantores independentes. Um festival organizado por uma pessoa dessas, estava fadado ao sucesso, sem sombra de dúvida. Fomos convidados para uma reunião só para os participantes e a equipe organizadora e, depois da reunião ficamos um pouco mais, aproveitando que o nível da conversa havia sido gratificante, fizemos uma boa amizade com o Chico. Ficamos, depois da reunião, horas papeando sobre música; sobre suas atividades; sobre o festival, que ele queria transforma-lo numa referência, ficamos encantados com a pessoa e o sentimento era recíproco e, ali nascia uma grande amizade. 
O festival seria realizado na câmara dos vereadores, espaço com sistema de som e acústica adequados, precisando apenas de alguns ajustes, mas com capacidade para receber um bom número de público. O evento recebeu grande divulgação pelos meios de comunicação do município: Rádios locais, faixas, carros de som, enfim, tudo o que se podia usar para convidar a comunidade. Os jurados foram escolhidos a dedo; pessoas que viviam para e de arte: Professor de música, músico, escritor, diretor teatral, professor da língua portuguesa, enfim, uma baita seleção. Como estava perto do meu quintal, pude contar com uma pequena torcida, que antecedendo o dia da apresentação já se movimentava em pequenos detalhes para chegar na hora e produzir apoio. Quando lá cheguei para a primeira fase, pude confirmar, no meio do público, os meus amigos e fãs, apostos, prontos para me incentivar. Era a fase classificatória, eu já havia passado por essa agonia, sabia que a decisão estaria nas mãos dos jurados, mas tudo dependia de como nos saíssemos no palco. Eu já trazia uma certa experiência nesse tipo de apresentação, agora as pernas não tremeriam mais, mas o frio na barriga ainda existia, essa sensação eu penso que não é medo, pelo contrário, é uma enorme vontade de subir no palco e mostrar tudo aquilo que você ensaiou, talvez até tirar um coelho da cartola e se surpreender, mostrando principalmente a você mesmo que céu é o limite. Sair da zona de conforto, normalmente é um incômodo, não que seja para todo mundo, mas para muitos é sim. Tem gente que gosta de se exibir, isso é outra coisa. Tem gente que sente bem sendo sempre o observador, jamais se admite no lugar do observado, essas pessoas nessa situação travam. Eu, não sou nem o exibido, nem apenas o observador, sou por natureza provido do que se pode chamar de observido ou exibador, tenho um pouco de cada dentro de mim, numa proporção equilibrada que me faz observar aprendendo e quando sinto o terreno firme que me permite roubar a cena, me lanço sem medo e me exibo. Não sou nenhum fenômeno, mas percebi que consigo entreter uma plateia. 
O palco começava a ser a extensão dos meus sonhos, do meu quarto, do meu quintal em dias de violada, das reuniões com os amigos e com os amigos dos amigos e de repente eram pessoas completamente desconhecidas e que certamente fariam seus próprios julgamentos. A unanimidade nunca existiria, mas a graça está justamente aí, na diferença de gostos. Por outro lado, receber a atenção e o afago da maioria, fora do seu terreno, é sinal de que o seu trabalho foi bem realizado. Mais uma vez estávamos prontos para descobrir e descortinar o futuro. Me coloquei no centro do palco a frente dos meus companheiros, me preparando assim para a apresentação. Certos cantores ou cantoras ao se apresentarem diante do público costumam usar uma roupa elegante, mesmo num festival, eu não havia preparado nada diferente ou especial, apesar de haver camarim para o artista se arrumar. A introdução foi realizada a contento e quando soltei a minha voz o retorno veio satisfatório. Cantei a primeira parte me preparando para o refrão, que eu sabia que seria algo que mudaria radicalmente o comportamento da plateia; seria como se estivesse distraído e algo provocasse repentinamente toda a sua atenção. Não deu outra, assim que acabei de cantar o referido refrão, o público quase silenciou e passou a me observar. Continuando e agora cantando a segunda parte, eu já comecei a imaginar o gestual que faria quando chegasse no refrão. Nada exagerado, apenas um pouco de interpretação teatral, usando de expressão corporal o que a letra subentendia. Dessa vez, a plateia veio ao delírio. A música foi para um pequeno solo, ao término eu voltaria para repetir a segunda parte e todos já esperavam eu finalizar com o refrão. A partir desse momento eu era o centro das atenções, o microfone estava fora do pedestal, sendo empunhado por mim, que dominava completamente a plateia e os conduzia com maestria. No Grand finale a plateia uníssona me acompanhava. Apresentação feita, a consagração veio através da manifestação calorosa que o público demostrou. Missão comprida.
Depois, passeando no meio do pessoal, era abordado por alguns, eles repetiam o refrão como forma de reconhecimento, pude observar um pouco mais do festival e sentir o que estávamos enfrentando, para saber se tínhamos alguma chance de classificação. Bem, vocês não estão nem um tantinho curiosos para saber que porra de refrão é esse que causou tanto...?
Vivíamos na época um regime militar, portanto qualquer manifestação contrária, por menor que fosse, poderia ser considerada Antigoverno e, isso poderia resultar em sérios problemas. Nós não participávamos de nenhum movimento, mas também não éramos pró-governo, o que fazíamos era tentar ser feliz mesmo diante de tal situação. Quando o guitarrista compôs a música, ele escreveu uma letra subentendida, com traços de insatisfação, mas para apresentar ao público tivera que amenizar, então tínhamos a seguinte situação: “Pois nessa vida sem vida, nós somos ébrios quaisquer, estranho final num porão, chorando por uma mulher, e o arlequim que passa, com tanta alegria e tal, me faz ver que a tristeza termina no carnaval. AAAAAIIIIIIII! Meus foliões, meus foliões, meus foliões. E depois de muito andar, agora sei o que é, estranho final numa prisão, morrendo pelo que quer, e os homens que agora passam, com tanta frieza e tal, me faz ver que a opressão continua depois do carnaval. AAAAIIIIII! Meus foliões, meus foliões, meus foliões”. Para amenizar um pouquinho, só retiramos a palavra “opressão” que tem como definição: tirania, mão de ferro, abuso, despotismo e colocamos “tristeza”, mas o refrão, este, quando cantado, se confundia com: “AAAAIIII! Meus culhões, meus culhões, meus culhões”. 
Quando acabaram as apresentações, ficamos à espera da lista dos classificados, que retornariam no próximo sábado. Enquanto os jurados se reuniam, surgiu não sei de onde, um boato de que eu estaria cotadíssimo para o prêmio de melhor intérprete. A princípio era apenas uma tênue possibilidade, mas conforme foi avançando o tempo e assim que saiu a lista dos classificados e nós estávamos entre os citados, o boato ganhou força ao ponto de me fazer acreditar sim nessa possibilidade. Saímos do local felizes pela classificação, ainda ouvindo o refrão sendo cantado por alguém na multidão e fomos bebemorar que ninguém é de ferro. Já na volta, me veio à cabeça que eu devia fazer alguma coisa diferente para incrementar mais ainda a apresentação, mas o quê? Fiquei entre os amigos, brincando, lembrando, bebendo, gargalhando, mas no meio disso tudo a ideia vinha e voltava a sumir como uma aparição, muda, vazia, enevoada, foi assim até que, voltou e aos poucos foi se revelando e quando dei por mim estava diante do maior cantor, que dizem ser de origem francesa, uruguaia e argentina, não importa, o que importa é que ele foi o maior intérprete de tango que eu nem conhecera, mas que conhecia a sua história ou parte, pelo menos, contada pelos mais velhos, livros e revistas: “Carlos Gardel”. Quando contei para o pessoal, uns não sabiam quem foi; outros pouco sabiam, mas sabiam e um mínimo já haviam lido sobre. Comecei ali mesmo a construir para a minha pequena plateia, o que seria e o que eu precisaria para minha transformação: Gardel era branco, assim como eu; era magro, eu também; tinha o cabelo cheio, mas cortado acima da orelha e feito o pé, para amansá-lo usava muito gel e repartia ao lado, mas não muito do lado, aí existia uma grande diferença, eu tinha, assim como praticamente todos, uma vasta cabeleira e além disso ele era muito elegante, só se apresentava de terno, gravata e chapéu e eu nunca havia usado ou colocado um, quanto mais o outro. Feita a apresentação da transformação, meus amigos quiseram saber como eu faria para conseguir juntar tudo. Bem, eu argumentei, que só restavam dois obstáculos, mas que o primeiro era simples, o cabelo. Eu ia pesquisar o corte e cortá-lo, quanto ao terno e o chapéu precisava de ajuda. Alguém lembrou que o pai da minha namorada, certamente teria um terno e que ele era magrinho assim como eu. Guardei na memória e continuamos procurando mais opções. Dentro do grupo que ali se encontrava, só o guitarrista foi quem levantou a hipótese de possuir uma outra alternativa. Ele me lembrou que um amigo em comum, vizinho, que vez por outra, nós éramos convidados a sua residência para tocarmos violão, jogar conversa fora, cerveja, enfim, confraternizar uma noite inteira até amanhecer e que seu pai que também participava até uma certa hora da violada, talvez tivesse esse tipo de vestimenta, o manequim não era tão distante. Concordei, mas esperava resolver já na primeira tentativa. 
No dia seguinte, acordei cheio de esperança; havia dormido na casa da minha namorada. Mal acabei de tomar café, fui ter com o meu futuro sogro para saber se ele possuía um terno escuro. A resposta não poderia ser melhor, tinha até dois. Alegou que eram antigos, penso que não poderia ser mais adequado, fato que concordou quando expliquei para o que eu queria. Trouxe ambos, mas já no primeiro, eu arrefeci quando vesti o paletó, havia esquecido desse detalhe, ele era menor do que eu, portanto, tanto o paletó quanto a calça ficavam curtos. Agora só me restava o pai do nosso amigo, mas para isso eu teria que esperar, pois ele morava distante dali, mas perto da minha casa, então, só no dia seguinte ou outro dia. Enquanto isso, aproveitei para pesquisar com o pai da minha namorada sobre o Gardel, as informações foram muito detalhadas, é, não tínhamos o google para isso. Ele trouxe vinil para ouvirmos e algumas fotos. A semana começou e eu me encontrei com o guitarrista, que me informou já ter conversado com o pai do nosso amigo e que ele estava me esperando a qualquer hora. Não demorei muito, pois o tempo era curto e se não desse certo eu ficaria encurralado. Ele me recebeu com o seu sorriso e alegria de costume, convidou-me para entrar e logo avisou que iria buscar o terno, não sem antes me confidenciar que era o terno do seu casamento, que o havia guardado esses anos todos e que eu não me preocupasse, que apesar da barriga, na época ele era fininho, portanto, achava que cairia como uma luva. Fiquei na sala esperançoso. Ao regressar, pude ver que o terno era preto, o que era bom, tirou do cabide e abrindo-o me convidou a colocar o primeiro braço, após, enfiei o segundo por dentro do paletó e ajudado por ele fomos ajeita-lo no corpo. Não experimentei nem a calça, se o paletó ficara bom, a outra peça não me deixaria na mão. Agradeci muito, perguntei se precisa lavar e prometi devolve-lo sem avarias. Parti para casa com uma alegria imensa por dentro, com uma vontade de mostra-la a todos, mas ainda bem que não o fiz, pois ninguém ia entender. Em casa verifiquei que a calça ficava um pouco larga, mas nada que um cinto não resolvesse a questão. No dia seguinte dei uma chegada na barbearia, é, ele também tem família e fiz as pazes com o barbeiro. Cortei minha juba sem dó nem piedade, como se diz. Pedi que ele fizesse o corte o mais parecido possível com grande artista do tango, o resultado final ficou excelente, eu é que estranhei para cacete a falta do cabelão. O traje estava completo, quer dizer quase, faltava o chapéu, que não deu mesmo e, sendo assim e por falta também do sapato no verniz, eu resolvi dar um toque sutil que representasse os tempos atuais e, separei como complemento um tênis como calçado. 
No dia da apresentação, eu levei tudo dentro de uma bolsa: terno, camisa branca social, gravata preta, cinto, pente, gumex – Como já dizia Ary Barroso:  “Dura lex sed lex, no cabelo só Gumex” - o tênis já estava nos pés. Eu deixei para me preparar no camarim, assim ninguém me veria antes do momento, até para o meu pequeno fã clube seria surpresa e, reservei uma estratégia que me veio à cabeça ainda no camarim, que seria....
Bem, recordando um pouco: Depois de ter a ideia, batalhar e conseguir juntar os apetrechos que dariam forma a personagem, finalmente chegara o dia e eu agora me encontrava no apertado camarim, disputando espaço para ficar pronto antes da chamada. O festival já havia começado e, como a entrada para o palco era um pequeno corredor colado ao camarim, a movimentação era intensa, mas havia organização, só ficavam de três em três participantes anteriores ao do palco. O que tornava o espaço apertado, eram as bandas, que nesse caso tinham mais de uma pessoa para entrar. Eu me preparava, enquanto meus companheiros esperavam e claro me ajudavam. Tiro a roupa do corpo, coloco a roupa da apresentação, ajeito a gravata – detalhe que eu não sabia, mas aprendi, dar o nó na gravata – umedeço o cabelo e aplico o fixador, pego o pente e faço o penteado idêntico ao do grande cantor, me olho no espelho e vejo Gardel, olho para o chão e me vejo através do tênis, mas agora não sou mais eu e sim “CARLOS GARDEL! ”. Nesse momento me veio à cabeça a tal estratégia. Chamei o guitarrista e avisei-o de que não entraria junto com a banda, ele por alguns segundos se espantou, mas logo tranquilizei-o explicando o motivo: Naquele instante eu vislumbrei a possibilidade de algo maior; eles entrariam após a chamada do apresentador e ele pediria ao mesmo que levasse a entrada do palco o microfone até as minhas mãos; a banda faria a introdução e eu começaria a cantar ainda atrás da cortina em direção ao palco, isso certamente causaria um choque, visto que eu estaria todo transformado. Ele captou a ideia de imediato, comunicou aos outros, que de cara aprovaram e assim ficou combinado. Eu estava muito nervoso, mas como já falei, não com medo, apenas ansioso para pisar no palco e desempenhar o que havia desenhado na cabeça. Não seria um improviso, pois já havia me apresentado, mas caracterizado seria o diferencial. Havia estudado um pouco, não muito, o gestual de um cantor de tango, principalmente Gardel, contudo teria que improvisar, pois nada sabia sobre a milonga, teria que ser na expressão corporal. A milonga, culturalmente não era nosso, então, sem muita informação o melhor era misturar com o nosso gingado do malandro de samba.
A voz do apresentador anunciava que era a nossa vez. Assim que acabou, a banda entrou e guitarrista foi ter com ele para que levasse o microfone até onde eu estava, na entrada para o palco atrás da cortina nos bastidores. Enquanto a banda se arrumava, ouvia-se um murmúrio vindo da plateia, que eu já supunha ser a grande interrogação que pairava sobre suas cabeças, latejando intermitentemente a respeito da minha ausência. Eu havia desligado o microfone, para não escapulir nenhum ruído e só ligaria quando tudo estivesse pronto. Instrumentos plugados, som na medida, todos prontos, começa a contagem. A introdução veio em seguida ao término da contagem, aproveitei para ligar o microfone e quando chegou no acorde que indicava a minha entrada, comecei a cantar ainda sem aparecer e fui lentamente me dirigindo ao centro do palco. Quando a minha voz soou, já expulsei a interrogação, quando a minha presença descortinou, a plateia não se conteve e a reação viera a confirmar o que eu havia desenhado na minha cabeça. Eram assobios, aplausos; mais da metade de pé; os jurados sorriam e, eu saboreando todo aquele momento. O artista as vezes, em grandes momentos de interpretação, acaba colocando a música em segundo plano, mas não foi o meu caso, pois todos estavam esperando ansiosamente pelo refrão. Claro que eu tenho méritos, a música por si só era pequena. Eu desenvolvi toda uma apresentação a partir do apelo de um refrão, então, o que poderia passar batido se tornou um hit, mas, não fosse a minha voz, desenvoltura, inventividade, tudo teria sido apenas normal. Do primeiro refrão cantado, até o último, o público participou entusiasticamente. Foram minutos de muita felicidade, longe de qualquer vaidade. 
Terminada a apresentação, sob aplausos mil, me retirei com a sensação do objetivo mais que alcançado. Depois de me desconstruir; de me acalmar; de normalizar o batimento cardíaco; de descer das nuvens, é que reuni condições para comemorar com os meus amigos a nossa performance. Os músicos, exceto o guitarrista, tinham compromisso para tocar e, já estavam com o tempo contado, por isso, em seguida, se despediram de nós desejando o melhor e lamentavam não poder ficar para ver o resultado. Os caras contribuíram por amizade e amor a música, sem ganhar nada, sem pedir nada em troca, nós procuramos demonstrar quão importante fora essa doação; palavras, abraços, palavras, sorrisos, palavras, tudo parecia pouco, para nós, para eles, estava tudo certo. Na simplicidade está a beleza da vida. Complicar é uma criação humana. Eu não sou um filósofo, historiador, pensador, longe disso, mas penso, portanto, existo e por existir e pensar, é que as vezes me pego refletindo a natureza humana. Nascemos completamente despidos, não só de roupas, mas principalmente de conceitos. Nunca seremos perfeitos, mas a perfeição nos habita. A máquina que faz o ser humano funcionar é perfeita. Divaguei. Resumindo: o ser humano entre tantas virtudes, em contrapartida aos pecados, tem essa disponibilidade, esse desprendimento, esse sentimento, esse instinto, além de se auto preservar, de auxiliar, de ajudar, de contribuir para o próximo, então quando acontece nós agradecemos muito, por não ser, como deveria ser, uma ação tão normal quanto respirar. Ainda bem que tínhamos amigos na plateia, não deu para ficar com a sensação de abandono, nos juntamos rapidamente ao grupo e fomos assistir o que restava do festival e, esperarmos o veredicto. Até chegarmos aonde estavam os nossos amigos, muitas pessoas me pararam para me cumprimentar, quase todos cantavam um pouco do refrão e, parabenizavam entusiasmados, mostrando admiração. A sensação era boa, apesar de tudo conspirar a favor, eu não queria colocar a carroça a frente dos burros, então, me desliguei desse pensamento e fui apreciar os meus concorrentes. O nível era bom e nós comentávamos, a cada música, que ganhar o festival seria muito difícil. No intervalo entre uma música e outra, todos tinham a mesma sensação, era praticamente unânime a questão, o que todos se agarravam e torciam era pelo outro prêmio, havia uma possibilidade bem forte, então não nos restava muito a fazer, se não esperar. 
As apresentações chegavam ao seu final, faltavam poucos e, daqui a instantes todos os participantes entrariam no processo de expectativas. Cada um no seu íntimo, tinha uma sensação, apreensão diferente, mas o pensamento derradeiro era praticamente o mesmo. Num festival de música o vencedor nem sempre é a melhor música. Lendo assim de prima soa como uma incoerência, mas você sabe que eu não estou longe da verdade. É chato ter que escrever isso, mas eu não posso fugir a verdade, você talvez discorde, tem todo o direito. Eu penso que muitas, mas nem todas as formas de competições, podem sofrer interferência de terceiros e ter resultado final injusto. Eu já presenciei vários que foram verdadeiros desastres, cominando nessa injustiça. Eu escrevo sobre esse assunto, mas eu mesmo não entro em festival para ganhar, outra incoerência... não... eu explico: Para mim o festival serve para avaliar o trabalho musical e a performance; para interagir com outros músicos, compositores e cantores; para sentir a receptividade da plateia e, para ganharmos mais experiência. Tá legal, existem prêmios em dinheiro e é muito bom ganhá-los, mas é bem melhor quando a gente consegue unir a apresentação e o público numa mesma sintonia. Aí meu caro leitor, é o orgasmo musical. Diversas vezes eu pude ver isso acontecer e ver cantores e compositores, quando o mesmo não exerce a mesma função, sendo aclamados pala plateia após ser anunciado o resultado final. Nesses casos, mesmo quem estava torcendo por um outro concorrente, reconhece o vencedor merecedor do prêmio. Bem, vou parar por aqui, pois os jurados acabam de retornar aos seus lugares e, isso indica que será anunciado os vencedores nas seguintes condições e seus respectivos prêmios: 3º, 2º, e 1º lugar, o vencedor, além do prêmio de melhor intérprete. O terceiro e o segundo lugar receberão apenas um troféu cada, mas o primeiro lugar e o melhor intérprete, a esses, além do troféu, estava reservado um prêmio em dinheiro. 
O apresentador comunicou que já estava com lista na mão, portanto daria início a chamada, mas antes lembrou que como o regulamento previa, seriam chamados o terceiro lugar e o segundo lugar e, antes do vencedor, seria anunciado o melhor intérprete que além do prêmio, faria uma breve apresentação para o público e só depois viria o primeiro lugar e a respectiva apresentação, finalizando assim o festival. Não sem antes ser ressaltada a importância dos colaboradores e organizadores e, demais incentivos para realização do evento. Ele pigarreou fora do microfone, era o sinal de que começaria, todos estavam voltados para o palco, momento de grande expectativa. Posicionando-se frente ao microfone proferiu a primeira sentença, anunciando, chamou o terceiro lugar, aplausos, seguido da cerimônia de entrega do respectivo prêmio. Voltou-se, após suas duas assistentes retirarem o premiado, e de novo diante do microfone anunciou o segundo lugar, de certa forma se repetiu o ritual anterior. Não menosprezando os anteriores, mas agora começava a fase de maior importância, por isso, diante de tal, o apresentador aproveitou para fazer charme, brincadeiras, a plateia delirava ansiosamente e, finalmente empertigando-se anunciou o melhor intérprete: Eu. Eu fui o escolhido, o premiado. O público aplaudia, gritava. Não cabia em mim tanta felicidade. Saltei do banco, com dezenas de mãos me batendo no corpo, em direção ao palco, esse momento era meu, único. As assistentes me recepcionaram e me passaram os prêmios. O público gritava pedindo para eu cantar. O apresentador me felicitou, me estendeu o microfone e fazendo um gesto com a mão, apontou para a plateia. Eu não tinha discurso preparado, então foi no improviso. Primeiro agradeci a escolha, depois ao público, posteriormente aos meus companheiros e aproveitei para informar que a banda não estava completamente presente, pois os músicos tinham compromissos e então só restavam eu e o guitarrista, mas que eu não deixaria de cantar, só que seria voz e guitarra. Meu companheiro subiu, plugou o instrumento e depois de testar som e afinação, virou-se para mim mostrando que estava tudo certo.
A partir desse momento, achar palavras para descrever sentimentos múltiplos, torna-se para mim uma tarefa árdua. Como explicar que eu saltei do posto de cantor para o de regente de coral em fração de segundos. Só dizendo em poucas palavras, que eu não cantei uma vez sequer o refrão, pois a plateia o fazia sob a minha batuta, obedecendo cada movimento como se tivéssemos ensaiado há meses. Cantar acompanhado só da guitarra, tornou a apresentação mais íntima, aconchegante, claro que com o prêmio debaixo do braço, o corpo e a mente mais leves, os erros agora podiam até acontecer e, as falhas na voz embargada pela emoção, seriam compreendidas, contudo, eu me mantive firme e junto com a plateia fizemos um espetáculo maravilhoso. Essa resposta vinda do público é para o artista o apogeu. Sim, me senti nos braços da galera. Que me perdoem, não é falta de modéstia, mas a música que ganhou, merecidamente, o festival, foi ofuscada pela minha premiação e apresentação, tal a identificação do público comigo. Eu roubei a cena. Fazer o quê? Era o meu momento.  

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