Capítulo 46 - FLORES E ESPINHOS
Ainda tocando na casa de festa.
No relato anterior, vocês leram que
eu convidei alguns dos colegas mais chegados na empresa em que trabalhava e
eles aceitaram irem até o local em que eu tocava e após constatarem que era e
sempre foi verdade o que eu dizia, disseram que iam me contratar para uma
apresentação aonde eles moravam. Pois bem, para maior compreensão, o bairro em
que eles moravam era situado em outro município, ou seja, eu morava e cantava
no município do Rio de Janeiro, eles moravam no município de Nova Iguaçu. A
distância entre os bairros, em virtude da localização, era menor, igual ou
pouca diferença que entre bairros do meu próprio município, mas mesmo assim são
prefeituras diferentes e quando eu ia trabalhar, o ônibus tinha o preço
diferenciado, pois se tratava de um coletivo intermunicipal. Não demorou muito
- a notícia do funcionário cantor se espalhou rapidamente - para que viesse o
convite para tocar num evento que juntava várias comemorações. Como eles sabiam
que eu tocava sempre as sextas, escolheram um sábado para realizar o evento e
assim poder contar com a minha presença. Era uma contratação, não uma
gentileza, portanto o acerto financeiro se fazia presente. Eu de acordo com o
lugar, o evento, aparelhagem a ser utilizada, locomoção e outros fatores,
ajustava o valor a ser cobrado, normalmente justo, nada de olho grande.
Acertamos sem constrangimentos ou choradeiras o valor a ser pago. Não visitei o
local da apresentação, pois a pessoa que tratou tudo comigo, conhecia bem o seu
tamanho, pois era dona do espaço. Era um pouco maior que o salão da casa de
festa, pela metragem que me deram. Então, não foi difícil saber o que eu
precisaria levar para ter um resultado bom.
Eu já volto na história aqui acima.
Enquanto isso me permita interromper abrindo um parêntese para um relato curto
e, como nem tudo são flores, desastroso. Minha amiga a dona da casa de festa,
arrumou, através do bom conhecimento que possuía, uma oportunidade para um
teste num bar muito chique no centro da cidade. O bar ficava num dos prédios
mais refinados e luxuoso do centro. Era desses bares frequentados em sua maioria por executivos ou ocasionalmente por alguém que queria impressionar alguma dama ou,
uma comemoração importante, mas no seu dia a dia a freguesia constante mais
parecia com sócios de um clube. Nas prateleiras dezenas de garrafas de whisky,
cada uma recebia uma etiqueta com o nome do seu proprietário, ou seja, o
frequentador assíduo comprava uma garrafa de whisky que ficava guardada ali a
sua disposição, assim toda a vez que ele fosse lá para beber algumas doses para
descontrair depois de um dia estressante, bastava apresentar seu cartão de
identificação, que o funcionário iria apanhar sua garrafa e junto trazia copo
ou copos, caso houvesse um convidado, o que acontecia regularmente, pois o
ambiente acolhedor fora do escritório era propício para negociar, isso
demonstrava influência e poder em certas negociações. Quando fiquei sabendo
aonde seria, de cara não gostei muito, mas para não ser desagradável aceitei. O
lugar era suntuoso. Havia pouca gente naquele dia, afinal era uma
segunda-feira, não que isso importasse para esse tipo de gente. A gerente nos
recebeu, senti que havia muita cerimônia no tratar e, também que havia outro
candidato para passar pelo teste. Convidou-nos a adentrar uma sala, que me
parecia ser a sua sala, para algumas observações. Disse-nos que era um teste e
que, portanto, não haveria cachê e, que não precisávamos nos alongar muito, uma
hora de cada era suficiente. Concordamos. A partir daí se levantou e pediu que
a seguíssemos, já fora da sala, nos mostrou o local em que poderíamos nos
sentar, plugar o instrumento e ajeitar o microfone. Ligou a aparelhagem de som
e nos deixou à vontade para decidir quem seria o primeiro, retirando-se em
seguida. Eu como não havia gostado do lugar, cedi a vez para o colega.
Juntei-me a minha amiga para esperar a minha vez, mas na verdade eu queria era
ir embora. Ela me perguntou o que eu havia achado do lugar, aproveitando para
me convencer de que além do cachê que era bom, era também um lugar com grandes
oportunidades de voos mais altos. Naquele momento nada disso me motivava,
então, fui sincero e falei para ela que não estava me sentindo à vontade e, se não fosse por ela eu iria embora sem tocar. O colega era bom, mas nada
especial. Chegou a minha vez. O local aonde ficava o músico era meio
escondidinho, para mim tudo bem, inclusive naquele momento. Fiquei vendido
quando cheguei com o meu caderno e não tinha pedestal para colocá-lo. Eu sempre
tive um pequeno problema, a harmonia eu sabia todas, mas as letras eu não
guardava na memória, apenas poucas. Tentei arranjar um lugar, mas não deu
certo, então, partir para o que eu sabia de cór. Mesmo assim, foi uma
apresentação sem coração, emoção, fria, distante e menor que a do colega. Essa
não foi a única vez que eu me apresentei mal, houveram outras, claro, cada uma
com as suas circunstancias particulares, mas essa ficou na memória por ter sido
a primeira que cantei sem querer cantar. Mesmo você fazendo o que gosta,
surgirão dias em que tu não estarás bem. A causa pode ser gente, ambiente,
outros fatores, ou, tudo junto farão um somatório de insatisfações que o deixarão
desmotivado no local. Todas as coisas desagradáveis, servem, ou melhor, são
extremamente úteis como reflexões para que no futuro você possa de antemão
evita-las ou encara-las de uma forma com mais sapiência. Então, para não dizer
que só falei de flores, existem espinhos no caminho.
Voltando ao primeiro relato. A
apresentação estava marcada para começar as vinte horas. Cheguei com duas horas
de antecedência para a instalação do som e também para a passagem do mesmo.
Aproveitei para perguntar se era para tocar músicas que possibilitasse aos
pares dançarem. A resposta me surpreendeu. Não, de maneira nenhuma, as pessoas
iriam comparecer para festejar, mas na hora da música elas queriam assistir um
show. Aumentou a responsabilidade, mas isso me deixou numa felicidade.... Tendo
terminado de conferir todos os detalhes do som, fui convidado para fazer um
lanche antes da hora do show. Tinha ainda pela frente uma hora para comer,
concentrar e aquecer a voz, era tempo suficiente. O salão começou a encher
devagarzinho. As pessoas chegavam, se cumprimentavam e procuravam assento junto
a mesa. Faltando ainda uns dez minutos, me pareceu que faltavam pouquíssimas
pessoas. Circulavam pelo salão apenas os garçons servindo nas mesas, bebidas e
comidas. Me dirigi para o local aonde iria cantar. Ele ficava bem ao centro, num recuo próximo a parede, diante das pessoas que se espalhavam em
cadeiras ao redor de mesas. Liguei o som. Estava na hora. Verifiquei a
intensidade, todos os aparelhos já estavam ajustados dentro do previsto, porém
nem sempre o previsto é o ideal, pois uma coisa é você passar o som num lugar
vazio e, outra, com pessoas conversando, claro, que quando se trata de um show
o pessoal silencia para ouvir, nesse caso aconteceu exatamente isso. Foi uma
ocasião como poucas, onde além de me sentir super a vontade, a reciprocidade me
motivava cada vez mais, durante todos os instantes em que cantei. É uma coisa paradoxal,
se analisarmos que uma pessoa tímida possa ser o centro da atenção de dezenas
ou centenas de pessoas, mas essa contradição é que fascina as pessoas que
gostam de estudar comportamentos. Eu, de minha parte, só sei que apesar de ser
tímido, me sinto muito bem e feliz quando estou tocando e cantando para as
pessoas, ainda mais sentindo que estou agradando. Uma coisa é certa, não
existem pessoas quando canto, existe apenas a música, a voz, o som. O lugar, o
mundo, some e reaparece quando termino.
No parêntese que abri, o meu
propósito era externar diferenças de sentimentos numa mesma função. No meu caso
eu sempre fui intuitivo, pura emoção, sentimento, nunca consegui representar,
sempre fui autêntico e as minhas raízes sempre foram e falaram mais fortes.
Penso que uma vez alcançado o estrelato e, eu não tivesse mais o controle em
minhas mãos, teria que engolir alguns sapos e consequentemente ser um realizado
infeliz. O que para alguns, transparecer simpático e cortês, quando na verdade
é só uma máscara escondendo frieza e indiferença, atitude considerada ossos do
ofício, para mim seria um pesadelo. Dizem que depende, pois, todos e tudo têm
um preço. Eu não acredito, talvez alguns, mas nem tudo e todos. Inté!
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