quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Capítulo 35 – OS ÚLTIMOS SERÃO OS PRIMEIROS, SERÁ?

No dia marcado para saber o resultado das músicas escolhidas para participar do festival do SESC, logo pela manhã, tu achas que eu ia aguentar ficar até o final do dia para saber, peguei o telefone e liguei, me atendeu a telefonista, pedi que me transferisse para o departamento responsável pelo evento, atendeu-me a assistente do Lobo, obedecendo o protocolo das boas maneiras, dei bom dia e fui em seguida ao que me afligia: “Escuta, saiu a lista dos classificados para o festival? ” Tentei mostrar indiferença, àquela hora, deveria ser o primeiro. “ Sim. Qual a música ou o autor? ” “Como escrevi duas, vamos pelo nome. ” Pediu-me um momento, era uma eternidade, voltando perguntou o nome novamente, quer me matar e finalmente proferiu as palavras mágicas: “Classificou uma, a de nome “Motivos” e aproveitando gostaria de lembra-lo que teremos hoje uma reunião as vinte horas para os devidos acertos e o sorteio para definir a ordem de apresentação. ” “ Pode confirmar minha presença, estarei aí no horário. ” Desliguei o telefone com um sorriso que mal cabia no meu rosto, mas a vontade era mesmo de gritar. O dia começava maravilhosamente. A notícia me animou tanto que senti uma vontade imensa de trabalhar, brincadeira, o trampo chamava e o dia, ainda bem, havia vários compromissos. Vire e mexe, entre uma e outra visita, principalmente dentro de um ônibus, vinha a lembrança das palavras da assistente. O dia foi saindo de cena e dando lugar a noite que chegava de mansinho. Trinta minutos antes do combinado, eu já estava adentrando a recepção do SESC, avistei a assistente, nos cumprimentamos com um aceno e ao procurar me acomodar para esperar ser chamado, me dei conta de que havia chegado mais um participante, praticamente juntos, coisa de segundos, sentamos e imediatamente após as apresentações, dialogamos. Conforme o tempo ia passando e se aproximando mais do horário marcado, mais pessoas chegavam. Faltando ainda cinco minutos, a assistente abriu a porta que nos separava, passando para o mesmo espaço em que nos encontrávamos, cumprimentou a todos e pediu que a acompanhasse. Fomos então conduzidos para o andar de cima, após chegarmos ela abriu uma porta no corredor convidam-nos a entrar, já dentro, vislumbramos um ambiente amplo, era uma grande sala, postas em círculo, partindo de uma cadeira diferente e terminando na mesma, contava-se doze lugares. Na tal cadeira diferente estava a sua frente em pé o Lobo, com um grande sorriso aproximou-se para cumprimentar um a um e pediu-nos que sentássemos. Assim que todos estavam devidamente acomodados, tomou a palavra e explicou que daria quinze minutos de tolerância para os atrasados, não mais que isso, para começar o papo. Bem, passados os quinze minutos, faltava apenas um, que chegou cinco minutos depois, mas não perdeu nada, porque nada importante ainda tinha sido dito. Lobo realizou a introdução, mostrando a importância de termos o teatro a nossa disposição: infraestrutura profissional, com a mesa de som sendo operada pelo mesmo profissional que trabalhava para casa há anos; espaço no palco para banda de rock, grupo de pagode, grupo vocal; acústica do teatro; retorno profissional; condições para plugar bom número de instrumentos; microfones suficientes. Agora, como a casa tinha uma agenda de espetáculo já tomada, o festival iria ser realizado numa quarta-feira, já na próxima semana e, portanto, também não tinha como oferecer aos participantes um dia para a passagem de som. O engenheiro de som ficaria encarregado dos ajustes na hora e no palco teríamos gente experiente par auxiliar na arrumação tanto dos cantores, como dos instrumentistas. Perguntou se tínhamos alguma pergunta pertinente. Teve que trocar o pertinente por outra palavra, pois começou a chover no molhado. Tudo entendido, faltava apenas saber quem seria o primeiro a pisar no palco, que eu rezei para não ser eu, pois abrir festival é horrível. Lobo pegou uma caixa, sacudiu, mostrando que ali estavam todos os nomes das músicas escritas num pedaço de cartolina e que ele pegaria um a um, passando a informação para todos, mas também para sua assistente, afim de registrar a ordem sorteada. E assim foi. Vocês não fazem nem ideia em que posição eu fiquei na lista de apresentação. Tinha lá seus prós e contras. Vou primeiro falar da posição, depois eu explico o porquê dos prós e contras. Eu fiquei, fiquei, fiquei em último lugar. Fecharia o festival. A favor: poderia ver quase todos, só deixaria de ver o penúltimo, os concorrentes e assim poder avaliar. Contra: Avaliando e percebendo que havia concorrente muito superior, poderia me abater. Já sei o que vocês vão falar que é só deixar de assistir, pera aí que eu não sou covarde, eu me a garanto. Saímos da reunião com tudo resolvido, portanto tínhamos menos de uma semana para nos prepararmos para o embate.
Dessa vez eu não tinha mais aquela turma que me acompanhava aos festivais, eram outros tempos, uns deixaram o bairro e outros, os compromissos familiares passaram a fazer parte de sua caminhada. Por outro lado, eu também não fiz muito alarde, apenas os de casa e um pequeno, pequeno mesmo, grupo de amigos ficaram sabendo. Desse pequeno grupo, um amigo apenas me garantiu que iria, os outros talvez. No dia, fiquei sabendo que de casa ninguém, então, fomos eu e o meu amigo. Ao chegarmos notei que quem tinha a menor torcida era eu, depois conforme lotou confirmei. Meu amigo, era bem mais novo, jovem, solteiro, começando a tocar, participava de todas as rodas de violão, penso que aquele ambiente deve ter lhe causado um grande impacto; casa lotada, torcidas gritando o nome do concorrente, para quem não está acostumado dá um grande frio na barriga. A mim não incomodava, já tinha passado em outras oportunidades por essa situação. Estávamos sentados, procurei ficar na primeira poltrona no corredor, numa fileira no meio da plateia. Éramos três ocupando duas poltronas, eu, meu amigo e junto a mim minha viola Del Vecchio acompanhada de um pedal Delay. Como sempre em todo festival tem um apresentador. Ele chegou, cumprimentou a plateia e sem mais delongas foi anunciando a primeira atração da noite. A partir daquele instante pudemos observar como realmente cada concorrente havia levado torcida, uns mais que outros, mas todos, com a minha exceção, possuíam torcida. Eu prestava atenção, não tinha como não ouvir os gritos, inteiramente na apresentação. Fomos acompanhando um após outro, separando mentalmente o que podemos chamar de concorrente ao prêmio e quando finalmente chegou no décimo, eu desencapei a viola, peguei o pedal, esperei até um pouco depois do que eu considerei a metade da música e virando-me para o meu amigo decretei: “Está na hora, vou me concentrar no camarim. Até logo! ” Levantei, já me posicionando no corredor em direção oposta ao palco, me dirigi até o camarim. Lá chegando encontrei uma banda de rock que seriam os penúltimos, procurei e achei uma cadeira, sentei e comecei a conferir corda por corda a afinação da viola. O barulho atrapalhava um pouco, mas havia tempo. Os garotos deram seu grito de guerra quando foram chamados para subirem, estava na hora deles. Havia uma escada caracol que levava a coxia, (para quem não sabe: coxia é um espaço dentro do palco, mas fora de cena. Por analogia, é qualquer espaço situado fora de cena, em que os atores aguardam sua entrada) chegando neste ponto, era só esperar a sua vez, que o locutor anunciaria pela ordem numérica, nome da música e quem iria cantar. Ficando sozinho no camarim, como esse abafava um pouco o som que vinha do público e enquanto a banda não começava, eu pude conferir a afinação agora com mais apuro. Eu estava pronto. Controlei a ansiedade e fui aquecendo devagar a voz. Essa é a pior parte. A hora que antecede a apresentação. Ali, pertinho da hora. Quem não aguenta foge, mas aí não nasceu para isso. Gente, eu sei que não sou intérprete. Intérprete é Maria Bethânia, Ney Matogrosso, Elis Regina, artistas que transmitem para você através de gestos, tonalidades, expressões sejam corporal ou facial, a canção que cantam e vivem, traduzindo através da letra da música de outros, sentimentos poéticos que vão lhe atingir. Sou apenas cantor das minhas obras. Por elas eu me transformo, pois nelas eu coloquei parte da minha história. Como sou afinado e bem ensaiado sempre fiz a diferença, poderia dizer que bem produzido alcançaria grandes voos. Fui chamado. Subi e ao chegar a coxia fiquei esperando a banda terminar. Logo que saíram do palco o locutor imediatamente anunciou aquela que seria a última apresentação, o último concorrente, a derradeira atração da noite e, agora no palco para vocês...
Eu não tinha torcida. Meu amigo não ia pagar mico me aplaudindo sozinho. Então, quando passei pela cortina, com minha viola pendurada e o pedal de efeito na mão, só ouvi, sem dar muita atenção, vozes. Um rapaz me ajudou a plugar o pedal, enquanto eu ajeitava o delay, já com o cabo plugado na viola, me voltei para o microfone, onde fui ajudado a ajustar na melhor posição, conferi se já estava com som, olhei para o engenheiro de som em sua cabine e fiz um sinal perguntando se estava tudo certo, recebi um gesto de afirmativo. Cumprimentei a plateia, o corpo de jurados, brinquei com público que era uma honra fechar o festival, me afastei um pouco do microfone, já havia conferido o som da viola, respirei fundo e...
Vou que deixar a descrição da apresentação para o próximo capítulo. Parafraseando Roberto Carlos: Foram tantas emoções!           

                                                                

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