quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Capítulo 34 – NOITE SHOW

Depois da primeira semana, as outras foram progressivamente aumentando a presença do público. Não havia mais necessidade de divulgação. Caímos no gosto popular. Às sextas na casa de festa se tornou ponto de encontro, ponto de lazer e porque não dizer, sem modéstia, ponto de se ouvir boa música brasileira. A cada semana eu me esforçava para apresentar sempre novidades. Eu sempre avisava o público, que se não estivesse na playlist das músicas que eu sabia, eu não tocaria no momento, porém, se eu conhecesse, faria o possível para apresenta-la na semana seguinte. Eu sempre argumentava que era melhor faltar o agrado, do que tentar agradar com uma apresentação horrível. Essa combinação prévia, evitava que eu recebesse pedidos indesejáveis, mas, para minha sorte ou talvez fruto do nível das músicas, que a maioria dos frequentadores queriam ouvir, os pedidos eram escassos. A convivência com a dona da casa nos aproximou de tal maneira, que nos tornamos grandes amigos e, por tabela também de seus amigos. Eu, agora um profissional da noite, vire e mexe recebia convite para tocar em eventos na casa de festa ou fora. Casamentos, confraternização de empresas, aniversários, outros bares, era o meu momento. O dinheiro que entrava eu investia em melhoria da aparelhagem. A médio prazo os recursos já não eram tão improvisados, eu consegui montar uma pequena estrutura, o suficiente para transportar e que servia adequadamente para pequenos e médios lugares. Essa dupla jornada me tomava quase todo tempo, tanto que as composições ficaram adormecidas por um período. Ainda bem que eu possuía um bom número, pois além de ser contratado de vez em quando e tocar as sextas, ainda havia os festivais. Estando dentro do circuito cultural musical, você acaba conhecendo novas pessoas e através delas recebendo convites para assistir, participar, enfim, seus radares aumentam o alcance e captam mais oportunidades. Eu ia contar que o movimento do bar estava tão bom, que eu tive uma ideia louca de alugar a casa de festa para fazer um show, mas deixo para depois, agora vou contar sobre como eu fui parar no festival dos comerciários realizado pelo SESC no município de São João de Meriti.
Como havia descrito, um lugar puxa outro, uma pessoa outra, acabei conhecendo Lobo. Lobo era muito parecido com Chico Chicão de Duque de Caxias, lembra? Movimentava a rapaziada toda ligada com música e, como tinha no SESC de Meriti um trabalho à frente do teatro, levando ao público a possibilidade de acesso à cultura musical, através de bons nomes da nossa música, nomes como: Leila Pinheiro, Boca Livre, etc. abria também o espaço para os músicos independentes e realizava o festival. Numa dessas eu fui convidado para uma reunião, que acontecera no SESC e, durante a reunião nos fora passado que teríamos dias do meio da semana, excluía-se aí a sexta, o sábado e o domingo, para uma caravana musical com todo os recursos do teatro. Seria apenas uma semana, cada dia com três atrações e a bilheteria seria inteiramente nossa, dividida pelos três igualmente. Até aí todos acenaram afirmativamente, o problema começou quando o Lobo apresentou a distribuição dos participantes, quanto ao dia seria no sorteio, tudo bem, agora misturar banda de rock com um violeiro, era um pouco pesado, sem contar o pessoal do samba. Ajeita daqui, ajeita dali, finalmente ficaram todos satisfeitos. Quanto ao dia, viesse o que tivesse que vir, seria no meio da semana mesmo. E tive muita sorte, caiu para mim uma quinta-feira. Dividiria o palco com outro violeiro e um grupo gospel. Sai da reunião muito empolgado. Teríamos 45 minutos para preencher ou não com as nossas músicas. Melhor ainda é que elas teriam que ser autorais e inéditas, nada de música gravada para não dar problemas com os direitos autorais. Nós assinamos um documento e recebemos o regulamento. No ônibus de volta para casa, já estava listando mentalmente as escolhidas, mas ainda tinha que planejar a divulgação. Isso aconteceu a exatamente uma semana antes das apresentações. Era uma segunda-feira, portanto alguns teriam menos e outros mais tempo para se preparar e divulgar. O valor do ingresso era barato, coisa pequena comparado com a oportunidade de uma apresentação numa acústica de um teatro, mais ainda, que além do meu público, nós (as três atrações) teríamos outras presenças que seriam novos ouvidos e avaliações. Listei, ensaiei, cronometrei, queria usar todo o tempo, divulguei. Como fora combinado previamente, as três atrações chegariam antes do horário marcado para começar. Penso que o Lobo assim o fez para que pudéssemos interagir, e usou de um artifício muito inteligente quando não definiu qual seria a ordem de apresentação, deixando para no dia apresentar, assim, além estarmos juntos ao mesmo tempo, a nossa divulgação fora toda feita com o começo num único horário. Me arrisco a dizer que matreiramente ele manipulou de acordo com a presença do público. Aquele que trouxesse um número maior de pessoas para assistir o evento, fecharia a noite. Como notadamente do grupo gospel preenchiam boa parte dos assentos, eles fecharam, eu fiquei no meio, meus convidados - amigos, familiares – dentro da proporção assim definiram. Foi uma noite agradabilíssima. Som, iluminação, público, local, tudo conspirou a favor. Antes mesmo da última apresentação da noite, quando eu terminei, cruzando com os componentes do grupo gospel, eles, todos, fizeram questão de me cumprimentar enaltecendo a minha voz. Depois, assistindo à apresentação deles, pude dimensionar o elogio recebido, o grupo todo, as meninas e os rapazes tinham uma educação vocal excepcional, foi uma aula de como cantar em grupo e, quando nas partes de solo, que todos tiveram a sua oportunidade, cada qual no seu timbre, simplesmente maravilhoso. No final uma pequena, curta mesmo, em virtude do adiantar da hora, palavra de agradecimento proferida pelo nosso querido amigo Lobo, a recíproca era verdadeira e maior, passando para as nossas mãos um envelope contendo o nosso cachê. O cachê, pelo menos para mim, mas acredito que era consenso, naquele momento valia pouco diante da oportunidade, mas como sabiamente disse o velho Lobo: “ Tocar, cantar, compor é um trabalho que assim como os outros deve também ser remunerado, porém não dá para mensurar o quanto uma música mexe com os sentimentos das pessoas, seja ele de tristeza ou alegria, lembranças, nostalgia, apenas relaxar ou causar euforia, tantas são as suas possibilidades, encantos através de uma melodia, amor, paixão, louvor, cantoria, mas acima de tudo uma sintonia através das ondas sonoras. “
Voltando a minha rotina de banquinho e violão as sextas, mal havia me recuperado da emoção retida, fui surpreendido por um novo convite, dessa vez para participar do festival dos comerciários do SESC de Meriti, que aconteceria daqui há um mês. Pediam que eu fosse fazer a inscrição já com uma fita cassete e a letra da música, que primeiramente passaria pela peneira e se fosse escolhida participaria do festival. Junto a correspondência veio um pequeno regulamento, uma síntese, na qual objetivamente mostrava que seria realizado num dia só, com premiação em dinheiro apenas para o primeiro lugar e o melhor intérprete, escrito em negrito o valor de cada prêmio. Como o festival não tinha fase de classificação, os escolhidos após a inscrição já eram os classificados para o dia e, nesse dia já iriam disputar a premiação. O resultado sairia alguns minutos após a última apresentação. Troféus para o terceiro e segundo lugar e além do troféu, o cheque com o valor do prêmio para o primeiro lugar e o melhor intérprete. Preparei duas músicas. Gravei em duas fitas e fui me inscrever com duas possibilidades. O regulamento permitia no máximo duas composições por inscrição. Quando terminei de preencher o formulário, a secretária, que recolhia a fita, a letra e a inscrição, me avisou que o resultado com as músicas classificadas estaria a disposição no dia tal e que eu não deixasse de ligar nesse dia para saber o resultado ou passasse no SESC, pois uma reunião aconteceria o mais breve possível. Peguei a minha cópia da inscrição e junto veio uma outra folha com algumas observações. Uma delas era que depois do festival, eu poderia a qualquer dia e dentro do horário de funcionamento pegar de volta as minhas fitas. Bem, agora aquela situação, talvez dessa vez um pouco mais angustiante, devido a escolha já ser a classificação. Eu já falei em outros capítulos, eu me importo, claro, mas não me abato se por acaso não ganhar, agora não participar, aí eu me incomodo muito. Me desculpem, não dá para escrever mais, eu sei que vocês querem saber o que aconteceu, mas se eu continuar o capítulo ficará longo e cansativo, então, que tal nos encontrarmos aqui semana que vem, para eu terminar a prosa, hein!? Inté!                                                  

              

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