Capítulo 33 – A REINAUGURAÇÃO
No sábado, pela manhã, relatei em
casa o ocorrido na inauguração do bar na casa de festa. Relatei em seus mínimos
detalhes: disposição das mesas na área externa com pequenos postes iluminando
como se fosse uma rua; os petiscos servidos em porções generosas; as pessoas
conhecidas que compareceram, ambiente alegre, acolhedor, bebidas bem geladas e
a parte que seria a cereja do bolo, mas que infelizmente desandou. Imaginamos
juntos pelo que deveria estar passando, nesse sábado, a anfitriã que idealizou
e pôs em prática um sonho e, justamente na inauguração – se fosse uma escola de
samba, diríamos que todas as alas são importantes, contudo, mestre-sala e porta-bandeira, a importância é acentuada – não poderia falhar a parte
da atração musical. Poderia até faltar, mas não falhar, já que estava dentro
dos quesitos a serem apresentados e anunciados previamente. Ainda comentei, que fulano e sicrano, na
surdina, me pediram que pegasse o violão e salvasse a noite, mas eu aleguei que
não tomaria tal atitude, estava fora dos meus princípios, além do mais,
analisando as condições eu não poderia fazer nenhum milagre, talvez atenuar,
mas era mais prudente não me meter. Durante o final de semana ouvi alguns
comentários, aí pude até observar como as coisas chegam aos ouvidos dos outros
tão distorcidas. Se não fosse testemunha ocular acreditaria em alguns,
provavelmente.
Segunda-feira chegou, depois de ser
ansiosamente desejada por todos, levando cada um à sua rotina. Já nesse início
de semana, com as atividades tomando conta, eu nem lembrava mais, todavia, com
o desenrolar e a proximidade do fim de semana, principalmente a sexta-feira, voltou
a lembrança e junto a curiosidade em saber como funcionaria o bar. A rua em que
eu morava tinha um pequeno declive, por isso mesmo todos se referiam ao endereço
complementando se era na parte de cima ou de baixo e, eu morava na parte de
cima. A casa de festa, que as sextas receberiam as pessoas em forma de bar,
ficava exatamente na esquina ao lado esquerdo de quem descia a primeira quadra da
parte de cima. Eu quando chegava do trabalho, entrava na rua pelo topo da rua,
portanto não passava na porta do bar e nem dava para saber se já havia
movimento. Em casa perguntei se iríamos beber umas cervejas e completei que
poderíamos descer e ver se estava aberto o novo bar. Em sua lateral, descendo o
final da quadra, o muro era alto, mas dava para notar que havia luzes, ao
terminar numa curva para esquerda o muro mudava, não de tamanho, mas sim de
formato, nele havia uma boa abertura no meio e, com esse desenho já se podia
visualizar o interior. Notei que havia pessoas, poucas, mas havia e, o portão
estava aberto, isso significava que estava funcionando. Entrei e me dirigi ao
espaço onde ficavam as mesas. Praticamente todos, apesar de poucos, eram conhecidos,
uns mais próximos. A dona havia improvisado um som ambiente. Ela ligou um
aparelho três em um dentro do salão, que ficava ao lado do espaço e nas janelas
abertas colocou as caixas de som voltadas para o espaço num volume adequado
para se ouvir sem precisar elevar a voz para conversar. O cenário era o mesmo,
mas o ambiente estava completamente diferente do dia da inauguração. Naquela
noite a casa estava cheia e todas as luzes acesas. As vozes se misturavam
harmonicamente como em todo ambiente de bar. O sentimento de alegria era
contagiante, emanava de todos os lugares. Se fossemos levar ao pé da letra o
velho ditado popular: “A primeira impressão é a que fica. ” O estrago da
atração musical, eu diria que abalaria qualquer pessoa que estivesse começando,
mas não o suficiente para desistir, apenas teria que agir rapidamente e
consertar essa pequena falha. Como no dia da inauguração, também agora as mesas
eram visitadas pela anfitriã para saber se tudo estava ao agrado e como faltava
música ao vivo, ela se desculpava e garantia que estava providenciando. Antes
que perguntasse algo em nossa mesa, foi abruptamente atropelada por uma
pergunta lhe dirigida através de uma amiga que partilhava da minha mesa: “ Por
que você não chamou o Dinho para tocar? ” Se eu me surpreendi, imagina
ela. Respondeu com uma outra pergunta: “
Eu não sei, quem é Dinho? “ Imediatamente todos olharam para mim e confirmaram
com o dedo. Ela então: “Você toca e canta? “ A pergunta veio acompanhada de uma
certa ou total dúvida. O tom era de incredulidade. Eu lhe respondi que sim. O
que veio em seguida eu compreendi perfeitamente, aproveitando que o movimento
estava fraco me pediu se eu não podia fazer uma apresentação sem compromisso,
inclusive ali no espaço. Imaginando o que eu poderia usar como aparelhagem,
pedi para olhar o som que estava ligado. Depois de feita a avaliação, pedi que
me aguardasse que eu iria até em casa buscar as minhas coisas. Não demorei
muito para voltar e começar a armar a minha barraca. Para não demandar mais
trabalho, fiz a instalação no aparelho através da janela, armei o pedestal do
microfone e também o do caderno de música, pluguei o violão no amplificador, a
casa possuía um banco de boa altura e testei o som, afinação do instrumento,
retorno e quando dei por mim, estavam todos esperando sentados e voltados para
minha direção, ansiosos para ouvir alguma coisa boa. Para alguns, essa hora
seria a chamada hora de grande responsabilidade, para mim, olhando e vendo as
pessoas prestando atenção no que eu iria cantar, era outra coisa, era hora do
show!
Eu sabia que eles estavam ali, bem
pertinho, prestando atenção, então, apenas fiz o que sempre faço, me concentrei
no meu trabalho, não importa se for para poucos ou muitos, tem que fazê-lo com
paixão. Toquei direto umas oito músicas, emendando uma na outra sem intervalos,
apenas um breve obrigado pelos aplausos. Quando finalmente parei para pedir um
pouco de água, a dona da casa se aproximou e encantada com o que havia acabado
de ouvir, não resistiu, olhando dentro dos meus olhos, proferiu como uma dama
da socialite que era, mostrando-se altamente refinada: “P.Q.P.! Onde você
estava escondido que eu não te vi? Aqueles m&$%#§ destruíram a
minha noite. Vamos conversar. ” Eu não conhecia muito bem a pessoa, ela tinha
um tom de voz, que podemos classificar de autoritária, mas conhecendo melhor
você já classifica de outra maneira, não é autoritarismo, é firme, convicta,
decidida e justa com os seus empregados, parceiros e amigos. Pessoas assim são
difíceis de se lhe dar, não, pelo contrário, basta você ter caráter,
honestidade, sinceridade, honra, moral, atributos que são básicos, nada de
anormal, que você terá dessa pessoa a mais gratificante e profunda amizade.
Naquela noite fiquei cantando um bom tempo, o suficiente para me satisfazer e o
suficiente para honrar as minhas amigas que me indicaram. Afinal, eu fui ali
para beber e não para trabalhar. Depois que desinstalei, arrumei e guardei
tudo, pude enfim beber uma cerveja e começar a conversar sobre a minha
permanência como o cantor da casa. Durante a conversa fiquei sabendo que a
contratação dos garotos, não fora no escuro, eles haviam visitado a casa e
feito uma pequena apresentação e diante do que viu e ouviu não havia dúvida de
que estaria com tudo controlado. Qualquer imprevisto ela contornaria, mas esse
era o único que fugia praticamente inteiro do seu controle, portanto, agora
diante do que acontecera, precisava mais do que nunca de um parceiro, quase uma
sociedade, bem parecido, essa parte ela queria que a pessoa fosse de sua
confiança e que soubesse administrar bem essa relação com o público, com o som,
enfim, a parte musical. Acertamos os valores, eu posso dizer com franqueza
d’alma, o dinheiro era o menor das minhas preocupações. Eu sempre coloquei como
prioridade a qualidade do som. Ainda mais ali que o espaço era aberto, não
havia acústica, portanto a atenção e os cuidados com essa parte eram dobrados.
No dia seguinte, sábado, aproveitei
para divulgar para todos os conhecidos, amigos, que agora estaria tocando as
sextas na casa de festa e desfiava o rosário todo. Aproveitei também para pedir
socorro para melhorar a qualidade do som. A semana voou. Na sexta cheguei mais
cedo para arrumar o som e deixar tudo pronto para começar com o pé direito. Aos
poucos foram chegando as pessoas, novas pessoas no ambiente e um bom número das
que estiveram na inauguração. Estava uma noite agradabilíssima. Finalmente
podia-se dizer que o bar das sextas da casa de festa fora inaugurado e eu agora
me sentia plenamente inserido no hall dos cantores de um banquinho e um violão.
Inté!
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