quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Capítulo 32 – PRIMEIRA CAMINHADA

Retrocedendo um pouco no tempo, para enfim chegarmos ao dia da fatídica inauguração do bar do salão de festas, tenho que introduzir no relato, alguns acontecimentos que contribuíram para minha estreia na noite.
Existia um bar algumas ruas abaixo da minha, em que eu normalmente frequentava, de propriedade de bons amigos, que não havia música ao vivo e, por isso ali, estando com os meus amigos, sem pressão, eu podia tocar as minhas músicas, eles sabiam todas e, ainda aproveitava para exercitar apresentando as conhecidas, músicas dos artistas que curtíamos em comum, que agora faziam parte do meu repertório. Já havia algum tempo que eu vinha mostrando ao pessoal essa novidade.
Num dia desses quaisquer no meio dos numerosos dias que compõe o ano, talvez tivesse eu ido à padaria comprar leite, não sei ao certo, só sei que ia cruzando o caminho com o primo dos irmãos donos do bar que eu frequentava e ele parou-me para me propor uma sociedade, se é que se pode chamar assim. E veio a proposta: Ele tinha uma casa na mesma rua do bar; nela ele construiu um espaço que eventualmente alugava para festas; ela possuía estrutura para receber um bom número de pessoas, digamos mais de 100 pessoas, com mesas e cadeiras, cozinha e claro bar. Essa parte seria de sua inteira responsabilidade, cardápio variado e cerveja gelada, além de conforto no ambiente. A minha parte seria colocar as pessoas ali dentro. Eu seria a atração musical, mas teria que bolar uma estratégica de marketing que convencesse as pessoas a saírem de suas casas no sábado já com a intenção de ocupar o espaço, para uma boa distração regada com uma cerveja gelada, com bom acompanhamento culinário, cercado de bons amigos e, ouvindo muita música popular brasileira de boa qualidade cantada por mim. Confesso que àquela altura eu já gozava de um certo prestígio, mas mesmo assim num primeiro instante pensei que não conseguiria. Marquei uma reunião para acertar os detalhes. Quando nos encontramos, eu já tinha desenhado uma estratégia e a expus: Ele mandaria fazer ou faria uma filipeta composta de quatro lugares, sem numeração, que seriam cadeiras numa mesa; a época duas marcas de cerveja disputavam a preferência, portanto a casa atenderia a ambos os gostos; o cardápio com as iguarias, quantidades nas porções e inicialmente preços, mostrando que valia a pena passar a noite ali; a atração musical, além do dia da semana e do início de funcionamento. No final a pergunta que exigia uma resposta de imediato: Como seria feita a divulgação e como ele saberia a quantidade de pessoas que iria receber, para que pudesse calcular o quanto poria para vender? Eu assumi essa tarefa. Faria a venda antecipada, indo ao encontro dos que me conheciam e essa verba já seria o meu cachê. Ficaríamos sempre com umas mesas de reserva, poucas, para serem vendidas no dia. Eu escalaria um amigo para a portaria, pois se a venda era antecipada, apesar de não haver mesas numeradas, os lugares para sentar estariam garantidos, portanto até certa hora só entrava quem estivesse com a filipeta, depois mesmo com as mesas da reserva vendidas, se aparecesse alguém querendo entrar pagando o valor unitário, mas sem lugar para sentar e tendo espaço, eu autorizava a venda e entrada. Acertamos que a filipeta teria que ficar pronta umas duas semanas de antecedência da data marcada para a estreia, assim eu teria um final de semana antes para encontrar ou visitar as pessoas que já havia listado.
Eu já ouvi muitas vezes falarem para mim: Você já nasceu vendedor! Como se fosse um dom. Sim, existem pessoas que dão nó em pingo de éter, mas não significa que sejam bons vendedores. Esse não sou eu. Sou um vendedor, mas quem não o é? Pense: Será que eu já vendi e não percebi? Visualize todas as vezes que você apresentou, recomendou, sugeriu, indicou, discursou, defendeu, partilhou ou apenas presenteou. Você fez uma venda. Você vendeu sem interesses financeiros algo que lhe trouxe satisfação e que você acreditou que outros poderiam também o sentir. Então, munido deste sentimento que sempre me motivou, eu acreditei que como produto, valesse a compra da filipeta. Tenho certeza que algumas pessoas compraram inicialmente pela amizade, outras porque conheciam o meu potencial e gostavam de me ouvir cantar.
No primeiro sábado, todas as expectativas foram correspondidas. Casa cheia. Gente conhecida e amiga. Tudo funcionou como tinha que funcionar. Esse início nos deu gás para os outros sábados. Alguns, tivemos problemas com a lotação. O espaço passou a ser pequeno. Até aventamos a possibilidade de um lugar maior, mas time que está ganhando é melhor não mexer. Entretanto, existem certos namoros que chegam a noivado e ao casamento, mas no nosso caso não passamos do namoro, as divergências começaram a interferir, coisas de sociedade e, então a nossa temporada que parecia ir mais longe, para preservar a amizade acabou. Apesar de praticamente ter um público já conhecido, durante esse período pude observar a presença de pessoas que não sabiam que eu tocava e cantava, portanto aumentei o que podemos chamar de fã clube. Ter aceito esse desafio me propiciou o amadurecimento da ideia de me tornar um profissional da noite.
Foi uma boa temporada. Não me lembro exatamente de quantos sábados eu cantei, mas sei que foi um bom número. A proposta era diferente de um bar de verdade, mas serviu, principalmente para que eu pudesse debutar e pesar os prós e os contras. Um pensador disse: “O grande paradoxo do artista é ter de tornar invisível a visibilidade do artifício com que torna visível esse invisível. ”
Agora, estava eu ali na casa de festa que as sextas funcionariam como um bar, sentado e presenciando um verdadeiro desastre musical e consequentemente a inauguração desse aspecto indo pro ralo ou brejo. Apesar de os outros compromissos da casa estarem funcionando em sintonia, a parte que seria a cereja do bolo desandava. Os meninos atrasaram em muito, o que já causou um desconforto geral, principalmente na anfitriã e, quando parecia que tudo entraria nos eixos, foi aí que a máxima se fez presente: “Não há nada que esteja ruim, que não possa piorar. ” Fiquei sabendo que dentro da cozinha a anfitriã estava inconsolável, entre lágrimas de decepção e vergonha, pedia aos mais próximos que terminassem com o seu sofrimento e dos demais, desligando o som e retirando os músicos do pequeno palco. Não é que os meninos não sabiam tocar e cantar, o problema maior estava no equipamento, claro que faltou experiência, mesmo sendo uma estreia e eles terem assumido o compromisso, se não havia condições técnicas, o mínimo seria explicar a quem contratou e posteriormente ao público, mas como eu não sei bem o que houve, fico com o que vi e ouvi. Providenciaram a retirada dos músicos. Ficou aquele gosto amargo em quem veio prestigiar. Para a anfitriã só restou reunir forças, juntar os cacos, e pedir desculpas aos que atenderam o seu convite e convicta de que o começo não fora completamente desastroso, pois as instalações da casa, a comida, a bebida, o serviço, tinham correspondidos cem por cento, reiterou aos presentes que o propósito da abertura da casa as sextas continuariam e, quanto a música, ela procuraria com mais calma e ouviria, coisa que não o fez por ter sido uma recomendação. Não era a hora certa para procura-la, me candidatar e negociar termos contratuais, então, me despedi do pessoal e fui para casa dormir.

Antes de adormecer, fiquei passando as imagens dos acontecimentos da noite e claro, a parte do show. Houveram erros básicos, não que eu tivesse muita experiência, mas, não me queimaria se não houvesse o mínimo de condições. Fiquei pensando como eu faria e de certa forma agradeci não ter sido eu o convidado para a inauguração. Mas, a vida é uma caixinha de surpresas! No próximo capítulo explicarei como se deu a minha contratação. Inté!     

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