Capítulo 32 – PRIMEIRA CAMINHADA
Retrocedendo um pouco no tempo, para
enfim chegarmos ao dia da fatídica inauguração do bar do salão de festas, tenho
que introduzir no relato, alguns acontecimentos que contribuíram para minha
estreia na noite.
Existia um bar algumas ruas abaixo da
minha, em que eu normalmente frequentava, de propriedade de bons amigos, que
não havia música ao vivo e, por isso ali, estando com os meus amigos, sem
pressão, eu podia tocar as minhas músicas, eles sabiam todas e, ainda
aproveitava para exercitar apresentando as conhecidas, músicas dos artistas que
curtíamos em comum, que agora faziam parte do meu repertório. Já havia algum
tempo que eu vinha mostrando ao pessoal essa novidade.
Num dia desses quaisquer no meio dos
numerosos dias que compõe o ano, talvez tivesse eu ido à padaria comprar leite,
não sei ao certo, só sei que ia cruzando o caminho com o primo dos irmãos donos
do bar que eu frequentava e ele parou-me para me propor uma sociedade, se é que
se pode chamar assim. E veio a proposta: Ele tinha uma casa na mesma rua do
bar; nela ele construiu um espaço que eventualmente alugava para festas; ela
possuía estrutura para receber um bom número de pessoas, digamos mais de 100
pessoas, com mesas e cadeiras, cozinha e claro bar. Essa parte seria de sua
inteira responsabilidade, cardápio variado e cerveja gelada, além de conforto
no ambiente. A minha parte seria colocar as pessoas ali dentro. Eu seria a
atração musical, mas teria que bolar uma estratégica de marketing que
convencesse as pessoas a saírem de suas casas no sábado já com a intenção de
ocupar o espaço, para uma boa distração regada com uma cerveja gelada, com bom
acompanhamento culinário, cercado de bons amigos e, ouvindo muita música
popular brasileira de boa qualidade cantada por mim. Confesso que àquela altura
eu já gozava de um certo prestígio, mas mesmo assim num primeiro instante
pensei que não conseguiria. Marquei uma reunião para acertar os detalhes.
Quando nos encontramos, eu já tinha desenhado uma estratégia e a expus: Ele
mandaria fazer ou faria uma filipeta composta de quatro lugares, sem numeração,
que seriam cadeiras numa mesa; a época duas marcas de cerveja disputavam a
preferência, portanto a casa atenderia a ambos os gostos; o cardápio com as
iguarias, quantidades nas porções e inicialmente preços, mostrando que valia a
pena passar a noite ali; a atração musical, além do dia da semana e do início
de funcionamento. No final a pergunta que exigia uma resposta de imediato: Como
seria feita a divulgação e como ele saberia a quantidade de pessoas que iria
receber, para que pudesse calcular o quanto poria para vender? Eu assumi essa
tarefa. Faria a venda antecipada, indo ao encontro dos que me conheciam e essa
verba já seria o meu cachê. Ficaríamos sempre com umas mesas de reserva,
poucas, para serem vendidas no dia. Eu escalaria um amigo para a portaria, pois
se a venda era antecipada, apesar de não haver mesas numeradas, os lugares para
sentar estariam garantidos, portanto até certa hora só entrava quem estivesse
com a filipeta, depois mesmo com as mesas da reserva vendidas, se aparecesse
alguém querendo entrar pagando o valor unitário, mas sem lugar para sentar e
tendo espaço, eu autorizava a venda e entrada. Acertamos que a filipeta teria
que ficar pronta umas duas semanas de antecedência da data marcada para a
estreia, assim eu teria um final de semana antes para encontrar ou visitar as
pessoas que já havia listado.
Eu já ouvi muitas vezes falarem para
mim: Você já nasceu vendedor! Como se fosse um dom. Sim, existem pessoas que
dão nó em pingo de éter, mas não significa que sejam bons vendedores. Esse não
sou eu. Sou um vendedor, mas quem não o é? Pense: Será que eu já vendi e não
percebi? Visualize todas as vezes que você apresentou, recomendou, sugeriu,
indicou, discursou, defendeu, partilhou ou apenas presenteou. Você fez uma
venda. Você vendeu sem interesses financeiros algo que lhe trouxe satisfação e
que você acreditou que outros poderiam também o sentir. Então, munido deste
sentimento que sempre me motivou, eu acreditei que como produto, valesse a
compra da filipeta. Tenho certeza que algumas pessoas compraram inicialmente
pela amizade, outras porque conheciam o meu potencial e gostavam de me ouvir
cantar.
No primeiro sábado, todas as
expectativas foram correspondidas. Casa cheia. Gente conhecida e amiga. Tudo
funcionou como tinha que funcionar. Esse início nos deu gás para os outros sábados.
Alguns, tivemos problemas com a lotação. O espaço passou a ser pequeno. Até
aventamos a possibilidade de um lugar maior, mas time que está ganhando é
melhor não mexer. Entretanto, existem certos namoros que chegam a noivado e ao
casamento, mas no nosso caso não passamos do namoro, as divergências começaram
a interferir, coisas de sociedade e, então a nossa temporada que parecia ir
mais longe, para preservar a amizade acabou. Apesar de praticamente ter um
público já conhecido, durante esse período pude observar a presença de pessoas
que não sabiam que eu tocava e cantava, portanto aumentei o que podemos chamar
de fã clube. Ter aceito esse desafio me propiciou o amadurecimento da ideia de
me tornar um profissional da noite.
Foi uma boa temporada. Não me lembro
exatamente de quantos sábados eu cantei, mas sei que foi um bom número. A
proposta era diferente de um bar de verdade, mas serviu, principalmente para
que eu pudesse debutar e pesar os prós e os contras. Um pensador disse: “O grande paradoxo do artista é ter de tornar invisível a visibilidade do artifício com que torna visível
esse invisível. ”
Agora,
estava eu ali na casa de festa que as sextas funcionariam como um bar, sentado
e presenciando um verdadeiro desastre musical e consequentemente a inauguração
desse aspecto indo pro ralo ou brejo. Apesar de os outros compromissos da casa
estarem funcionando em sintonia, a parte que seria a cereja do bolo desandava.
Os meninos atrasaram em muito, o que já causou um desconforto geral,
principalmente na anfitriã e, quando parecia que tudo entraria nos eixos, foi
aí que a máxima se fez presente: “Não há nada que esteja ruim, que não possa
piorar. ” Fiquei sabendo que dentro da cozinha a anfitriã estava inconsolável,
entre lágrimas de decepção e vergonha, pedia aos mais próximos que terminassem
com o seu sofrimento e dos demais, desligando o som e retirando os músicos do
pequeno palco. Não é que os meninos não sabiam tocar e cantar, o problema maior
estava no equipamento, claro que faltou experiência, mesmo sendo uma estreia e
eles terem assumido o compromisso, se não havia condições técnicas, o mínimo
seria explicar a quem contratou e posteriormente ao público, mas como eu não
sei bem o que houve, fico com o que vi e ouvi. Providenciaram a retirada dos
músicos. Ficou aquele gosto amargo em quem veio prestigiar. Para a anfitriã só
restou reunir forças, juntar os cacos, e pedir desculpas aos que atenderam o
seu convite e convicta de que o começo não fora completamente desastroso, pois
as instalações da casa, a comida, a bebida, o serviço, tinham correspondidos
cem por cento, reiterou aos presentes que o propósito da abertura da casa as
sextas continuariam e, quanto a música, ela procuraria com mais calma e
ouviria, coisa que não o fez por ter sido uma recomendação. Não era a hora
certa para procura-la, me candidatar e negociar termos contratuais, então, me
despedi do pessoal e fui para casa dormir.
Antes
de adormecer, fiquei passando as imagens dos acontecimentos da noite e claro, a
parte do show. Houveram erros básicos, não que eu tivesse muita experiência,
mas, não me queimaria se não houvesse o mínimo de condições. Fiquei pensando
como eu faria e de certa forma agradeci não ter sido eu o convidado para a
inauguração. Mas, a vida é uma caixinha de surpresas! No próximo capítulo
explicarei como se deu a minha contratação. Inté!
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