Capítulo 37 – ELAS POR ELES
No dia seguinte, após a grande noite,
pude finalmente comemorar com os meus de casa e mais à frente com os amigos na
sexta na casa de festa. Eu não havia, como falei anteriormente, feito alarde
quanto a participar de um festival, então, quando comuniquei o acontecido, foi
uma enorme surpresa. Senti que todos ficaram felizes com a minha vitória. Já
conheciam a música, mas diante da notícia, pediram que a primeira fosse a
vitoriosa do festival. Assim rolou mais uma agradável noite de banquinho e
violão.
No sábado recebi a visita do meu
compadre. Matando a saudade, passamos a tarde bebendo uma gelada e colocando o
papo em dia. Ele fazia faculdade de direção de artes, preste a terminar,
aproveitando, no meio da conversa coloquei para ele que estava com uma ideia
ousada e queria saber se podia contar com a sua colaboração. "Dependeria da
ideia." me disse ele. Expus o meu projeto. Queria realizar um show, ali mesmo na casa de
festa, que o conteúdo fossem músicas com letras escritas por autores
masculinos, mas, retratando o universo feminino. Seus amores e paixões,
desilusões, traições, enfim, seus sentimentos. Alguns autores tiveram essa
grande sensibilidade. Na mesma hora ele começou a imaginar o título e a
desenvolver ideias, isso incluía as músicas escolhidas, para que pudesse
desenvolver o texto. Eu já tinha em mente o repertório. Entreguei-lhe as
músicas e ficamos combinado que cada música teria um pequeno texto para ser
lido antes da apresentação. Esses textos ficaram por conta e inteira
responsabilidade dele. Enquanto ele criava o clima, eu me empenhava no ensaio
exclusivo das músicas.
Na sexta-feira, quando cheguei para
trabalhar, antes de começar a tocar, fui sondar com a dona quanto custava o
aluguel do espaço só de fora, mais a cozinha, para que eu pudesse botar em
prática a minha ideia. Era evidente na minha cabeça, que eu esperava um preço
especial, pela nossa amizade, mas o que veio quando eu descrevi a minha ideia,
foi super especial. Ela me ofereceu a casa de graça, só com a condição de
entrega-la limpa, conforme eu a encontraria, portanto eu teria de contratar o
pessoal da limpeza ou eu mesmo limpar, mas era melhor contratar. Fomos
consultar a agenda de compromissos da casa para ver se achávamos um sábado
livre. Houve uma circunstância que calhou, caiu, encaixou como uma luva. Dali a
quatro semanas ela ia viajar, em virtude disso não abriria na sexta-feira
daquela semana, como também não havia alugado a casa, eu poderia muito bem
realizar a minha empreitada. Fechamos. Na agenda ficou reservado o sábado para
mim. Saí satisfeito, assumi meu lugar e toquei como nunca.
No sábado, corri para ter com o meu
compadre, havia novidades e era preciso que ele corresse com os textos. Quando
nos encontramos, ele praticamente já havia terminado, naquele momento estava
fazendo a revisão. Eu havia escolhido umas músicas, que juntando com os textos,
teríamos aí um espetáculo de uma hora e meia no máximo. O título do espetáculo
também já estava escolhido, se chamava: ELAS POR ELES. Tínhamos as músicas, o
texto, o nome do show, o dia, faltava pouca coisa, tais como: divulgação; eu já
havia pensado, mas precisava conversar com a pessoa que eu queria propor ser o
dono do bar e cozinha no dia; contar o número de mesas com quatro cadeiras; tinha em mente umas quarenta mesas, o valor por mesa, a filipeta para venda
antecipada; um reforço no som, meu compadre queria iluminação direta em mim com
painel atrás; tinha que contratar um porteiro, enfim, eu tinha muito trabalho a
fazer. Comecei naquele sábado mesmo pelo meu amigo que usava o quintal da
frente da sua casa, onde espalhava algumas mesas e fazia lugar de encontro da
rapaziada para uma conversa fora, regada a cerveja, refrigerante mais salgados
e petiscos. Ele topou na hora. O esquema seria o mesmo que ele já estava
habituado, porém com uma proporção maior de público, mas a presença era certa.
Essa parte deixei na mão de quem entendia e eu não queria nada, quando digo
nada, me refiro a questão de dinheiro, seria tudo por conta dele, a despesa e o
lucro. Corri para resolver as outras coisas. Vou dizer uma coisa, que talvez
alguns saibam na carne, mas acredito que muita gente que acompanha esses
relatos nunca se envolvera numa empreitada dessas, porém deve fazer pelo menos
uma ideia. Um artista quando está começando, não vou nem dizer independente,
pois mesmo assim, alguns já contam com ajuda, mas o que está realmente
começando sozinho, além do seu repertório, tem que saber fazer um pouco de cada
das coisas que antecedem o espetáculo, caso contrário não acontece. O artista
tem que saber administrar o tempo, para poder dividi-lo entre ensaios e as
outras coisas. O estruturado possui uma equipe que cuida de tudo, ele só chega para
passar o som antes e depois na hora, se apresentar. Não é o meu caso, tinha
muita ralação para botar o bloco na rua. O dia do show se aproximava com uma
velocidade, contudo, as coisas se ajustavam. Com uma semana de antecedência, as
mesas estavam todas vendidas. Isso era muito bom por um lado, por outro a
responsabilidade aumentava, agora não tinha mais volta. Qualquer desistência
seria um desastre, um desabono no meu currículo. Todas as necessidades estavam
bem encaminhadas. Agora era uma questão de ajeitar a execução para o dia.
Dia do show. O meu amigo do bar preparava
tudo para atender devidamente o público. Eu e meu compadre ajeitávamos o som, o
palco, a luz, enfim, as coisas que fariam acontecer a apresentação. Eu havia
vendido quarenta mesas, mas a casa possuía quarenta e cinco, então, arrumei
junto com as outras, essas cinco, caso aparecesse pessoas querendo entradas na
hora, eu as teria para oferecer. Alertei o meu porteiro que havia essa sobra,
portanto se interessados aparecessem, negócio fechado. A venda das mesas já era
o meu cachê e dele eu pagava o porteiro, meu compadre não quis dinheiro nenhum,
fazia por gosto e grande amizade. Antes de anoitecer, com tudo preparado para
receber o grande público, fui me arrumar. A noite chegou e junto veio a ansiedade
e aquele fantasma do medo de alguma coisa sair errado, é natural, qualquer evento
que você queira realizar para, mesmo um pequeno público, outras pessoas, até
que seja de graça, durante as horas, os minutos, segundos que antecedem o
espetáculo, sempre vai pairar a insegurança. Às vezes até uma ponta de
arrependimento. Claro, você poderia ter evitado todo esse sofrimento, mas aí
qual é a graça, a vida é feita de desafios. Isso nos alimenta. Nos motiva. Nos faz
sentir vivos.
Eu recepcionei os primeiros que
chegaram, mas depois fui tratar de inspecionar as minhas coisas. O show estava
marcado para começar as vinte e uma horas e eu não iria atrasar de jeito
nenhum, tivessem todos presentes ou não. Meia hora antes, até as cinco mesas
reservas estavam ocupadas e na portaria havia muita gente querendo entrar mesmo
que fosse para ficar em pé. O porteiro estava desesperado, sem saber o que
fazer, mesmo porque ele era conhecido por todos e simplesmente dizer que não
podia entrar não era aceito pelos conhecidos. Foi quando eu cometi uma loucura.
Dei a ordem para que fosse cobrado por cabeça e assim permitir que entrasse todos
que estavam incomodando o meu amigo porteiro. Talvez essa atitude tenha
carregado um pouco mais o tempero, levando a equipe da cozinha a ter que se
reestruturar para dar conta de tanta gente. Se vocês me perguntarem, eu não
saberei responder ou explicar como chegou a essa proporção. A minha divulgação
se restringiu as pessoas que eu procurei, já sabendo que comprariam para me
assistir cantar. O excesso, foi uma incógnita que perdura até hoje. Tomei a
atitude também num impulso para me ver livre desse imbróglio, pois tinha que me
concentrar no espetáculo. Livre dessas aporrinhações, era hora do show. Diminuímos
um pouco a iluminação, para que o facho de luz em minha direção obtivesse êxito,
chamando a atenção. Ligado o som, fiz uma pequena introdução, agradecendo as pessoas
que prestigiaram de pronto a iniciativa e a eles eu oferecia o espetáculo,
dizendo que a direção e toda a parte do texto que seria apresentado durante o
show era de autoria do meu compadre; acrescentei que com o desenrolar do show
eles iriam entender o propósito, a intenção, a finalidade, o projeto musical.
Mais uma vez apelo para a paciência
de vocês, pois como é um blog e não um livro, há que se respeitar limites de
caracteres, para não ficar longo, cansativo, ou como alguns dizem: “muito texto
e pouco diálogo. ” E eu como gosto de
recebe-los semanalmente, prefiro que seja em doses homeopáticas, assim podemos
ficar mais tempo juntos. Inté!
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