Capítulo 38 – ESTRANHO NO NINHO
Para um público esperado inicialmente
de 160 pessoas, pois as mesas vendidas antecipadas traduziam isso, com mais as cinco na reserva, teríamos 180 pessoas, mas o inesperado derruba tudo isso. Não
dá para precisar, mas acredito que quando chegou a hora do show, depois da
confusão na entrada, da permissão da entrada por cabeça, nós estávamos com a
casa lotada, diria abarrotada, de mais ou menos umas 250 a 280 pessoas. Para o
espaço e para o show, passou da conta, mas fazer o quê? Não sei explicar, como
apareceu tanta gente. Será que eu subestimei o meu prestígio? Não. Penso que
estava mais para uma carência de opções. Talvez esteja sendo modesto, mas a
prudência me impede de pensar de outra forma. Com a aglomeração veio o barulho.
Com o barulho das vozes, uma certa dificuldade em conseguir controlar a
situação, por causa desse pequeno detalhe, não foi possível começar no horário.
Ainda tivemos que ajeitar as pessoas que estavam em pé, para que não
atrapalhassem a visão dos que estavam sentados, já que haviam pagos para
assistir a um show. Por mais que ajeitássemos, não tínhamos como evitar que vez
por outra, pessoas passassem atrapalhando a visão, quando essa pessoa queria
trocar de lugar ou então descobria um grupo de amigos em outra parte do espaço.
Não havia camarim, portanto eu participava de todo essa confusão. Vocês podem
imaginar. É só visualizar, quem já esteve, um circo, mas sem as cortinas, era
mais ou menos assim, o sujeito que iria de daqui a pouco apresentar um pretenso
show, que seria sem palco, quase colado com o público, estava ainda ajeitando
acomodações e circulando no meio do pessoal, era assim mesmo, mas já dizia a
música cantada pelo meu queridíssimo Milton Nascimento: “ Todo artista tem de
ir aonde o povo está”, foi exatamente essa situação que eu havia criado. Então,
vamos ao show!
Chegamos à conclusão que começar o
show seria a melhor forma de acalmar o ambiente. Assumi meu posto, verifiquei o
som, enquanto meu diretor se preocupava com a iluminação. A improvisação, mas
muito criativa, do tema estampado num pano atrás de mim, dava ares de produção.
Cortamos um pouco a iluminação da casa, para sobressair a luz que me iluminava.
Com algumas partes do texto decorado e outras precisando de leitura, por isso o
pedestal com o texto e as músicas estavam a minha frente, comecei. Todas as músicas escolhidas eram conhecidas e de grande sucesso. O texto que antecedia
cada música, era uma pequena descrição ou melhor, era um detalhamento dos
pensamentos femininos, dos sofrimentos, das angústias, que só uma mulher
saberia transmitir, mas que fora escrito por homens que enxergaram esses
sentimentos, que de alguma forma se colocaram ou pensaram como elas. Você,
enquanto homem, escrever o que sentes, o que sonhas, o que desejas, o que
esperas, o que sofres, é quase autobiografar, se não for na maioria das vezes,
mas escrever o pensamento de outra pessoa e ainda por cima do sexo oposto, com
propriedade e aprovação feminina, aí é de se tirar o chapéu. Fiz uma pequena
introdução no violão, logo em seguida abri o show com a introdução do texto, expondo
o que viria a seguir. Continuando com o texto, agora já sobre a música a
seguir, eu ao terminar, entrava com a música que o texto tão bem descrevia.
Realmente o burburinho diminuiu, mas havia tanta gente encontrando amigos que
não viam a muito tempo, que era impossível obter silêncio por completo. Essas
pessoas eram justamente as que estavam em pé. Sem arrependimentos, mas se
fizesse outro, não abriria mão de receber só os que estavam programados. Não
houve condições para uma concentração plena, pois vez por outra eu tinha que
chamar atenção. O que seria uma hora e meia de espetáculo, passou de duas
horas, devido as pequenas, mas inúmeras interrupções. Apesar disso, eu
consegui. As pessoas que foram para ver e ouvir, gostaram, elogiaram e ficaram
satisfeitas. Se você quiser ter uma ideia do que eu cantei, vou te dar uma faísca
do repertório, se você não souber como é a letra, procure no google, aqui vai:
“Atrás da porta”, “Bilhete”, “Olhos nos olhos”, “Tatuagem”, “Explode coração”, “Recado
(Meu Namorado) ” e por aí foi.
Aquele sábado foi comentado durante
um bom tempo, tanto que o pessoal queria que eu fizesse um novo espetáculo, mas
não dava para agendar o espaço ao custo de 0800 e mesmo pagando, ficou bem
claro que falta, dentro daquela estrutura, muita coisa. Eu engavetei e até hoje
são reminiscências. De minha parte, apesar de não ficar completamente
satisfeito, o saldo foi positivo, já o meu camarada que ficou com a
responsabilidade do bar, não obteve o lucro esperado, quase que sai no prejú,
podemos até dizer que ficou, pois, a trabalheira não compensou. Fiquei chateado
e de certa forma me senti responsável, dentre um dos motivos, foi justamente o
excesso de gente. Isso prejudicou o atendimento das mesas: demora em repor e
atender pedidos; o número de atendentes ficou pequeno para tanta gente; muita
gente consegui sair sem pagar. Contabilizando no final, se fizéssemos outro
teríamos agora muita experiência que certamente não cometeríamos os erros que
cometemos, mas é assim mesmo que se prende, errando, contudo, foi uma noite
exaustiva, mas maravilhosa, principalmente no aspecto de que ali era um
território fértil para esse tipo de empreitada. Um bairro com pouquíssimas
opções de lazer noturno, ainda mais musical.
Já na semana seguinte, na
sexta-feira, lá estava eu no meu banquinho tocando como se nada tivesse
acontecido. Mas a vida é uma caixinha de surpresas! Quando você pensa que o mar
vai ficar eternamente uma calmaria, é pego de supetão por uma desavisada onda
fora do contexto que balança a sua embarcação, levando você para rodamoinho. O
que fazer nessa hora? Encarar o novo
desafio que a vida lhe apresenta. Quando dei por mim, estava sendo convidado
por um amigo do amigo do amigo para substituir um músico amigo de um dos
amigos, em caráter urgente, simplesmente no Hotel Meridien em Copacabana. Iria
cobrir o amigo que tinha recebido um desses convites irrecusáveis para tocar
num outro lugar por um dia, com um bom cachê, então eu quebraria o galho de não
deixar a casa sem músico para os gringos. Coisa simples, tocar umas duas horas
de bossa nova. Era no sábado, ambiente tranquilo, público educado, gosto
refinado, cachê caprichado. Seria mais uma experiência, além do marketing.
Faria mais amigos e consequentemente abriria mais o meu leque de opções, claro,
tudo dependeria do meu desempenho, mas quanto a isso eu não tinha nenhuma
insegurança. Podem anotar aí, foi uma experiência prazerosa, diferente e
compensadora. Foi uma virada de 360 graus no ambiente, no som, no público, na
comida, no dinheiro, enfim, em tudo. Como eu gostaria de ficar para sempre. Não
fiquei com inveja, longe disso, o lugar era do outro músico, mas aquilo me
abriu os olhos para saber que as possibilidades são infinitas como o céu.
Voltando para minha realidade, para o
meu público, aquele que toda sexta ia me ouvir, pude refletir que lá onde eu
estive, tudo era muito bonito, chique, mas tinha uma grande diferença, talvez
não só grande, importante: Era frio, distante, não era minha gente, não havia
calor humano, gente gritando: “Toca Raul! ” Falando assim parece coisa de
maluco, mas né não, essa zorra onde eu toco é muito mais gostoso. Eu sou
vira-lata! Que venham os bêbados, os chatos, os papagaios de piratas, os malas,
não são muitos e eu não vivo sem eles. Eu não que ser um estranho no ninho. Inté!
Nenhum comentário:
Postar um comentário