quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Capítulo 36 –  UMA DOSE DE FELICIDADE

Foi questão de segundos. Quando passei a palheta pelas cordas da viola e soou o primeiro acorde da introdução, o burburinho que ainda se ouvia cessou, fez-se um silêncio sepulcral, agora só o som da viola, chorando sob meus dedos que freneticamente executava a introdução, se ouvia. O delay proporcionava a resposta exata que eu esperava. Com o silêncio, o som tomou conta do ambiente como se fosse o dono, dominando cada ouvido, cada olhar. Me aproximei do microfone, já terminando a introdução, soltei a voz e, ao ouvi-la no retorno senti que dali para frente, só dependia de mim, pois tudo estava extremamente perfeito. A música é aquela que eu já citei num capítulo passado, que caiu como um raio na minha cabeça, inteira, ou seja, música e letra, que eu segurei para não perder até pegar no violão e escrever a harmonia. Me atrevo a dizer, que não era uma simples participação num festival, estava mais para um pocket show. Eu senti que desde do início, o engenheiro de som ia melhorando a qualidade, tanto, que quando eu entrei com a voz, guardada as proporções, parecia uma pororoca musical, o encontro da voz com a viola produzia harmoniosamente um efeito avassalador. A plateia flutuava. Quando terminei a primeira parte cantada e voltei a tocar a harmonia da introdução, novamente fazendo a viola chorar, pela primeira vez o público se manifestou aplaudindo. Nesse momento eu aproveitei e de soslaio rapidamente olhei os jurados, não é que eles também aplaudiam. Gente, é tudo que um artista deseja, aprovação. Eu não costumo olhar o público, nessa hora a concentração é tamanha que eu me transporto para um outro patamar. Mas eu ouço. Ouço o silêncio da multidão. Esse silêncio que sinaliza que a apresentação está tão certinha, mas tão certinha, que ninguém ousa sequer desenrolar um papel de bala para não interferir. Eu volto a cantar, agora a sequência final, quase uma cópia da primeira parte. É importante continuar aquilo que foi exaustivamente ensaiado, nada de atrevimentos ou improvisos, não é hora de correr riscos desnecessários. Chegando na parte fina, claro, havia uma pequena variação, que demonstrava o encerramento da apresentação. Quando a palheta escorreu pelas cordas da viola soando o último acorde, a plateia se levantou entusiasticamente, demonstrando através de aplausos longos que estavam muitos satisfeitos com o que acabavam de ver e ouvir. Eu me curvava em agradecimento, sorvia e saboreava cada gota, como se o som das palmas houvesse se transformado num líquido precioso, ofertado como brinde aos momentos de prazer proporcionado. Sai de cena transbordando de alegria, tão emocionado que levei um pouco mais de tempo para desvestir o personagem. Enquanto caminhava de volta a poltrona ao lado do meu amigo, ia acontecendo a metamorfose. Quando cheguei, fui recebido com largo sorriso, um forte abraço e uma afirmação: “Se não houver marmelada, esse prêmio é seu. ” Senti firmeza nas palavras e para inflar mais o meu ego, perguntei: “ Tu achas mesmo? Foi tão bom assim? ” Ele era meu amigo, não meu baba ovo e, também como os outros fora pego de surpresa, pois não sabia o que eu havia ensaiado, apenas tinha consciência do meu potencial, então decretou: “To falando sério, eu observei a plateia, eles ficaram impressionados, tua apresentação apagou todo o resto do festival. ” Não vou negar, que lá em cima, no palco, eu senti que estava voando alto, acima dos demais, mas como quando você faz, a sua percepção é diferente de quando você vê, então não conseguia mensurar com exatidão. Agora, ouvindo meu amigo falar com tanta propriedade, me veio aquela sensação novamente. Enquanto eu estava a caminho, o apresentador anunciou que os jurados iriam se retirar para conferir as notas e daqui a alguns minutos seriam proclamados os três primeiros lugares e o melhor intérprete.

Meu amigo segurava o pedal enquanto eu encapava a viola, depois da recepção calorosa e das palavras de incentivo, foi então que notei que estávamos no intervalo esperando o resultado. Para uma noite em que a grande maioria ali presente iria trabalhar no dia seguinte, já começava a ficar tarde, os organizadores sabiam disso, portanto não demorou muito e o som do microfone fez com que todos prestassem atenção, afinal, seria finalmente anunciado o resultado final. O apresentador começou pelo terceiro colocado. Uma torcida a parte se manifestou com enunciado. Eu me virei para o amigo e falei: “Agora só me restam duas ou nada. ” Após uma pequena cerimônia em que uma personalidade vinda do corpo de jurados entregou o troféu, o apresentador chamou o segundo colocado. Mais uma vez houve manifestação a parte na plateia para o enunciado. Seus assistentes de palco esperaram a presença de um representante do júri para a entrega do troféu ao segundo colocado. Novamente me virei para o amigo e disse: “Se sua profecia estiver certa sou eu, se não for vais continuar com a afirmação de marmelada? “ Antes de pronunciar o vencedor, o apresentador convidou até o palco o presidente do júri, que era o Lobo, presidente e organizador. Passou o microfone para ele. Ele foi agradecendo a todos que se entregaram de corpo e alma para que acontecesse o evento; a direção da casa por dispor um dia daquele belíssimo espaço, o Teatro do SESC; aos participantes que levaram e elevaram ainda mais o nível do festival; ao público, que respeitou a casa ocupando os seus lugares e, dos seus lugares torceram incentivando seus amigos participantes e respeitando a torcida do concorrente. O apresentador veio até ele, entregou-lhe um papel e afastou-se, ele olhou para aquele papel em sua mão, levantou a cabeça, ali estava o resultado, todos sabiam, só não sabiam qual seria o primeiro, provavelmente o melhor intérprete, e diante da imensa plateia ansiosa, começou afirmando que nunca antes havia acontecido no festival do SESC uma decisão tão unânime como essa e que também nunca haviam premiado com os dois maiores prêmios o mesmo participante. Diante do anunciado proferiu a sentença: “ Convido ao palco para receber o prêmio de melhor intérprete e também de melhor música o compositor e intérprete Carlos Henrique! ” Dei um salto da poltrona, como se tivesse levado um choque, tamanho o impacto das suas palavras. Caminhei apressadamente pelo corredor, carinhosamente aplaudido pela plateia, até o palco. Fui recebido por um Lobo nada mau, ao contrário, benevolente e com ar de satisfação, me passando a premiação. Os outros jurados se juntaram a nós, aglomerando um pouco o espaço, mas era hora de confraternizar e receber elogios e cumprimentos. Lobo ainda tentou que eu tocasse a música, mas a plateia estava se retirando e aí ele sentiu que não ia rolar, já era tarde da noite, todos estavam querendo mesmo era ir para casa dormir. Demorei um pouco para sair, mas assim que foi possível, estávamos só nós dois no ponto do ônibus, além da viola, troféus e o mais importante, cheques. Meu amigo ainda não estava trabalhando, o que nos tornava uma bela dupla, já que eu me encontrava desempregado. A propósito! O dinheiro da premiação veio na hora certa. Chegamos no bairro, nos despedimos, cada um para sua casa. Em casa, todos dormiam, entrei e tive que me conter, está certo que a casa era de poucos metros quadrados, mas mesmo que fosse de muitos não caberia tanta felicidade que emanava de mim e só, naquele momento e sem poder fazer barulho, extravasar, era uma sensação esquisita, diria frustrante. Sem interromper o sono de ninguém, fui até o meu pequeno quarto de ensaio deixar as coisas. Dentro do quarto sentei-me um pouco antes de me prepara para dormir, o cansaço já dava sinais, mas a minha mente não parava de funcionar, igual a uma máquina de rodar filmes, passando o tempo todo lembranças tão recentes que pareciam que estavam ali comigo dentro do quarto. Era um turbilhão de imagens, que certamente levaria alguns dias para irem embora. Talvez tenha sido a comemoração mais sem comemoração, pelo menos que eu tenha conhecimento. A luz da ribalta se apagou. O espetáculo chegou ao fim. A plateia se retirou. O artista se transforma num individuo comum que dentro do mundo, como tal, é apenas mais um. A felicidade para mim, não há dinheiro que a compre, pois ela não existe por inteiro, apesar de já ser uma felicidade ser um ser vivo, contudo, como a vida se apresenta entre altos e baixos, bons e maus momentos, então, tenho a leve impressão que a felicidade são breves, as vezes longos, mas sempre intensos os momentos. Ela vem em doses entre um intervalo e outro, pode até demorar, mas vem. Essa noite eu recebi a minha dose, que vou saboreá-la até a última gota. Inté!                                 

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