quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Capítulo 14 –  ...DIIAA SÔ!

Animados e apreensivos, embarcamos nós os quatros (voz e viola, guitarra, baixo e bateria) e mais um amigo, que também tinha parente em Úba, em um ônibus rumo ao desconhecido. Era noite. Previsão de chegada: madrugada de sexta-feira. Depois de toda a euforia do embarque, ficamos um pouco preocupado se realmente haveria alguém nos esperando na chegada, já que a mesma se daria em plena madrugada. O silêncio no interior do ônibus e a pouca iluminação, aliado ao adiantar da hora, nos arrefeceu os ânimos e logo veio o sono que se prolongou até a chegada. 
Já de dentro do ônibus avistamos na rodoviária de Úba um grupinho de pessoas e entre elas o guitarra base. O comitê de recepção não poderia ser melhor, as meninas eram lindas. Assim que descemos para pegarmos toda a nossa tralha, levamos um susto de arrepiar, literalmente. A temperatura estava tão baixa em contraste ao interior do ônibus, que tivemos que nos apressar em procurar agasalho, antes de qualquer apresentação. Afinal, quaisquer 20 graus prum carioca é Sibéria. Feitas as apresentações, pudemos constatar a beleza das meninas e além disso eram supersimpáticas. Fomos conduzidos para um carro e avisados que seríamos levados para uma casa fora de centro da cidade para passar o resto da noite. Lá não encontraríamos conforto, era só para não pagarmos uma diária de hotel à toa e, assim que amanhecesse, nos buscaríamos para então darmos entrada na primeira diária do hotel afim de economizarmos. Nos despedimos das meninas, para que fossem à suas casas dormir, mas antes de partirem deixaram bem claro que seriam nossos anjos da guarda em Úba. Era o paraíso!  Subimos numa picape e saímos. O lugar não era perto. No caminho não dava pra ver nadica de nada, pois o breu era impenetrável, somente a luz do farol do carro é que iluminava a direção na estrada. Passados uns longos minutos, a ansiedade modifica o tempo, mas não tinha como não ser, todos tiveram a mesma sensação. De repente, o carro parou na estrada e fomos apresentados a casa que passaríamos a noite. Ah! Como é bom ser jovem, tudo é aventura e nada nos amedronta. Para começar, a casa estava em construção; tinha teto e paredes; o chão ainda era de cimento; já havia divisão de cômodos; janela, só o quadrado com madeira; luz nem pensar e havia uma tábua improvisada como porta. Bem, mas o guitarra base pensava em tudo, então nos passou uma caixa de velas e caixa de fósforo, depois pediu paciência e prometeu vir o mais cedo possível, assim que clareasse, para nos resgatar para a centro da cidade e partiu. Exploramos a pequena casa e encontramos um aposento pequeno, que parecia que seria um quarto, porém adequado para as nossas pretensões. Como havíamos dormido na viagem, estávamos sem sono, apenas com um pouco de fome, mas isso foi logo resolvido. O batera sacou de dentro da mochila um farnel que a sua querida mãezinha havia preparado para o filhinho, caso ele sentisse fome e, não é que ele agora e mais quatro estavam ávidos para por alguma coisa no estômago. Era o manjar dos deuses. Apesar de estar bem longe, essa senhora nunca foi tão elogiada e lembrada a cada mordida. Após, só nos restava uma coisa a fazer para passar a hora: sacar da viola e tocar e cantar até amanhecer. Momento mágico. Os cinco sentados no chão, tendo vela acesa como luz, dentro de uma casa em construção, no meio da madrugada, num lugar sabe lá aonde, cantando. São esses pequenos momentos que simbolizam e são reconhecidos com o nome de: "FELICIDADE".
Clareou, e nem notamos a noite partir, mas a luminosidade do sol espalhando claridade por toda a parte, chegava anunciando a ineficiência da vela e descortinando um cenário digno de renomados pintores. Estávamos em plena natureza. O cheiro da manhã rodeado de arvores, plantas, matos, é de uma pureza que até fere os pulmões de quem não está acostumado. Agora podíamos ver exatamente aonde passamos a noite. Só com aquele breu mesmo, onde não enxergávamos nada, é que a gente aceitou ficar no meio do nada, num projeto de casa, entregue a sorte e a proteção divina. Não aguentamos ficar nem mais um minuto ali parado, esperando sabe-se lá quanto tempo, até que alguém lembrasse da gente. Avistamos uma pessoa que vinha pela estradinha e que passaria bem na frente do terreno, descemos para conseguir informação para que lado ficava o centro da cidade. Ao se aproximar exclamou: ...diiaa sô! Nós respondemos o comprimento e tiramos a nossa dúvida para que lado ficava a cidade. No caminho, íamos cruzando com outros homens e todos ao se aproximar exclamavam: ...diiaa sô! E nós respondíamos. O interessante é que não era “bom dia”, pronunciado por inteiro, era assim mesmo como estou tentando explicar pela escrita, a palavra “bom”, ficava meio que retida, sem som e, só vinha o “diiaa sô!”, acompanhado de um sotaque do interior, que nos damos conta que eram trabalhadores rurais e aquele horário, o raiá do dia e aquele caminho, os levaria para o roçado. Perdemos a conta de quantos “diiaa sô!”, pronunciamos até chegarmos a praça principal da cidade. Contudo, se tivéssemos mais uns 10 km, seria maravilhoso para o batera, pois ele ia na frente e antes dos passantes já se adiantava em cumprimentar.
Nosso primeiro dia em Úba, foi algo inesquecível. Ao chegarmos na praça, não tínhamos a mínima noção para onde ir, então, batera, baixista e o nosso amigo nos deixaram na praça e resolveram vasculhar a cidade, atrás de informação que os levasse até o guitarra base. Então para passar o tempo, pegamos o Del Vecchio e começamos a tocar e cantar. Não demorou nem cinco minutos, um rapaz empurrando um cadeirante, pararam bem próximo e ficaram escutando, logo em seguida mais um, depois mais dois e outras pessoas paravam, ouviam uma ou duas músicas e seguiam, mas o mais interessante é que sempre que partiam, elogiavam e se desculpavam por ter que sair. Houve até um em particular, que nos comoveu e nos fez refletir, diante da falta de costume em que nos habituamos a viver. Nós havíamos acabado de tocar uma música, quando ele se pronunciou, antes que iniciássemos a próxima, se desculpou por ter que sair, pois estava na hora de ir trabalhar, que nós não ficássemos aborrecidos com a sua retirada, mas era necessário, agradeceu o momento que passou conosco e sorrindo partiu. Ficamos arrasados com tamanha humildade, simplicidade e respeito para com o próximo. Aquelas pessoas não existiam. Não faziam parte do nosso mundo. Que diferença abissal.
Os três voltaram e com eles o guitarra base e as meninas. A cidade em si, não era muito grande. Tudo girava em torno daquela praça, isto é, para os jovens e as pessoas mais abastas, pois nós havíamos conhecidos pessoas que trabalhavam na roça e que provavelmente não frequentavam os bares e restaurantes em torno da praça e nem iriam ao festival, portanto, além daquele miolo existia um outro mundo, uma outra realidade. Partimos em direção ao hotel, afim de definir logo o problema da acomodação, descansar, almoçar e nos prepararmos para a tarde irmos ao ginásio passar o som para a noite de estreia. No horário acertado, estávamos dentro do ginásio esperando a nossa vez para a passagem de som. Era um espaço grande. Montaram um palco de grandes proporções. Espaço suficiente para grupos; um em especial para o cantor; instrumentos para uma média orquestra; vários microfones; um balcão virado para o palco, onde ficariam os jurados, em baias com cadeiras e fones; decoração de super evento; aparelhagem de primeira linha; engenheiros de som, enfim, aquela visão nos surpreendeu, mostrando que agora não era mais brincadeira de garagem. Tínhamos um tempo determinado, assim como todos os outros, para fazermos o reconhecimento do gramado. Não sei se por não estarmos acostumados a muito recurso ou puro nervosismo, só sei que a passagem foi uma frustração. Saímos do ginásio com a sensação de que estávamos aquém do compromisso assumido. O resto da tarde até a hora da apresentação, tentamos relaxar, mas o clima ficou tenso. Procuramos em conversa, achar aonde tínhamos errado, para não permitirmos que voltasse a acontecer a noite. A noite chegou inclemente. Um frio do cassete e o chuveiro do hotel não esquentava a água nem pelo c... e então, foda-se banho. Lava-se só as partes pudicas e completa com desodorante e perfume. Descemos à rua e respiramos fundo. Olhamos na direção do ginásio e depois um para o outro e, não pronunciamos nenhuma palavra, não precisava, estava explicito em cada semblante. O momento tão esperado estava próximo, era só fazer o que sabíamos. Era tudo ou nada!  

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