Capítulo 15 –
NOITE DE ESTRÉIA
Após uma
pequena caminhada, ao chegarmos na praça, notamos grande movimentação em frente
a porta de entrada do ginásio, onde iria acontecer o evento. A calçada estava
apinhada de gente. Como era um acontecimento grandioso patrocinado pela
prefeitura e anual no calendário da cidade, era justo que tivesse tanta gente e
de todas as idades. Procuramos e encontramos as meninas que trabalhavam no
evento, que providenciaram a nossa entrada por um acesso especial aos
participantes do festival. Chegamos numa sala grande, onde se encontravam todos
que iriam se apresentar naquela noite. Buscamos um lugar em que pudéssemos
ficar agrupados e concentrados, tínhamos algumas coisas para conversar, afim de
tentar melhorar o que fora a passagem de som. Basicamente tentamos trazer para o festival um
pouco da nossa descontração da garagem. O espírito do prazer de tocar,
independentemente de ser ou não um festival. Os meses de ensaios, agora chegara
a hora de mostrar o resultado e teria que ser melhor, pois tínhamos finalmente
os recursos que tanto sonhamos. Tentamos com essas palavra e atitudes colocar
os pés no chão, acalmar os nervos. Eu não sei quanto ao que
passava na cabeça de cada um, mas, penso eu, não ser muito diferente do que
acontecia na minha. A responsabilidade era igual, talvez um pouco mais para
mim, afinal era eu que iria cantar e, eu, que até então não tinha parado par
pensar nisso, me dei conta do tamanho da responsa. As meninas apareceram para
passar informações do regulamento do festival, apesar de todos terem recebidos as
instruções por escrito. Os dois primeiros dias, ou seja, sexta-feira e sábado
seriam apresentações classificatórias para o domingo, quando aconteceria a
grande final e seria anunciado os três vencedores ou seja: terceiro, segundo e
primeiro lugar, no caso o grande vencedor. Além de prêmios em dinheiro para os
três primeiros, havia também o de melhor intérprete. Cada música não poderia
ultrapassar o tempo de três minutos e trinta segundos. O concorrente ao ser
chamado teria trinta segundos para começar a apresentação, caso estourasse o
tempo, estaria automaticamente desclassificado. Passada as informações, elas se
certificaram de que não havia nenhuma dúvida e em seguida vieram papear
conosco. Foi bom termos a companhia delas até a hora em que a música anunciou a
abertura da primeira noite do festival. Elas como trabalhavam na recepção e
preparação da entrada dos participantes, tiveram que se posicionar antes da
cortina que servia de divisão entre a sala e o palco. Se fossemos dividir em
três, nós estávamos no início de terceiro terço, o que parecia excelente, pois
a plateia já estaria ligada e aquecida, além do ginásio àquela altura se
encontrar completamente lotado. A posição que iriamos ocupar no palco nós já
sabíamos desde a tarde quando fomos passar o som. Após a cortina, havia uma
rampa com duas direções: seguindo em frente subindo, ficava quem iria cantar.
Bem de cara para o público. Que seria eu. Sozinho. Seguindo para a esquerda,
num nível um pouco abaixo do palco do cantor, ficava a banda, na parte detrás.
Naquela tarde após o ensaio, nós resolvemos que seria mais adequado, foi uma
decisão unânime, de que deveríamos adotar dois nomes: um para o cantor e outro
para a banda e, assim, procuramos as meninas, que nos levaram aos responsáveis
e alteramos os nomes. Foi uma estratégia para podermos participar de duas
premiações, a de música e intérprete. Nosso amigo já havia nos deixado, pois
não podia permanecer no local e claro, ele também queria ver o festival.
Ouvimos a voz possante e aveludada do apresentador cumprimentando a plateia, ao
ouvi-la reconhecemos logo, era ninguém mais nem menos do que o grande J. Silvestre,
apresentador de televisão muito conhecido. Comparado aos dias de hoje, seria um Raul Gil
ou até Silvio Santos. Foi o precursor de programas com perguntas e respostas valendo
no final, um prêmio espetacular em dinheiro. Pense em “Quem Quer Ser um Milionário?
”, filme britânico, adaptado do livro Q&A escrito por um indiano e ganhador
do Oscar. Após a grande surpresa, sorrimos todos juntos e uníssonos exclamamos:
“seremos anunciados pelo J. Silvestre! ”
A plateia reagiu aos gritos e aplausos, diante da chamada para receber
os candidatos ao prêmio do grande festival, anunciado pelo apresentador, todos
estavam ansiosos para que começasse logo. Foi chamado o primeiro participante.
As meninas abriram a cortina para que ele pudesse passar. Segundos após
ultrapassar a cortina, podemos ouvir a agitação do público, já que a cortina
voltou a ser fechada, dando sinais de que ele já estava entregue as feras.
Confesso que naquele momento senti um pouco de medo. Ninguém podia passar da
cortina para olhar do outro lado, mas nós que já tínhamos um pouquinho de
intimidade com as meninas, pedimos e fomos atendido, desde que fossemos rápidos
e não mais que a cabeça para uma breve olhada. Não levamos mais de trinta
segundos, o suficiente para termos uma leve ideia da quantidade de pessoas que
estavam presentes. Mais tarde ficamos sabendo que o festival registrou uma
média de público em torno de quatro a seis mil pessoas, entre sexta e domingo.
Sem medo de errar, penso que naquele dia nossa prova de fogo seria para mais de
quatro mil. Cada um lidava com a sua ansiedade e nervosismo a sua maneira,
enquanto o tempo passava e a nossa vez se aproximava. Eu, quando estávamos próximo
do momento, faltando apenas acabar o que estava cantando e o seguinte entrar,
comecei a modificar a minha vestimenta. Nosso vestuário era muito simples:
tênis, meião, calça jeans, camiseta e outra camisa por cima, agasalho, além
disso, eu tinha um colete e uma boina de pele de guaxinim a la “Daniel Boone”,
personagem de um seriado de tv. Bem, enrolei a calça da bainha até perto do
joelho, ficando assim o meião que era azul e branco em listras horizontais a
amostra, tirei o casaco e fiquei só de colete por cima da camisa por fora da
calça, o tênis era azul acamurçado, então o visual com o Daniel Boone na
cabeça ficou diferenciado. Os amigos gostaram e as meninas também e, esse
pequeno detalhe me encorajou. Finalmente chamados, eu puxando o cordão, passei
pela cortina e subi a rampa que me levaria até o palco principal. Uma assistente
de palco ajeitou o microfone para minha altura, coisa rápida, olhei para trás,
pros meus companheiros para saber se estavam prontos, pois tínhamos trinta
segundos, e vi o guitarrista começar a contagem; minha perna não parava de
tremer e eu para disfarçar ficava fazendo mais ou menos um pêndulo; não olhava
fixo para ninguém, o meu olhos estavam para dentro, a única coisa que eu
reparei foram os jurados, só porque estavam bem na minha frente. O público,
principalmente os jovens, que se mostraram receptivos, agora guardavam
silêncio, à espera do que viria. Vocês não sabem o que aconteceu, mas vão saber.
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