quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Capítulo 15 – NOITE DE ESTRÉIA


Após uma pequena caminhada, ao chegarmos na praça, notamos grande movimentação em frente a porta de entrada do ginásio, onde iria acontecer o evento. A calçada estava apinhada de gente. Como era um acontecimento grandioso patrocinado pela prefeitura e anual no calendário da cidade, era justo que tivesse tanta gente e de todas as idades. Procuramos e encontramos as meninas que trabalhavam no evento, que providenciaram a nossa entrada por um acesso especial aos participantes do festival. Chegamos numa sala grande, onde se encontravam todos que iriam se apresentar naquela noite. Buscamos um lugar em que pudéssemos ficar agrupados e concentrados, tínhamos algumas coisas para conversar, afim de tentar melhorar o que fora a passagem de som.  Basicamente tentamos trazer para o festival um pouco da nossa descontração da garagem. O espírito do prazer de tocar, independentemente de ser ou não um festival. Os meses de ensaios, agora chegara a hora de mostrar o resultado e teria que ser melhor, pois tínhamos finalmente os recursos que tanto sonhamos. Tentamos com essas palavra e atitudes colocar os pés no chão, acalmar os nervos. Eu não sei quanto ao que passava na cabeça de cada um, mas, penso eu, não ser muito diferente do que acontecia na minha. A responsabilidade era igual, talvez um pouco mais para mim, afinal era eu que iria cantar e, eu, que até então não tinha parado par pensar nisso, me dei conta do tamanho da responsa. As meninas apareceram para passar informações do regulamento do festival, apesar de todos terem recebidos as instruções por escrito. Os dois primeiros dias, ou seja, sexta-feira e sábado seriam apresentações classificatórias para o domingo, quando aconteceria a grande final e seria anunciado os três vencedores ou seja: terceiro, segundo e primeiro lugar, no caso o grande vencedor. Além de prêmios em dinheiro para os três primeiros, havia também o de melhor intérprete. Cada música não poderia ultrapassar o tempo de três minutos e trinta segundos. O concorrente ao ser chamado teria trinta segundos para começar a apresentação, caso estourasse o tempo, estaria automaticamente desclassificado. Passada as informações, elas se certificaram de que não havia nenhuma dúvida e em seguida vieram papear conosco. Foi bom termos a companhia delas até a hora em que a música anunciou a abertura da primeira noite do festival. Elas como trabalhavam na recepção e preparação da entrada dos participantes, tiveram que se posicionar antes da cortina que servia de divisão entre a sala e o palco. Se fossemos dividir em três, nós estávamos no início de terceiro terço, o que parecia excelente, pois a plateia já estaria ligada e aquecida, além do ginásio àquela altura se encontrar completamente lotado. A posição que iriamos ocupar no palco nós já sabíamos desde a tarde quando fomos passar o som. Após a cortina, havia uma rampa com duas direções: seguindo em frente subindo, ficava quem iria cantar. Bem de cara para o público. Que seria eu. Sozinho. Seguindo para a esquerda, num nível um pouco abaixo do palco do cantor, ficava a banda, na parte detrás. Naquela tarde após o ensaio, nós resolvemos que seria mais adequado, foi uma decisão unânime, de que deveríamos adotar dois nomes: um para o cantor e outro para a banda e, assim, procuramos as meninas, que nos levaram aos responsáveis e alteramos os nomes. Foi uma estratégia para podermos participar de duas premiações, a de música e intérprete. Nosso amigo já havia nos deixado, pois não podia permanecer no local e claro, ele também queria ver o festival. Ouvimos a voz possante e aveludada do apresentador cumprimentando a plateia, ao ouvi-la reconhecemos logo, era ninguém mais nem menos do que o grande J. Silvestre, apresentador de televisão muito conhecido. Comparado aos dias de hoje, seria um Raul Gil ou até Silvio Santos. Foi o precursor de programas com perguntas e respostas valendo no final, um prêmio espetacular em dinheiro. Pense em “Quem Quer Ser um Milionário? ”, filme britânico, adaptado do livro Q&A escrito por um indiano e ganhador do Oscar. Após a grande surpresa, sorrimos todos juntos e uníssonos exclamamos: “seremos anunciados pelo J. Silvestre! ”  A plateia reagiu aos gritos e aplausos, diante da chamada para receber os candidatos ao prêmio do grande festival, anunciado pelo apresentador, todos estavam ansiosos para que começasse logo. Foi chamado o primeiro participante. As meninas abriram a cortina para que ele pudesse passar. Segundos após ultrapassar a cortina, podemos ouvir a agitação do público, já que a cortina voltou a ser fechada, dando sinais de que ele já estava entregue as feras. Confesso que naquele momento senti um pouco de medo. Ninguém podia passar da cortina para olhar do outro lado, mas nós que já tínhamos um pouquinho de intimidade com as meninas, pedimos e fomos atendido, desde que fossemos rápidos e não mais que a cabeça para uma breve olhada. Não levamos mais de trinta segundos, o suficiente para termos uma leve ideia da quantidade de pessoas que estavam presentes. Mais tarde ficamos sabendo que o festival registrou uma média de público em torno de quatro a seis mil pessoas, entre sexta e domingo. Sem medo de errar, penso que naquele dia nossa prova de fogo seria para mais de quatro mil. Cada um lidava com a sua ansiedade e nervosismo a sua maneira, enquanto o tempo passava e a nossa vez se aproximava. Eu, quando estávamos próximo do momento, faltando apenas acabar o que estava cantando e o seguinte entrar, comecei a modificar a minha vestimenta. Nosso vestuário era muito simples: tênis, meião, calça jeans, camiseta e outra camisa por cima, agasalho, além disso, eu tinha um colete e uma boina de pele de guaxinim a la “Daniel Boone”, personagem de um seriado de tv. Bem, enrolei a calça da bainha até perto do joelho, ficando assim o meião que era azul e branco em listras horizontais a amostra, tirei o casaco e fiquei só de colete por cima da camisa por fora da calça, o tênis era azul acamurçado, então o visual com o Daniel Boone na cabeça ficou diferenciado. Os amigos gostaram e as meninas também e, esse pequeno detalhe me encorajou. Finalmente chamados, eu puxando o cordão, passei pela cortina e subi a rampa que me levaria até o palco principal. Uma assistente de palco ajeitou o microfone para minha altura, coisa rápida, olhei para trás, pros meus companheiros para saber se estavam prontos, pois tínhamos trinta segundos, e vi o guitarrista começar a contagem; minha perna não parava de tremer e eu para disfarçar ficava fazendo mais ou menos um pêndulo; não olhava fixo para ninguém, o meu olhos estavam para dentro, a única coisa que eu reparei foram os jurados, só porque estavam bem na minha frente. O público, principalmente os jovens, que se mostraram receptivos, agora guardavam silêncio, à espera do que viria. Vocês não sabem o que aconteceu, mas vão saber.     

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