quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Capítulo 12 –  PRIMEIRA APRESENTAÇÃO

Eu já estava pensando em colocar a comida para esquentar, quando tocou a campainha, no que abri a porta, para minha surpresa era o meu amigo que me visitava no seu horário de almoço do trabalho. Rapidamente quis mostrar a novidade a ele. Peguei o Del Vecchio e estendi em sua direção, para que pudesse tocá-lo e emitir sua opinião. Primeiro esboçou umas expressões impróprias para o decorrer da leitura, vou deixar na imaginação de vocês, depois, sentou-se ávido para sentir a sonoridade, teve que antes acertar a afinação que havia cedido, e por fim, usou e abusou do instrumento. Eu, ansioso esperava seu comentário, sobre a minha aquisição. Passados alguns minutos, parou e virando-se para mim sentenciou: “Cara, aonde você arrumou essa preciosidade? O som é do ca£*#§! ”. Aproveitei a aprovação e falei que havia feito duas novas composições com ele. Quis ouvir e pediu que eu as tocasse. Não precisava pedir duas vezes, eu estava doido para mostrar para alguém, ainda mais se fosse o ouvinte um músico, eu teria uma opinião mais apurada. Quando acabei, a crítica foi melhor do que eu esperava. Pedindo o violão, pediu que eu cantasse a primeira, “Vai Tudo Bem”, que ele iria tocar a base. Enquanto eu cantava, a música recebia novos acordes e acabamento (arranjo), ela começou a ficar mais encorpada, com mais brilho, ia ganhando forma, personalidade, sendo lapidada com carinho. O tempo era curto, quando ele notou já estava até um pouco atrasado em seu retorno ao trabalho, mas seu entusiasmo ficou claro, quando, mesmo saindo às pressas, afirmou que terminaria em casa a primeira e que para a segunda já tinha na cabeça algumas ideias, mas tudo teria que ficar para manhã ou outro dia se não pudesse vir. Partiu. Me lembrei do almoço, fiquei na dúvida entre tocar e comer, mas optei pela segunda, então, esquentei a comida e enquanto comia, me veio a sensação de que aquele dia, mesmo ainda não tendo posto o nariz pro lado de fora, estava maravilhoso, independente de fatores climáticos, a sensação era ali, ao meu redor, no meu espaço, o meu interior.
Durante a semana as duas músicas ficaram prontas, ou seja, receberam os arranjos e não houve necessidade de mexer numa só virgula e nem na melodia. No sábado, haveria um ensaio do grupo na garagem do baterista e lá, eu iria cantar já com a formação toda: guitarra (duas), baixo e bateria. Assim que chegamos, todos foram informados que faríamos um ensaio com duas músicas novas. Daí para frente, depois de ligados os instrumentos, o meu amigo começou a passar os acordes e andamentos da primeira música para o outro guitarrista e também para o contrabaixista e, já deixando os dois se familiarizando, virou-se para o baterista e gesticulando, junto ao som feito pela boca, foi mostrando como ele gostaria da batida. Detalhe muito importante: os instrumentos, apesar de precários, tinham amplificador e caixa de som, agora eu, tinha que ser só no gogó. Haja gogó! As músicas foram se transformando gradativamente e, cada vez ficando mais fácil de executar. Quem passava pela garagem ia gostando e aprovando.
Certo dia fomos surpreendidos pelo baterista, que nos trazia uma notícia surreal: estávamos inscritos para participar em um programa de televisão, um desses de calouros e, iríamos poder tocar uma de nossas músicas. Não me lembro bem quem foi que arrumou essa apresentação, bem, não era bem uma apresentação, mas para nós era, afinal poderíamos tocar e cantar pela primeira vez fora da garagem, mesmo que fosse num programa de calouros na extinta TV RIO. Fomos avisados que só precisaríamos levar os instrumentos, só isso já era o máximo e, eu cantaria num microfone, além de nós aparecermos na televisão. Que maravilha! Escolhemos “MOTIVOS” para apresentação. No dia, era uma tarde linda, mesmo que não fosse, para nós era. Dentro do estúdio, parecíamos gente do interior na cidade grande, olhos arregalados e meio que perdidos na correria das dançarinas, cada mulherão, para se posicionar, pois o programa iria começar. Veio ao nosso encontro um cara com uma prancheta, confirmou o nome do conjunto ou banda, como queira, e que ficássemos atentos, não podíamos perder a chamada, ou seja, atrasar, tudo era feito ao vivo. Ficamos no corredor, assistindo por uma fresta o desenrolar, até que fomos chamados. Nos dirigimos ao palco para nos posicionar, eu que não tinha que plugar nenhum aparelho, pude observar a plateia, para minha surpresa, não passava de umas trinta a quarenta pessoas, dentre elas a irmã do meu amigo guitarrista, pulando aos gritos e tentando contagiar as outras meninas. Tudo certo, nos apresentamos, fomos julgados como calouros, iniciantes, postulantes ao estrelato. Para nós, não foi nada disso. Serviu para avaliarmos nossos ensaios e entrosamento. Saímos satisfeito e convictos de que estávamos no caminho certo. Todos que viram, mesmo sendo nossos amigos e incentivadores, falaram muito bem. Que a voz saiu legal; que o vocal ficou certinho; enfim, nos saímos bem.

Voltamos aos nossos ensaios aos sábados e, não demorou muito fomos de novo surpreendidos. Dessa vez foi o guitarra base que trouxe a notícia: estávamos classificados para participar do festival de música da cidade de ÚBA/MG. Agora fudeu! 

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