Capítulo 12 – PRIMEIRA APRESENTAÇÃO
Eu já estava pensando em colocar a comida para esquentar,
quando tocou a campainha, no que abri a porta, para minha surpresa era o meu
amigo que me visitava no seu horário de almoço do trabalho. Rapidamente quis
mostrar a novidade a ele. Peguei o Del Vecchio e estendi em sua direção, para
que pudesse tocá-lo e emitir sua opinião. Primeiro esboçou umas expressões
impróprias para o decorrer da leitura, vou deixar na imaginação de vocês,
depois, sentou-se ávido para sentir a sonoridade, teve que antes acertar a
afinação que havia cedido, e por fim, usou e abusou do instrumento. Eu, ansioso
esperava seu comentário, sobre a minha aquisição. Passados alguns minutos,
parou e virando-se para mim sentenciou: “Cara, aonde você arrumou essa
preciosidade? O som é do ca£*#§! ”. Aproveitei a aprovação e falei que havia
feito duas novas composições com ele. Quis ouvir e pediu que eu as tocasse. Não
precisava pedir duas vezes, eu estava doido para mostrar para alguém, ainda
mais se fosse o ouvinte um músico, eu teria uma opinião mais apurada. Quando
acabei, a crítica foi melhor do que eu esperava. Pedindo o violão, pediu que eu
cantasse a primeira, “Vai Tudo Bem”, que ele iria tocar a base. Enquanto eu
cantava, a música recebia novos acordes e acabamento (arranjo), ela começou a
ficar mais encorpada, com mais brilho, ia ganhando forma, personalidade, sendo
lapidada com carinho. O tempo era curto, quando ele notou já estava até um
pouco atrasado em seu retorno ao trabalho, mas seu entusiasmo ficou claro,
quando, mesmo saindo às pressas, afirmou que terminaria em casa a primeira e
que para a segunda já tinha na cabeça algumas ideias, mas tudo teria que ficar
para manhã ou outro dia se não pudesse vir. Partiu. Me lembrei do almoço,
fiquei na dúvida entre tocar e comer, mas optei pela segunda, então, esquentei
a comida e enquanto comia, me veio a sensação de que aquele dia, mesmo ainda
não tendo posto o nariz pro lado de fora, estava maravilhoso, independente de
fatores climáticos, a sensação era ali, ao meu redor, no meu espaço, o meu
interior.
Durante a semana as duas músicas ficaram prontas, ou seja,
receberam os arranjos e não houve necessidade de mexer numa só virgula e nem na
melodia. No sábado, haveria um ensaio do grupo na garagem do baterista e lá, eu
iria cantar já com a formação toda: guitarra (duas), baixo e bateria. Assim que
chegamos, todos foram informados que faríamos um ensaio com duas músicas novas.
Daí para frente, depois de ligados os instrumentos, o meu amigo começou a
passar os acordes e andamentos da primeira música para o outro guitarrista e
também para o contrabaixista e, já deixando os dois se familiarizando, virou-se
para o baterista e gesticulando, junto ao som feito pela boca, foi mostrando
como ele gostaria da batida. Detalhe muito importante: os instrumentos, apesar
de precários, tinham amplificador e caixa de som, agora eu, tinha que ser só no
gogó. Haja gogó! As músicas foram se transformando gradativamente e, cada vez
ficando mais fácil de executar. Quem passava pela garagem ia gostando e
aprovando.
Certo dia fomos surpreendidos pelo baterista, que nos trazia
uma notícia surreal: estávamos inscritos para participar em um programa de
televisão, um desses de calouros e, iríamos poder tocar uma de nossas músicas.
Não me lembro bem quem foi que arrumou essa apresentação, bem, não era bem uma
apresentação, mas para nós era, afinal poderíamos tocar e cantar pela primeira
vez fora da garagem, mesmo que fosse num programa de calouros na extinta TV
RIO. Fomos avisados que só precisaríamos levar os instrumentos, só isso já era
o máximo e, eu cantaria num microfone, além de nós aparecermos na televisão. Que
maravilha! Escolhemos “MOTIVOS” para apresentação. No dia, era uma tarde linda,
mesmo que não fosse, para nós era. Dentro do estúdio, parecíamos gente do interior na cidade grande, olhos arregalados e meio que
perdidos na correria das dançarinas, cada mulherão, para se posicionar, pois o
programa iria começar. Veio ao nosso encontro um cara com uma prancheta,
confirmou o nome do conjunto ou banda, como queira, e que ficássemos atentos, não podíamos perder a chamada, ou seja, atrasar, tudo era feito ao
vivo. Ficamos no corredor, assistindo por uma fresta o desenrolar, até que
fomos chamados. Nos dirigimos ao palco para nos posicionar, eu que não tinha
que plugar nenhum aparelho, pude observar a plateia, para minha surpresa, não
passava de umas trinta a quarenta pessoas, dentre elas a irmã do meu amigo
guitarrista, pulando aos gritos e tentando contagiar as outras meninas. Tudo
certo, nos apresentamos, fomos julgados como calouros, iniciantes, postulantes
ao estrelato. Para nós, não foi nada disso. Serviu para avaliarmos nossos
ensaios e entrosamento. Saímos satisfeito e convictos de que estávamos no
caminho certo. Todos que viram, mesmo sendo nossos amigos e incentivadores,
falaram muito bem. Que a voz saiu legal; que o vocal ficou certinho; enfim, nos
saímos bem.
Voltamos aos nossos ensaios aos sábados e, não demorou muito
fomos de novo surpreendidos. Dessa vez foi o guitarra base que trouxe a
notícia: estávamos classificados para participar do festival de música da
cidade de ÚBA/MG. Agora fudeu!
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