Capítulo 75 – GERAÇÃO OUSADIA OU SEM NOÇÃO?
A ousadia da geração que
gosta de MPB, funk, sertanejo, rock, forró e tá tudo bem
Minha mãe gosta de sertanejo raiz. Milionário e José
Rico, João Mineiro e Capataz, ela escuta isso sempre. Toda vez que vai colocar
uma música é só esse gênero. Modão de viola, sô. Trem das antigas. Ela
não escuta rádio sertaneja porque só toca a famosa divisão universitária. Não
tem preconceito com isso, não sai esbravejando quando começa a tocar, mas se
pudesse trocar pelo modão ela ficaria bem feliz.
É de outra geração, acostuma a ouvir o que o ambiente em
que cresceu tocava. Do interior de São Paulo, beirando Taubaté, mamãe cresceu
ouvindo viola caipira e sem influências de outros gêneros. É disso que ela
gosta. Ponto.
Nós não consumimos mais música da mesma forma como
nossos pais e avós consumiam, não recebemos mais música da mesma maneira. As
rádios e a TV (nossa geração assiste televisão além
dos eventos ao vivo?) não são mais as únicas difusoras de
novos artistas. A internet possibilitou novos fenômenos musicais e todos eles
estão a um clique de você. No Rio de Janeiro ou no interior da Bahia, ninguém
precisa mais buscar, a música te acha. Nós viramos produtores de conteúdo em
nossas redes sociais e por consequência divulgadores de novos nomes.
Se você buscar pelas músicas
mais tocadas no Brasil (lista do Spotify) encontra Mc Zaac, Ed Sheeran,
Nego do Borel, Alok, Simone e Simara (3x), Luan Santana, Wesley Safadão, The
Chainsmokers (2x), Coldplay, Marron 5, Anavitória (2x), Luis Fonsi e Marília
Mendonça (3x). Forró, Funk, Pop, Rock, Pop Funk, Sertanejo Universitário,
Raggeaton, Eletrônica e até o novíssimo Pop Rural (uma nova divisão dentro da
MPB).
Não muito tempo atrás o Funk
não se bicava com o rock e a música eletrônica então, sempre amiga do
Reggaeton, nem chegava perto do Sertanejo. Ver todos eles numa mesma lista,
poderia não significar absolutamente nada se não fossem ritmos consumidos sem
preconceito por uma mesma geração. Se todo mundo que gosta de rock ouvisse só o
rock ele apareceria na lista da mesma forma, assim como com os outros ritmos,
mas o que mudou foi o consumir funk numa mesma playlist de forró e sertanejo.
Uma geração que esqueceu de dividir e escolher, preferiu juntar e não vê
problema nenhum nisso.
“A gente
gosta é de música!” diz o comercial do Multishow, canal da Globosat que foca sua grade em
eventos e clipes musicais. Na programação se vê de tudo, inclusive um programa
“bom demais da conta” que resume esse meu texto em qualquer episódio. Música
Boa Ao Vivo, comandado pela cantora Anitta, traz diversos convidados dos mais
variados gêneros músicas com uma pluralidade de ritmos apresentados para um
mesmo público que canta e se diverte com todos eles.
Para a maioria, não tem mais
essa de “só escuto tal ritmo”. Eles até têm um gênero musical predileto,
mas não fazem cara feia quando começa a tocar funk, por exemplo. Sertanejo na
sexta, balada eletrônica no sábado e no domingo pagode. Poderia ser o roteiro
de um final de semana qualquer. A lista do serviço de streaming tem
de tudo um pouco e se tocar em ordem aleatória, pode até dar um nó na cabeça da
geração mais velha. Festa de casamento toca de tudo, festa de aniversário toca
de tudo. É difícil montar uma playlist porque você não sabe se MC Kevinho fica
melhor depois de Imagine Dragons ou antes do Criolo.
É fato que alguns gêneros
musicais ainda predominam no Brasil. Sertanejo Universitário virou um tsunami
desde 2010 e essa onda parece que nunca vai chegar na praia. Recentemente, o
Funk recuperou um espaço que tinha perdido e fez surgir novos nomes com músicas
que só Deus sabe como é que grudam na nossa cabeça tão fácil. No meio deles,
onde cabe a comparação de um vagão de trem lotado no horário de pico da estação
principal, a MPB/Pop Rural colocou dois nomes para cantarem amor e tocarem
violão a capela. “Garçom troca o DVD que essa moda me faz sofrer”, “tu é trevo
de quatro folhas” e “quando ela bate com a bunda no chão”. É literalmente
assim, mas nem sempre nessa ordem, que o país vive com orgulho seu momento mais
choque cultural desde que Cabral chegou aqui achando que tava nas índias.
Totalidade,
a gente aprende, não existe. É impossível imaginar que daqui a alguns anos todo
mundo vai gostar de todos os ritmos e vamos ser todos felizes dentro do desenho
dos ursinhos carinhosos. Isso não vai acontecer nunca, mas aceitar o diferente,
o novo, não ver problema em misturar e saber que tem espaço para todo mundo, é
um bom sinal dentro do caos. Essa galerinha que ta ousando ser plural no meio de tanta gente singular anda deixando rastros de que tá aqui para derrubar
muros que já não fazem — se é que algum dia fizeram — nenhum sentido.
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