quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Capítulo 18 – A VINGANÇA

Dessa vez estávamos um pouco mais calmos, já que a estreia nos deu um dia de experiência, sem contar o show em praça pública, porém, todo cuidado é pouco. Conforme a chamada, os participantes partiam esperando fazer o melhor e, além do público, os jurados eram as suas maiores preocupações. Nós já havíamos conquistado o público, o que nos deu uma responsabilidade maior na apresentação, pois precisávamos ratificar o que já havíamos feito até então. Agora a nossa maior preocupação era conquistar o corpo de jurados e conseguir passar para a fase final no dia seguinte, no domingo. O ritual seria o mesmo do dia anterior. Eu passaria pela cortina na frente dos demais e subiria a rampa até o palco do cantor, me posicionando à espera da contagem, enquanto os outros, no palco de trás, tomariam seus respectivos lugares.
Quando finalmente fomos anunciados, seguimos o ritual, afinal tínhamos apenas trinta segundos para começar. Olhei para trás afim de conferir se já podíamos dar início, mas, fui surpreendido pelo desespero do contrabaixista, querendo o som do instrumento e ele não saia de jeito nenhum. A caixa estava ligada. O instrumento plugado. E nada. A rapaziada da banda do festival não ajudava em nada. Os trinta segundos estavam indo para o espaço, então me dirigi ao presidente da mesa e fiz as minhas ponderações. Ele gesticulava para que começássemos. Apontava para o relógio e não me entendia, se entendia, não demonstrava interesse. Até que estourado o tempo, em muito e, atendendo as minhas súplicas para que fosse ver de perto o que estava ocorrendo, se levantou e foi ao fundo do palco. Com a chegada do presidente, a rapaziada se movimentou e não demorou muito o som surgiu, mas o estrago já estava feito. Se lembra daquela história do contrabaixista não ter emprestado o instrumento para a banda, pois foi a maneira que eles arrumaram de dar o troco. O homem voltou para o seu lugar, mas, não sabíamos se estávamos disputando ou desclassificado. O guitarrista foi começar a introdução e, aí vimos que não era só o som do contrabaixo, a guitarra estava desafinada. Quando ele começou, os meus ouvidos acusaram na lata. O desespero dele tentando afinar na marra e ao mesmo tempo tocando a introdução, para nós que já conhecíamos a melodia, era um sofrimento. Vendo que daquele jeito não havia tom para começar a cantar, o contrabaixista entrou, pelo menos o instrumento dele estava afinado, para manter o tom. Abreviamos um pouco e, eu comecei a cantar. Com o decorrer da música, a guitarra foi se ajustando, quero dizer afinando e, assim conseguimos fazer a apresentação até o fim. Saímos do palco arrasados. Na verdade, “putos”. Os caras conseguiram tirar a nossa última chance. As meninas, vieram consolar-nos, mas estava difícil de assimilar o golpe. Cada um sentia que o festival naquele momento havia acabado para nós. Tentamos descobrir se o júri havia considerado a apresentação ou se por ordem do presidente fora decretada a desclassificação, mas a interrogação persistia, nem as meninas tiveram sucesso, tudo ficaria para a hora em que o apresentador viesse com a lista dos classificados para domingo; então, saímos da sala e fomos beber uma cerveja para desanuviar, menos o batera, ele estava ficando com três garotas ao mesmo tempo, posicionadas estrategicamente em ambientes diferentes, então tratou de circular para aproveitar um pouco de cada. Mesmo com a cabeça fervendo de raiva, tudo ficou diferente, quando fomos abordados por dois sujeitos que se diziam olheiros de um produtor da gravadora CBS do Rio de janeiro e, queriam saber se nós tínhamos alguma fita demo, que pudesse passar a eles para ser levada ao produtor. Não tínhamos, mas como éramos do Rio e eu, como conhecia alguns produtores da tal gravadora, perguntei quem era e, ao saber o nome, me veio a memória o semblante, daí, pedimos os nomes dos dois, anotamos e, agradecendo deixamos bem claro que nós mesmo iríamos procura-lo assim que voltássemos para casa. Esse pequeno acontecimento, afastou momentaneamente a tristeza resultada dos eventos recentes.

O segundo dia do festival chegou ao seu final e a lista com os nomes dos que voltariam a se apresentar na final no domingo já estava na mão do apresentador. Apesar de ser uma tênue esperança, de ser mínimas as nossas chances, nos mantivemos firmes, acreditando até o final, mas a realidade foi dura. Quando o último nome foi pronunciado e não era o nosso, o festival acabava ali para nós. Mas, a vida é uma caixinha de surpresas! Uma das meninas veio até nós, pedindo que fossemos até a presença do organizador e do prefeito para um comunicado. Nos apressamos e logo ... pode deixar vocês vão saber.

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