sábado, 12 de agosto de 2017

Capítulo 59 – LITERATURA, POESIA E MÚSICA
Esse tema sempre me fascinou, ao ponto de em algumas conversas chegar a perguntar aos meus amigos de que forma eles encaravam a definição de que a poesia e letra de música seriam duas coisas diferentes ou em alguns casos cabia definir como poesia musicada? Aqui, eu tomei a liberdade de buscar, não todo, um trabalho de Pós-Graduação em Letras, onde o objetivo é estudar a interface Literatura e Música. Através dela, busca-se compreender a forma como a crítica literária incorpora os estudos sobre a MPB, assim como a contribuição desse espaço de trânsito entre sistemas semióticos distintos para a consolidação dos Estudos Culturais.  
Ora, claro que existem inúmeros casos, em que não se deve nem considerar como poesia o que está sendo cantado, apenas palavras rasas colocadas dentro de um ritmo, mas a quantidade de obra musical existente no nosso país é tão vasta, que me atrevo a dizer que temos um grande território de Literatura e Poesia misturados aos vários ritmos e sendo cantadas há muito tempo.   

A partir da década de 80, os estudos que têm como tema a música, principalmente a MPB, se expandem, notando-se um significativo aumento desse interesse nos últimos 5 anos, sendo que, em termos absolutos, as universidades de maior incidência de tais trabalhos encontram-se no Rio de Janeiro (UFRJ, PUC-RJ e UFF). Outro tópico a ser observado são os temas mais recorrentes que privilegiam a crítica cultural, confirmando assim a expansão dos estudos na área. É significativo o volume de trabalhos que buscam historicizar a Música Popular Brasileira, a partir da análise dos principais ritmos ou movimentos musicais. Dentre tais estudos, destacam-se aqueles voltados ao samba (11 dissertações) e o Tropicalismo (13 trabalhos, se incluídos os dedicados especificamente a alguns dos principais integrantes do movimento, como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Torquato Neto). Muitos desses trabalhos adotam um recorte temático, seja ao tratar das particularidades da cultura de massas, ou ao priorizar tanto questões de gênero, como aqueles relativos à identidade étnica e nacional. Há também várias análises com o objetivo de ler a forma como a literatura insere a música em seus enredos ou como a utiliza na própria estruturação da obra. Autores como Machado de Assis, Joaquim Manuel de Macedo, Érico Veríssimo, Caio Fernando Abreu e James Joyce, além do já citado Mário de Andrade marcam presença nesse tipo de abordagem. Uma outra vertente que se pode mencionar, ainda que sejam poucos os estudos realizados (4 apenas), é aquela que busca analisar a importância da música como forma de estimular os alunos ao prazer da leitura literária. No que se refere à perspectiva adotada na análise da música no âmbito dos estudos literários deve-se ressaltar, contudo, um problema que parece grave: a recorrente ausência de uma reflexão que leve em consideração as particularidades da linguagem musical. Raros são os trabalhos que se dedicam a discutir a relação entre letra e melodia (considerando-se as sinopses, apenas 5 trabalhos podem ser citados aqui). Essa questão já vem sendo apontada por estudos sobre a história dos diversos gêneros da MPB e sobre a inter-relação entre o canto e a palavra que têm oferecido suporte para nossa análise da configuração da área acadêmica de Letras. De acordo com o livro organizado por Claúdia Neiva de Matos, Elizabeth Travassos e Fernanda Teixeira de Medeiros, ao encontro da palavra cantada (2001), nas últimas décadas vem acontecendo um aumento do interesse pela poética da canção, retomando-se assim uma aliança ancestral entre poesia e música. Mas, como é bem analisado neste livro, esse estudo esbarra em uma dificuldade por parte do especialista em literatura, que é a carência de instrumental e base teórica musical. Ainda que a possível confluência dos estudos lingüísticos, literários e musicológicos, resultando em uma compreensão muito mais sofisticada dos efeitos entoativos, rítmicos e fônicos da linguagem poética e do verso em particular, já venha sendo apontada e praticada desde os estudos dos formalistas eslavos no início do século XX, permanece o problema de se construir uma leitura que leve em conta todos esses aspectos. Outro ponto levantado neste livro, composto de textos que buscam contemplar uma vasta gama de referências teóricas para dar conta dos muitos aspectos da interação entre discurso verbal, a música e a voz, foi a configuração e expansão dos estudos sobre cultura, que ajudou também a aproximar o pensamento literário das investigações sobre indústria cultural e canção mediatizada de massas. A abordagem multidisciplinar, implícita na parceria, afigura-se como condição para apreender a interação entre as dimensões verbo-voco-musical da palavra cantada nos circuitos culturais, onde se articulam seus processos de produção e recepção. No texto “Pipoca moderna: uma lição - estudando canções e devolvendo a voz ao poema” incluído no livro acima citado, Fernanda Medeiros afirma que texto e música podem dialogar de forma quase didática, um elucidando o outro, estabelecendo uma relação que poderia se classificar como de complementaridade explicativa. A palavra cantada é fato de comunicação estética dotada de propriedades especificas, relacionadas à interação entre poesia verbal, música e performance vocal. Como afirma a autora, “trata-se de objeto híbrido, cujo estudo, portanto, não se deve limitar ao foco no texto, subtraindo à canção elementos significadores encontrados na melodia e na interpretação. “ (MEDEIROS, 2001, p.128) E por isso, a canção pertence, necessariamente, a um terreno interdisciplinar envolvendo letras e música – terreno não muito diferente do da poesia. A importância do contato entre o poema e o estudo da canção justifica-se pelo fato inelutável assinalado por Fernanda Medeiros de que somente o corpo, metonimizado aqui pela voz, tem a capacidade de apreender o ritmo, sendo o ritmo por sua vez um dos elementos que podem caracterizar um poema. “Ritmo no falado e no escrito. Ritmo, espinha dorsal do corpo e da mente. Ritmo na espiral da fala e do poema”, bem representado e moldado pela melodia de Arnaldo Antunes na canção com a qual comecei este ensaio. Esta questão da abordagem da poesia é discutida por diversos autores como Octavio Paz, B. Tomachevski, Umberto Eco, T. S. Eliot que, ao tentar distingui-la da prosa, referem-se à presença do ritmo como seu principal constituinte. E acrescentando-se a esta noção rítmica, vista tanto na poesia, quanto na música, Paul Zumthor, francês que se dedicou ao estudo da poesia vocal e suas formas mediatizadas na contemporaneidade, traz a noção de “performance” embutida na voz que se faz presença tanto na arte literária quanto na musical. Ele lembra que o atrelamento da literatura à escrita é muito recente na nossa história, datando aproximadamente do século XIII. Até então se tinha a poesia, uma arte não de escrita, mas da linguagem cujo suporte de realização era a voz e cuja história se confunde com a própria história da humanidade. Esta relação literário–musical se faz de forma diferencial no Brasil, que dispõe de um grande acervo poético e musical fascinando a todos que com ele tenha contato. Isto oferece um caráter mutante a nossa canção, que, como diz Luiz Tatit, é organismo que ludibria os observadores por jamais se apresentar com o mesmo aspecto. Por isso, a canção brasileira converteu-se em território livre, muito frequentado por artistas híbridos que não se consideravam nem músicos, nem poetas, nem cantores, mas um pouco de tudo isso e mais alguma coisa. (TATIT, 2004, p.12)

É por esse e por outros motivos que a canção brasileira se solidifica e se torna objeto de estudo, o que é bem demonstrado no livro O século da canção, de Tatit. Verifica-se assim, o entrecruzamento das áreas pesquisadas. São cantores que gravam poesias, que valorizam as formas, as melodias. São poetas que buscam inspiração na música para compor os seus versos. E é este movimento que torna frutífera esta relação. Marcando as devidas diferenciações, como o caráter especialmente escrito da poesia e até menos difundido que a música, possuidora de maior alcance e, por sua vez, cantada dentro de quadros melódicos, acontece o encontro produtivo em diversos outros pontos que podem ser objetos futuros de análise. Inté!

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