Capítulo
59 – LITERATURA, POESIA E MÚSICA
Esse tema
sempre me fascinou, ao ponto de em algumas conversas chegar a perguntar aos
meus amigos de que forma eles encaravam a definição de que a poesia e letra de
música seriam duas coisas diferentes ou em alguns casos cabia definir como
poesia musicada? Aqui, eu tomei a liberdade de buscar, não todo, um trabalho de
Pós-Graduação em Letras, onde o objetivo é estudar a interface Literatura e
Música. Através dela,
busca-se compreender a forma como a crítica literária incorpora os estudos
sobre a MPB, assim como a contribuição desse espaço de trânsito entre sistemas
semióticos distintos para a consolidação dos Estudos Culturais.
Ora,
claro que existem inúmeros casos, em que não se deve nem considerar como poesia
o que está sendo cantado, apenas palavras rasas colocadas dentro de um ritmo,
mas a quantidade de obra musical existente no nosso país é tão vasta, que me atrevo
a dizer que temos um grande território de Literatura e Poesia misturados aos
vários ritmos e sendo cantadas há muito tempo.
A partir da década de 80, os estudos que
têm como tema a música, principalmente a MPB, se expandem, notando-se um
significativo aumento desse interesse nos últimos 5 anos, sendo que, em termos
absolutos, as universidades de maior incidência de tais trabalhos encontram-se
no Rio de Janeiro (UFRJ, PUC-RJ e UFF). Outro tópico a ser observado são os
temas mais recorrentes que privilegiam a crítica cultural, confirmando assim a
expansão dos estudos na área. É significativo o volume de trabalhos que buscam
historicizar a Música Popular Brasileira, a partir da análise dos principais
ritmos ou movimentos musicais. Dentre tais estudos, destacam-se aqueles
voltados ao samba (11 dissertações) e o Tropicalismo (13 trabalhos, se
incluídos os dedicados especificamente a alguns dos principais integrantes do
movimento, como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Torquato Neto). Muitos desses
trabalhos adotam um recorte temático, seja ao tratar das particularidades da
cultura de massas, ou ao priorizar tanto questões de gênero, como aqueles
relativos à identidade étnica e nacional. Há também várias análises com o
objetivo de ler a forma como a literatura insere a música em seus enredos ou
como a utiliza na própria estruturação da obra. Autores como Machado de Assis,
Joaquim Manuel de Macedo, Érico Veríssimo, Caio Fernando Abreu e James Joyce,
além do já citado Mário de Andrade marcam presença nesse tipo de abordagem. Uma
outra vertente que se pode mencionar, ainda que sejam poucos os estudos
realizados (4 apenas), é aquela que busca analisar a importância da música como
forma de estimular os alunos ao prazer da leitura literária. No que se refere à
perspectiva adotada na análise da música no âmbito dos estudos literários
deve-se ressaltar, contudo, um problema que parece grave: a recorrente ausência
de uma reflexão que leve em consideração as particularidades da linguagem
musical. Raros são os trabalhos que se dedicam a discutir a relação entre letra
e melodia (considerando-se as sinopses, apenas 5 trabalhos podem ser citados
aqui). Essa questão já vem sendo apontada por estudos sobre a história dos
diversos gêneros da MPB e sobre a inter-relação entre o canto e a palavra que
têm oferecido suporte para nossa análise da configuração da área acadêmica de
Letras. De acordo com o livro organizado por Claúdia Neiva de Matos, Elizabeth
Travassos e Fernanda Teixeira de Medeiros, ao encontro da palavra cantada (2001),
nas últimas décadas vem acontecendo um aumento do interesse pela poética da
canção, retomando-se assim uma aliança ancestral entre poesia e música. Mas,
como é bem analisado neste livro, esse estudo esbarra em uma dificuldade por
parte do especialista em literatura, que é a carência de instrumental e base
teórica musical. Ainda que a possível confluência dos estudos lingüísticos,
literários e musicológicos, resultando em uma compreensão muito mais
sofisticada dos efeitos entoativos, rítmicos e fônicos da linguagem poética e
do verso em particular, já venha sendo apontada e praticada desde os estudos
dos formalistas eslavos no início do século XX, permanece o problema de se
construir uma leitura que leve em conta todos esses aspectos. Outro ponto
levantado neste livro, composto de textos que buscam contemplar uma vasta gama
de referências teóricas para dar conta dos muitos aspectos da interação entre
discurso verbal, a música e a voz, foi a configuração e expansão dos estudos
sobre cultura, que ajudou também a aproximar o pensamento literário das
investigações sobre indústria cultural e canção mediatizada de massas. A
abordagem multidisciplinar, implícita na parceria, afigura-se como condição
para apreender a interação entre as dimensões verbo-voco-musical da palavra
cantada nos circuitos culturais, onde se articulam seus processos de produção e
recepção. No texto “Pipoca moderna: uma lição - estudando canções e devolvendo
a voz ao poema” incluído no livro acima citado, Fernanda Medeiros afirma que
texto e música podem dialogar de forma quase didática, um elucidando o outro,
estabelecendo uma relação que poderia se classificar como de complementaridade
explicativa. A palavra cantada é fato de comunicação estética dotada de
propriedades especificas, relacionadas à interação entre poesia verbal, música
e performance vocal. Como afirma a autora, “trata-se de objeto híbrido, cujo
estudo, portanto, não se deve limitar ao foco no texto, subtraindo à canção
elementos significadores encontrados na melodia e na interpretação. “
(MEDEIROS, 2001, p.128) E por isso, a canção pertence, necessariamente, a um
terreno interdisciplinar envolvendo letras e música – terreno não muito
diferente do da poesia. A importância do contato entre o poema e o estudo da
canção justifica-se pelo fato inelutável assinalado por Fernanda Medeiros de
que somente o corpo, metonimizado aqui pela voz, tem a capacidade de apreender
o ritmo, sendo o ritmo por sua vez um dos elementos que podem caracterizar um
poema. “Ritmo no falado e no escrito. Ritmo, espinha dorsal do corpo e da
mente. Ritmo na espiral da fala e do poema”, bem representado e moldado pela
melodia de Arnaldo Antunes na canção com a qual comecei este ensaio. Esta
questão da abordagem da poesia é discutida por diversos autores como Octavio
Paz, B. Tomachevski, Umberto Eco, T. S. Eliot que, ao tentar distingui-la da
prosa, referem-se à presença do ritmo como seu principal constituinte. E
acrescentando-se a esta noção rítmica, vista tanto na poesia, quanto na música,
Paul Zumthor, francês que se dedicou ao estudo da poesia vocal e suas formas
mediatizadas na contemporaneidade, traz a noção de “performance” embutida na
voz que se faz presença tanto na arte literária quanto na musical. Ele lembra
que o atrelamento da literatura à escrita é muito recente na nossa história,
datando aproximadamente do século XIII. Até então se tinha a poesia, uma arte
não de escrita, mas da linguagem cujo suporte de realização era a voz e cuja
história se confunde com a própria história da humanidade. Esta relação
literário–musical se faz de forma diferencial no Brasil, que dispõe de um
grande acervo poético e musical fascinando a todos que com ele tenha contato.
Isto oferece um caráter mutante a nossa canção, que, como diz Luiz Tatit, é
organismo que ludibria os observadores por jamais se apresentar com o mesmo
aspecto. Por isso, a canção brasileira converteu-se em território livre, muito
frequentado por artistas híbridos que não se consideravam nem músicos, nem
poetas, nem cantores, mas um pouco de tudo isso e mais alguma coisa. (TATIT,
2004, p.12)
É por esse e por outros motivos que a
canção brasileira se solidifica e se torna objeto de estudo, o que é bem
demonstrado no livro O século da canção, de Tatit. Verifica-se assim, o
entrecruzamento das áreas pesquisadas. São cantores que gravam poesias, que
valorizam as formas, as melodias. São poetas que buscam inspiração na música
para compor os seus versos. E é este movimento que torna frutífera esta
relação. Marcando as devidas diferenciações, como o caráter especialmente
escrito da poesia e até menos difundido que a música, possuidora de maior
alcance e, por sua vez, cantada dentro de quadros melódicos, acontece o
encontro produtivo em diversos outros pontos que podem ser objetos futuros de
análise. Inté!
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