terça-feira, 10 de outubro de 2017

Capítulo 64 – JURAVA QUE ERA FÁCIL SER JURADO
 Na década de 60, 70, penso eu até um pouco mais, todos sabem que existiam grandes festivais de música transmitidos por canais de televisão e, que nessa onda ou ouso chamar de tsunami, vieram trazidos pela arca de Noé musical, vários e bons artistas, entre compositores, cantores, instrumentistas. Desse grande número de revelações, muitos foram alçados ao patamar máximo, deixando sua marca no rol dos grandes nomes da nossa música popular brasileira. Eu, comecei a participar de festivais no ano de 1976 e de cara fui para um fora da minha cidade, o que já envolveu planejamento financeiro. Foi dureza para eu e meus companheiros de banda, a grana, sem apoio de papai ou mamãe, era curtíssima, mas, nos viramos. A partir daí veio uma sequência de apresentações em outras competições, nada tão grande quanto, em se tratando de exposição, aos transmitidos pela tv, mas alguns tinham organização tanto quanto e boas premiações. Enquanto banda nunca ficamos entre os três primeiros, apesar de sentir o calor do público em reconhecer que tínhamos nos apresentados bem e que a música havia sido bem recebida, mas o resultado como era uma equação resolvida por um júri, não tínhamos certeza de nada, apenas desconfiávamos em algumas, que o resultado final parecia manipulado, mas sem provas, pairava no ar um monte de interrogações. Depois que desfizemos a banda, segui carreira solo e continuei a participar de festivais. Sozinho consegui mais alegrias do que dissabores. Foram pouquíssimas as vezes em que senti manipulação, mesmo as que eu não me coloquei entre os primeiros, porém, as vitórias foram deliciosas. Foram três prêmios de melhor intérprete, sendo dois deles juntamente com a escolha de melhor música também.
Certa vez, aconteceria um festival de música entre bandas formadas por garotos frequentadores das igrejas católicas, normalmente oriundos da pastoral musical, que tocavam e cantavam em missas normais e solenes e essas igrejas faziam parte de uma determinada região, não era uma competição nacional, apenas de alguns bairros do Rio de Janeiro. Eu, frequentador das missas de domingo e das atividades culturais e festivas da Paróquia no meu bairro, tendo já feito algumas apresentações, portanto tinham conhecimento da minha afinidade musical, fui procurado e convidado para participar do corpo de jurados e de quebra ainda levei meu compadre com formação em direção de artes. Quando fui convidado não me preocupei e para dizer a verdade nem pensei direito na responsabilidade que eu iria assumir, apenas aceitei. Mais próximo do evento, foi que me dei conta de que eu iria fazer o que até então faziam comigo, julgar. Meus amigos, pode parecer besteira da minha parte, mas me senti desconfortável. Quem sou eu para julgar o trabalho de uma outra pessoa, posso até emitir uma opinião quando perguntado, mas julgar, pensei ser um pouco demais. No dia do festival, confidenciei ao meu compadre essa minha visão, ao qual fui agraciado com a alegação de que estava mais do que na hora, de eu saber o que era ouvir músicas dos outros e ter que dar uma nota, classificando assim entre ruim, média e boa. Antes de começar as apresentações, nós integrantes do corpo de jurado, fomos convidados para uma pequena e rápida reunião. Ainda não tinham escolhido o presidente, aquele que ficaria responsável por receber os votos e fazer a contagem. Houve consenso de que deveria ser no sorteio e assim foi. Meu compadre foi o sorteado, gostei. Ele como presidente tinha a prerrogativa de escolher o seu secretário, vocês não precisam nem se esforçarem para adivinhar, isso mesmo, eu. Um último comunicado: inicialmente foram convidados cinco Paróquias e cada uma com três participantes escolhidos pelos próprios, contudo, uma delas uma semana antes desculpou-se enviando um recado de que não poderiam participar, então, para não baixar o número calculado inicialmente, foram abertas mais quatro vagas, uma para cada Paróquia, mas acabou que só duas poderiam preencher esse vazio, o que foi feito, só que cada uma mandou mais dois concorrentes, assim, ficamos com dezesseis participantes, sendo duas Paróquias com cinco e as outras duas com três, fazer o quê? Terminada a reunião, nos dirigimos para os nossos assentos de cara para o palco. Apesar de ser um festival de música entre Paroquianos representando sua Paróquia, não havia obrigatoriedade que o tema fosse religioso, pelo contrário, ele era livre, desde de que não ferisse o bom senso.
O áudio foi ligado, os participantes começaram a ser chamados e a aí começou o que podemos chamar de momento de grande martírio. Você tem uma tabela de notas para aplicar de acordo com o somatório do conjunto da obra ou basear-se apenas na letra e música, mesmo que haja desafinações, o que certamente acontecerá, pois são amadores e jovens. Se as primeiras apresentações forem só boas, você pode evitar uma nota alta, mas se elas estiverem acima, aí fica difícil. Para nossa sorte ou azar o nível chegava apenas ao razoável nesse início. Eu e meu compadre éramos a imparcialidade total, porém no decorrer do festival, eu vi que ao meu lado esquerdo haviam dois jurados que estavam torcendo descaradamente para uma paróquia, chamei a atenção do meu companheiro, que ao sacar o lance lamentou profundamente. Procuramos entre os demais se havia tal comportamento, se havia, estavam bem contidos, o que já não acontecia com os dois ao meu lado. Decorrido o festival, duas bandas se destacaram e, portanto, tínhamos certeza que estavam disputando o prêmio. No nosso entendimento uma delas merecia uma pontuação melhor, mas nada que fosse tão distante, apenas o suficiente para ganhar, porém os dois do meu lado torciam por uma delas. Fomos para apuração e para a nossa surpresa, no somatório geral a que nós achamos melhor perdia. Como estávamos só eu e meu compadre fazendo a apuração, procuramos em cada tabela ver se havia distorções, qual não foi a nossa surpresa que justamente na tabela daqueles dois a diferença de nota entre uma e a outra determinava o resultado. Vocês vão dizer assim: Isso é fácil de resolver, basta adulterar as notas dos dois e pronto, já que estavam sozinhos, ninguém iria saber. Não vou mentir, até passou pelas nossas cabeças, mas resolvemos não fazermos justiça com as próprias mãos, entregamos na mão de Deus, afinal era um festival entre paróquias, imagina aqueles que não são, o que rola.

Dessa história eu tirei uma experiência muito desagradável e além do que as minhas suspeitas em boa parte dos festivais em que participei afloraram. Eu não fico só nos festivais em que estive, vou mais longe, aos festivais que assisti e principalmente os transmitidos pela tv. Neles vi cada absurdo, que eu chegava a me achar um completo idiota, analfabeto musical. Nada disso, apenas um pobre inocente e ingênuo. Inté!  

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