segunda-feira, 12 de março de 2018


Capítulo 77 – A MPB IDIOMÁTICA E ONOMATOPEIA
Refletindo sobre o que falaram sobre a indústria cultural no Brasil, não acho que a nossa canção morreu, que a nossa MPB morreu. Eu tenho a sensação apenas de que ela vive em um espaço menor. É aquele lance da segmentação, que aconteceu com todo tipo de produto e serviço nesse mundo. Tudo é segmentado: desde o carro até o xampu, tudo que consumimos é feito "pra gente". E com a música no Brasil e no mundo foi assim também.
Outra coisa grave é o mercado musical, o trabalho da mídia, o que vende. Essa descida de ladeira cultural que o Brasil viveu nos últimos 30 anos é que foi desastrosa. A impressão que eu tenho é que, até o fim dos anos 80, ainda tínhamos algum resíduo cultural vindo das décadas anteriores. Mas quando entra os 90, com o sertanejo e por aí em diante, não houve mais santo que nos salvasse! E ficamos assim, nivelados por baixo. E a boa música ficou assim como ilhotas cercadas por um mar de baixaria e estupidez alimentadas pela mídia.
Eu me encontro bem de mal com a música nacional. Não tenho saco, não tenho paciência, tudo me causa náusea, sono, revolta ou os três juntos, o que é quase um daqueles episódios de Pokemon que despertavam epilepsia.
Não aguento ouvir falar de mais uma música sertaneja cujo refrão é alguma expressão idiomática levemente modificada, ou alguma onomatopeia. Não aguento mais saber que eles gostam tanto de cerveja, mulher e alguma outra coisa aleatória, estou cagando para o fato de que eles levaram um chifre e estão tristes, mas vão superar e dar a volta por cima. Não quero mais mistura de guitarra com sanfona.
Não consigo acreditar que ainda existam variações de temas para cantar como Salvador no Carnaval é bom. Que existam formas novas de falar “tererê-tê-TÊ-rê-RÊ!” Em axés, nem maneiras físicas de “sair do chão” e “quero ver as mãos” que a lei da gravidade e da anatomia permitam.
Por outro lado, grande parte da chamada Nova MPB me dá sono. Primeiro, porque tudo que eu falei até o momento deveria ser MPB, já que é popular, e bem, infelizmente é brasileiro, mas como não faz parte desse clube de gente chique e com cara de quem acordou e não penteou o cabelo, fica de fora. Mas me falem a verdade, as pessoas precisam ter nascido com uma paciência de Jó para aguentar a quantidade absurda de “iáiás e iôiôs” e “shimbalauês” dessa galera. É muita fofinhice, muito complexo de emoticon, muita bundamolice. A MPB séria perdeu os dentes, e vive cantando o quanto sopa de água com amor é lindo.
O lado contrário disso é o funk, que, segundo algumas correntes ideológicas, eu deveria respeitar, porque é música do povo, pelo povo e para o povo, mas catzo, como eu acho ruim, primário, tosco. Pra mim o funk (a corrente carioca do funk, que fique claro) é uma piada que alguém levou a sério. As primeiras vezes que ouvi era quase uma atividade humorística. Alguém tinha um CD de proibidão para ouvir os caras gritando barbaridades como quem tem uma fita do Costinha ou do Manhoso no carro. Era zueira. Mas parece que alguém levou a sério, porque agora tem gente que ouve funk mesmo. Assim, direto, playlist com 200 músicas seguidas no celular, para ouvir no talo enquanto trabalha. Ou no ônibus, no alto falante do carro, em qualquer lugar, desde que todo mundo ouça junto, queira ou não.
Os temas são de uma diversidade de impressionar qualquer boteco. A julgar por essa produção cultural, a favela (desculpem se parece reducionista, mas todos os funks que eu ouço falam somente da favela) só quer saber de transar com as novinha, de usar droga e detonar a polícia. Nas vertentes femininas, a situação se inverte, mas não o teor. Há quem diga que é música do povo. Eu acho bem triste se for. Ver rico ouvindo essa música como se isso, por si só, fosse um movimento de contracultura é apenas patético. Tenho saudade da época que qualquer pessoa precisava se curvar à genialidade de um Cartola. Sinto que esse espasmo de boçalidade possa estar eclipsando o aparecimento de novos talentos genuínos, indispensáveis.
Hoje, quando vejo as musas da música nacional falarem mais de 3 frases, elas estão sempre sendo juradas de algum programa que premia quem canta mais tempo em contralto qualquer coisa com a entonação de uma Whitney Houston da Bahia, ou estão dizendo qual demaquilante ou creme antirrugas elas usam para deixar a pele como seda após os shows. Raro quando alguma declaração me faz parar por mais de cinco minutos para ouvir.
E os “musos” da música nacional? Quem são? Se alguém souber, me fala por favor. Mas tem que ser alguém que não vá comentar sobre plantação de tomate ou sobre o pôr do sol em Cuiabá. Me diz alguém como o Caetano, por favor. Alguém que tenha mais o que dizer.
Talvez porque eles só se pronunciem através dos assessores de Social Mediadeles. E só se vistam através dos Personal Stylists. Em entrevistas com pautas pré-decididas, com fotos grandes, em praias desertas. E mesmo assim, alguns desses gênios ainda conseguem dizer que “se pegassem tal repórter gostosinha, a quebraria no meio”. Que decepcionante isso vindo de um país que tinha um Vinícius de Moraes, que conquistava suas namoradas com poesias. E olha só que coisa demodê (ainda se fala demodê?), casava com elas.
É triste perceber que até o momento não falei do rock. É que por decisão editorial, prefiro falar sobre quem ainda está entre nós. Os defuntos, esses é que não movem moinhos mesmo. De uma forma triste, o rock parece uma planta mais rara. Não consegue viver num cenário de desolação tão absoluta.
Mas pra não dizer que não falei das flores, é justamente dele que sinto mais falta. Na minha juventude, era do Rock que vinham as vozes que diziam o que eu não tinha maturidade pra dizer. Eram os Renatos Russos, Lobões, Leos Jaimes e Cazuzas que traduziam nossas angústias, fossem elas políticas, sexuais ou amorosas. Eram eles que sentiam o que eu não sabia em dar nome. Eles eram nossa voz. Hoje meu filho bem que procura, mas acaba encontrando seus temas nas mesmas vozes que eu encontrei há tanto tempo. Inté!


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