Capítulo 25 -
QUEM DIRIA, CARLOS GARDEL EM DUQUE DE
CAXIAS
Bem,
recordando um pouco: Depois de ter a ideia, batalhar e conseguir juntar os
apetrechos que dariam forma a personagem, finalmente chegara o dia e eu agora me
encontrava no apertado camarim, disputando espaço para ficar pronto antes da
chamada. O festival já havia começado e, como a entrada para o palco era um
pequeno corredor colado ao camarim, a movimentação era intensa, mas havia
organização, só ficavam de três em três participantes anteriores ao do palco. O
que tornava o espaço apertado, eram as bandas, que nesse caso tinham mais de
uma pessoa para entrar. Eu me preparava, enquanto meus companheiros esperavam e
claro me ajudavam. Tiro a roupa do corpo, coloco a roupa da apresentação,
ajeito a gravata – detalhe que eu não sabia, mas aprendi, dar o nó na gravata –
umedeço o cabelo e aplico o fixador, pego o pente e faço o penteado idêntico ao
do grande cantor, me olho no espelho e vejo Gardel, olho para o chão e me vejo
através do tênis, mas agora não sou mais eu e sim “CARLOS GARDEL!”. Nesse
momento me veio à cabeça a tal estratégia. Chamei o guitarrista e avisei-o de
que não entraria junto com a banda, ele por alguns segundos se espantou, mas
logo tranquilizei-o explicando o motivo: Naquele instante eu vislumbrei a
possibilidade de algo maior; eles entrariam após a chamada do apresentador e
ele pediria ao mesmo que levasse a entrada do palco o microfone até as minhas
mãos; a banda faria a introdução e eu começaria a cantar ainda atrás da cortina
em direção ao palco, isso certamente causaria um choque, visto que eu estaria
todo transformado. Ele captou a ideia de imediato, comunicou aos outros, que de
cara aprovaram e assim ficou combinado. Eu estava muito nervoso, mas como já
falei, não com medo, apenas ansioso para pisar no palco e desempenhar o que
havia desenhado na cabeça. Não seria um improviso, pois já havia me
apresentado, mas caracterizado seria o diferencial. Havia estudado um pouco,
não muito, o gestual de um cantor de tango, principalmente Gardel, contudo
teria que improvisar, pois nada sabia sobre a milonga, teria que ser na
expressão corporal. A milonga, culturalmente não era nosso, então, sem muita
informação o melhor era misturar com o nosso gingado do malandro de samba.
A voz do
apresentador anunciava que era a nossa vez. Assim que acabou, a banda entrou e
guitarrista foi ter com ele para que levasse o microfone até onde eu estava, na
entrada para o palco atrás da cortina nos bastidores. Enquanto a banda se
arrumava, ouvia-se um murmúrio vindo da plateia, que eu já supunha ser a grande
interrogação que pairava sobre suas cabeças, latejando intermitentemente a
respeito da minha ausência. Eu havia desligado o microfone, para não escapulir
nenhum ruído e só ligaria quando tudo estivesse pronto. Instrumentos plugados,
som na medida, todos prontos, começa a contagem. A introdução veio em seguida
ao término da contagem, aproveitei para ligar o microfone e quando chegou no
acorde que indicava a minha entrada, comecei a cantar ainda sem aparecer e fui
lentamente me dirigindo ao centro do palco. Quando a minha voz soou, já
expulsei a interrogação, quando a minha presença descortinou, a plateia não se
conteve e a reação viera a confirmar o que eu havia desenhado na minha cabeça.
Eram assobios, aplausos; mais da metade de pé; os jurados sorriam e, eu
saboreando todo aquele momento. O artista as vezes, em grandes momentos de
interpretação, acaba colocando a música em segundo plano, mas não foi o meu
caso, pois todos estavam esperando ansiosamente pelo refrão. Claro que eu tenho
méritos, a música por si só era pequena. Eu desenvolvi toda uma apresentação a
partir do apelo de um refrão, então, o que poderia passar batido se tornou um
hit, mas, não fosse a minha voz, desenvoltura, inventividade, tudo teria sido
apenas normal. Do primeiro refrão cantado, até o último, o público participou
entusiasticamente. Foram minutos de muita felicidade, longe de qualquer
vaidade.
Terminada a
apresentação, sob aplausos mil, me retirei com a sensação do objetivo mais que
alcançado. Depois de me desconstruir; de me acalmar; de normalizar o batimento
cardíaco; de descer das nuvens, é que reuni condições para comemorar com os
meus amigos a nossa performance. Os músicos, exceto o guitarrista, tinham
compromisso para tocar e, já estavam com o tempo contado, por isso, em seguida,
se despediram de nós desejando o melhor e lamentavam não poder ficar para ver o
resultado. Os caras contribuíram por amizade e amor a música, sem ganhar nada,
sem pedir nada em troca, nós procuramos demonstrar quão importante fora essa
doação; palavras, abraços, palavras, sorrisos, palavras, tudo parecia pouco,
para nós, para eles, estava tudo certo. Na simplicidade está a beleza da vida.
Complicar é uma criação humana. Eu não sou um filósofo, historiador, pensador,
longe disso, mas penso, portanto, existo e por existir e pensar, é que as vezes
me pego refletindo a natureza humana. Nascemos completamente despidos, não só
de roupas, mas principalmente de conceitos. Nunca seremos perfeitos, mas a
perfeição nos habita. A máquina que faz o ser humano funcionar é perfeita. Divaguei.
Resumindo: o ser humano entre tantas virtudes, em contrapartida aos pecados,
tem essa disponibilidade, esse desprendimento, esse sentimento, esse instinto,
além de se auto preservar, de auxiliar, de ajudar, de contribuir para o próximo,
então quando acontece nós agradecemos muito, por não ser, como deveria ser, uma
ação tão normal quanto respirar. Ainda bem que tínhamos amigos na plateia, não
deu para ficar com a sensação de abandono, nos juntamos rapidamente ao grupo e
fomos assistir o que restava do festival e, esperarmos o veredicto. Até
chegarmos aonde estavam os nossos amigos, muitas pessoas me pararam para me
cumprimentar, quase todos cantavam um pouco do refrão e, parabenizavam entusiasmados,
mostrando admiração. A sensação era boa, apesar de tudo conspirar a favor, eu
não queria colocar a carroça a frente dos burros, então, me desliguei desse
pensamento e fui apreciar os meus concorrentes. O nível era bom e nós
comentávamos, a cada música, que ganhar o festival seria muito difícil. No
intervalo entre uma música e outra, todos tinham a mesma sensação, era
praticamente unânime a questão, o que todos se agarravam e torciam era pelo
outro prêmio, havia uma possibilidade bem forte, então não nos restava muito a
fazer, se não esperar. É justamente isso que vocês vão fazer: esperar até o
próximo capítulo para saber o desdobramento dessa história, inté!
Sacanagem... deixar os leitores na curiosidade...
ResponderExcluirAssim fica mais emocionante, além de garantir audiência para o próximo capítulo.
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