quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Capítulo 25 -  QUEM DIRIA, CARLOS GARDEL EM DUQUE DE CAXIAS

Bem, recordando um pouco: Depois de ter a ideia, batalhar e conseguir juntar os apetrechos que dariam forma a personagem, finalmente chegara o dia e eu agora me encontrava no apertado camarim, disputando espaço para ficar pronto antes da chamada. O festival já havia começado e, como a entrada para o palco era um pequeno corredor colado ao camarim, a movimentação era intensa, mas havia organização, só ficavam de três em três participantes anteriores ao do palco. O que tornava o espaço apertado, eram as bandas, que nesse caso tinham mais de uma pessoa para entrar. Eu me preparava, enquanto meus companheiros esperavam e claro me ajudavam. Tiro a roupa do corpo, coloco a roupa da apresentação, ajeito a gravata – detalhe que eu não sabia, mas aprendi, dar o nó na gravata – umedeço o cabelo e aplico o fixador, pego o pente e faço o penteado idêntico ao do grande cantor, me olho no espelho e vejo Gardel, olho para o chão e me vejo através do tênis, mas agora não sou mais eu e sim “CARLOS GARDEL!”. Nesse momento me veio à cabeça a tal estratégia. Chamei o guitarrista e avisei-o de que não entraria junto com a banda, ele por alguns segundos se espantou, mas logo tranquilizei-o explicando o motivo: Naquele instante eu vislumbrei a possibilidade de algo maior; eles entrariam após a chamada do apresentador e ele pediria ao mesmo que levasse a entrada do palco o microfone até as minhas mãos; a banda faria a introdução e eu começaria a cantar ainda atrás da cortina em direção ao palco, isso certamente causaria um choque, visto que eu estaria todo transformado. Ele captou a ideia de imediato, comunicou aos outros, que de cara aprovaram e assim ficou combinado. Eu estava muito nervoso, mas como já falei, não com medo, apenas ansioso para pisar no palco e desempenhar o que havia desenhado na cabeça. Não seria um improviso, pois já havia me apresentado, mas caracterizado seria o diferencial. Havia estudado um pouco, não muito, o gestual de um cantor de tango, principalmente Gardel, contudo teria que improvisar, pois nada sabia sobre a milonga, teria que ser na expressão corporal. A milonga, culturalmente não era nosso, então, sem muita informação o melhor era misturar com o nosso gingado do malandro de samba.
A voz do apresentador anunciava que era a nossa vez. Assim que acabou, a banda entrou e guitarrista foi ter com ele para que levasse o microfone até onde eu estava, na entrada para o palco atrás da cortina nos bastidores. Enquanto a banda se arrumava, ouvia-se um murmúrio vindo da plateia, que eu já supunha ser a grande interrogação que pairava sobre suas cabeças, latejando intermitentemente a respeito da minha ausência. Eu havia desligado o microfone, para não escapulir nenhum ruído e só ligaria quando tudo estivesse pronto. Instrumentos plugados, som na medida, todos prontos, começa a contagem. A introdução veio em seguida ao término da contagem, aproveitei para ligar o microfone e quando chegou no acorde que indicava a minha entrada, comecei a cantar ainda sem aparecer e fui lentamente me dirigindo ao centro do palco. Quando a minha voz soou, já expulsei a interrogação, quando a minha presença descortinou, a plateia não se conteve e a reação viera a confirmar o que eu havia desenhado na minha cabeça. Eram assobios, aplausos; mais da metade de pé; os jurados sorriam e, eu saboreando todo aquele momento. O artista as vezes, em grandes momentos de interpretação, acaba colocando a música em segundo plano, mas não foi o meu caso, pois todos estavam esperando ansiosamente pelo refrão. Claro que eu tenho méritos, a música por si só era pequena. Eu desenvolvi toda uma apresentação a partir do apelo de um refrão, então, o que poderia passar batido se tornou um hit, mas, não fosse a minha voz, desenvoltura, inventividade, tudo teria sido apenas normal. Do primeiro refrão cantado, até o último, o público participou entusiasticamente. Foram minutos de muita felicidade, longe de qualquer vaidade.

Terminada a apresentação, sob aplausos mil, me retirei com a sensação do objetivo mais que alcançado. Depois de me desconstruir; de me acalmar; de normalizar o batimento cardíaco; de descer das nuvens, é que reuni condições para comemorar com os meus amigos a nossa performance. Os músicos, exceto o guitarrista, tinham compromisso para tocar e, já estavam com o tempo contado, por isso, em seguida, se despediram de nós desejando o melhor e lamentavam não poder ficar para ver o resultado. Os caras contribuíram por amizade e amor a música, sem ganhar nada, sem pedir nada em troca, nós procuramos demonstrar quão importante fora essa doação; palavras, abraços, palavras, sorrisos, palavras, tudo parecia pouco, para nós, para eles, estava tudo certo. Na simplicidade está a beleza da vida. Complicar é uma criação humana. Eu não sou um filósofo, historiador, pensador, longe disso, mas penso, portanto, existo e por existir e pensar, é que as vezes me pego refletindo a natureza humana. Nascemos completamente despidos, não só de roupas, mas principalmente de conceitos. Nunca seremos perfeitos, mas a perfeição nos habita. A máquina que faz o ser humano funcionar é perfeita. Divaguei. Resumindo: o ser humano entre tantas virtudes, em contrapartida aos pecados, tem essa disponibilidade, esse desprendimento, esse sentimento, esse instinto, além de se auto preservar, de auxiliar, de ajudar, de contribuir para o próximo, então quando acontece nós agradecemos muito, por não ser, como deveria ser, uma ação tão normal quanto respirar. Ainda bem que tínhamos amigos na plateia, não deu para ficar com a sensação de abandono, nos juntamos rapidamente ao grupo e fomos assistir o que restava do festival e, esperarmos o veredicto. Até chegarmos aonde estavam os nossos amigos, muitas pessoas me pararam para me cumprimentar, quase todos cantavam um pouco do refrão e, parabenizavam entusiasmados, mostrando admiração. A sensação era boa, apesar de tudo conspirar a favor, eu não queria colocar a carroça a frente dos burros, então, me desliguei desse pensamento e fui apreciar os meus concorrentes. O nível era bom e nós comentávamos, a cada música, que ganhar o festival seria muito difícil. No intervalo entre uma música e outra, todos tinham a mesma sensação, era praticamente unânime a questão, o que todos se agarravam e torciam era pelo outro prêmio, havia uma possibilidade bem forte, então não nos restava muito a fazer, se não esperar. É justamente isso que vocês vão fazer: esperar até o próximo capítulo para saber o desdobramento dessa história, inté!  

2 comentários: