quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Capítulo 26 – DE CANTOR A REGENTE

As apresentações chegavam ao seu final, faltavam poucos e, daqui a instantes todos os participantes entrariam no processo de expectativas. Cada um no seu íntimo, tinha uma sensação, apreensão diferente, mas o pensamento derradeiro era praticamente o mesmo. Num festival de música o vencedor nem sempre é a melhor música. Lendo assim de prima soa como uma incoerência, mas você sabe que eu não estou longe da verdade. É chato ter que escrever isso, mas eu não posso fugir a verdade, você talvez discorde, tem todo o direito. Eu penso que muitas, mas nem todas as formas de competições, podem sofrer interferência de terceiros e ter resultado final injusto. Eu já presenciei vários que foram verdadeiros desastres, cominando nessa injustiça. Eu escrevo sobre esse assunto, mas eu mesmo não entro em festival para ganhar, outra incoerência... não... eu explico: Para mim o festival serve para avaliar o trabalho musical e a performance; para interagir com outros músicos, compositores e cantores; para sentir a receptividade da plateia e, para ganharmos mais experiência. Tá legal, existem prêmios em dinheiro e é muito bom ganhá-los, mas é bem melhor quando a gente consegue unir a apresentação e o público numa mesma sintonia. Aí meu caro leitor, é o orgasmo musical. Diversas vezes eu pude ver isso acontecer e ver cantores e compositores, quando o mesmo não exerce a mesma função, sendo aclamados pala plateia após ser anunciado o resultado final. Nesses casos, mesmo quem estava torcendo por um outro concorrente, reconhece o vencedor merecedor do prêmio. Bem, vou parar por aqui, pois os jurados acabam de retornar aos seus lugares e, isso indica que será anunciado os vencedores nas seguintes condições e seus respectivos prêmios: 3º, 2º, e 1º lugar, o vencedor, além do prêmio de melhor intérprete. O terceiro e o segundo lugar receberão apenas um troféu cada, mas o primeiro lugar e o melhor intérprete, a esses, além do troféu, estava reservado um prêmio em dinheiro.
O apresentador comunicou que já estava com lista na mão, portanto daria início a chamada, mas antes lembrou que como o regulamento previa, seriam chamados o terceiro lugar e o segundo lugar e, antes do vencedor, seria anunciado o melhor intérprete que além do prêmio, faria uma breve apresentação para o público e só depois viria o primeiro lugar e a respectiva apresentação, finalizando assim o festival. Não sem antes ser ressaltada a importância dos colaboradores e organizadores e, demais incentivos para realização do evento. Ele pigarreou fora do microfone, era o sinal de que começaria, todos estavam voltados para o palco, momento de grande expectativa. Posicionando-se frente ao microfone proferiu a primeira sentença, anunciando, chamou o terceiro lugar, aplausos, seguido da cerimônia de entrega do respectivo prêmio. Voltou-se, após suas duas assistentes retirarem o premiado, e de novo diante do microfone anunciou o segundo lugar, de certa forma se repetiu o ritual anterior. Não menosprezando os anteriores, mas agora começava a fase de maior importância, por isso, diante de tal, o apresentador aproveitou para fazer charme, brincadeiras, a plateia delirava ansiosamente e, finalmente empertigando-se anunciou o melhor intérprete: Eu. Eu fui o escolhido, o premiado. O público aplaudia, gritava. Não cabia em mim tanta felicidade. Saltei do banco, com dezenas de mãos me batendo no corpo, em direção ao palco, esse momento era meu, único. As assistentes me recepcionaram e me passaram os prêmios. O público gritava pedindo para eu cantar. O apresentador me felicitou, me estendeu o microfone e fazendo um gesto com a mão, apontou para a plateia. Eu não tinha discurso preparado, então foi no improviso. Primeiro agradeci a escolha, depois ao público, posteriormente aos meus companheiros e aproveitei para informar que a banda não estava completamente presente, pois os músicos tinham compromissos e então só restavam eu e o guitarrista, mas que eu não deixaria de cantar, só que seria voz e guitarra. Meu companheiro subiu, plugou o instrumento e depois de testar som e afinação, virou-se para mim mostrando que estava tudo certo.
A partir desse momento, achar palavras para descrever sentimentos múltiplos, torna-se para mim uma tarefa árdua. Como explicar que eu saltei do posto de cantor para o de regente de coral em fração de segundos. Só dizendo em poucas palavras, que eu não cantei uma vez sequer o refrão, pois a plateia o fazia sob a minha batuta, obedecendo cada movimento como se tivéssemos ensaiado há meses. Cantar acompanhado só da guitarra, tornou a apresentação mais íntima, aconchegante, claro que com o prêmio debaixo do braço, o corpo e a mente mais leves, os erros agora podiam até acontecer e, as falhas na voz embargada pela emoção, seriam compreendidas, contudo, eu me mantive firme e junto com a plateia fizemos um espetáculo maravilhoso. Essa resposta vinda do público é para o artista o apogeu. Sim, me senti nos braços da galera. Que me perdoem, não é falta de modéstia, mas a música que ganhou, merecidamente, o festival, foi ofuscada pela minha premiação e apresentação, tal a identificação do público comigo. Eu roubei a cena. Fazer o quê? Era o meu momento.  
No dia mesmo não festejamos devidamente, o adiantar da hora impedia algumas pessoas, mas também não estariam presentes os companheiros músicos que foram muito importantes para a apresentação. Por outro lado, ainda demorei a sair devido ao assédio e ao próprio Chicão que fez questão de vir pessoalmente me cumprimentar, trazendo consigo outras pessoas que participaram no processo da realização do evento e queriam me conhecer. Chicão como falei anteriormente, movimentava culturalmente o município, incrementando, incentivando, realizando eventos em vários segmentos da arte e apesar da agitação em torno, ele queria estreitar laços para um futuro convite. Só depois de passado esses acontecimentos, é que saímos retornando para casa, ainda sob o efeito daquela noite. Durante o retorno, eu e os amigos cantávamos o tempo todo a música. Já na casa da minha namorada, preparado para dormir, a minha cabeça era um turbilhão de imagens, isso mesmo, um verdadeiro ciclone que não parava de girar e fazer surgir uma atrás da outra, imagens de algumas horas antes. Custou, mas adormeci com um sorriso nos lábios.
O cheque estava bem seguro, só precisando ser descontado. Seu valor dava para fazer uma boa farra, num dos pontos que nós frequentávamos, então, marcamos para o sábado seguinte, o que daria tempo de sacar o dinheiro e comunicar aos amigos que seria uma noite de 0800 até o limite do prêmio, se ultrapassasse aí haveria vaquinha; fica aqui entre nós, deu e sobrou, tanto que o guitarrista queria ir a Úba rever sua namorada e pegou uma ajuda. Digamos que como compositor da música, recebeu os direitos autorais.
Lamento dizer, mas não acabou não, vem mais apresentações por aí, aguardem!


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