sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Capítulo 72 – A INDÚSTRIA AGRADECE
O panorama musical brasileiro vem se notabilizando nos últimos anos por uma característica insofismável: a falta de renovação da MPB, a denominada “Música Popular Brasileira” – que caminha à extinção.
Os grandes nomes são os mesmos da década de 60 do século passado, todos na casa dos 70 anos de idade: Chico Buarque, Paulo Cesar Pinheiro, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Edu Lobo, Francis Hime e mais alguns menos votados. Das grandes cantoras restaram apenas Maria Bethânia e Gal Costa. Quando se olha os compositores e cantores de MPB mais novos percebe-se muito pouca coisa: com boa vontade Lenine, Ana Carolina e… só. É muito, muito pouco.
A que se deve tal fenômeno? Acredito que haja várias causas, mas irei me concentrar naquela que para mim é uma das principais: a mudança do perfil da chamada “cultura de massa” brasileira e em especial sua veiculação nos órgãos de longo alcance – basicamente televisão aberta e rádios FMs.
Até a década de 90, mais ou menos, coexistiam diversas formas de música na televisão aberta e nas rádios FMs – estas mais segmentadas. Desde a MPB típica até músicas internacionais, passando por um lado mais popularesco. Até mesmo a música clássica tinha seu espaço, ainda que nas manhãs de domingo. Haviam festivais de música e posteriormente programas como o “Chico e Caetano”, na década de 80 na Globo. Volta meia, programas como o Chacrinha e mais recentemente o próprio Fausto Silva abriam espaço para esta música.
Entretanto, estamos assistindo a uma crescente homogeneização da chamada “cultura de massa'”, de grande veiculação, baseada em música popularesca, descartável e de consumo imediato. São os “Luans Santanas”, os “Telós”, os “Jorge e Mateus” e os “Alexandres Pires” da vida que martelam nossos ouvidos dia após dia na televisão e no rádio. Outras manifestações musicais tornaram-se guetos, na prática – talvez com a exceção que confirma a regra do samba, mas sobre isto falarei depois.
Historicamente a demanda por este tipo de produto sempre coexistiu com outras manifestações, mas por que se tornaram dominantes?
A meu ver esta demanda foi criada pelo interesse da indústria cultural como um todo em estabelecer uma espécie de “liinha de produção” musical: música descartável, de mais fácil elaboração, mais rápida produção e calcada em elementos visuais e em marketing agressivo. Paralelamente, por fatores que não discorrerei aqui este tipo de música tornou-se monopolista nos veículos de massa, especialmente na televisão aberta.
O que temos?
Música descartável, muitas vezes diluições de gêneros originais, com letras paupérrimas e ritmo acelerado – para “contagiar” o público. Então temos “gêneros” como o pseudo-sertanejo, o sertanejo e o forró universitário, o “pagode romântico” (que de samba e pagode não tem absolutamente nada) e este pop indefinível de Luans Santanas, Telós, Wesleys e Anitas como monopolizadores dos grandes espaços de divulgação.
Para a indústria é algo confortável, porque é uma música de elaboração mais rápida e que tira do artista a “griffe” e o domínio da arte. Hoje a indústria fonográfica e a televisão não precisam esperar a inspiração de um Chico Buarque ou de um Paulinho da Viola, por exemplo: basta acelerar o ritmo, rimar “amor” com “dor”, dizer que “vamos pular no tcheretetê” e “que vai rolar a festa”, com um rostinho bonito – que muitas vezes sequer canta – e aguardar o tilintar das moedas na caixa registradora.
Na prática é uma “linha de montagem” sem perenidade: daqui a dez anos ninguém vai se lembrar de Luan Santana, por exemplo – embora aos 20 anos ele já tenha um patrimônio de 50 milhões de reais, o que é espantoso. Este tipo de música descartável sempre existiu, mas tendo o monopólio atual da grande mídia está caminhando para em duas ou três décadas ser o único tipo de expressão musical brasileira. É um modelo que interessa especialmente à indústria por tirar a propriedade intelectual do artista e transferi-la para ela mesma.
E a demanda por este tipo de música acabou sendo criada através do monopólio dos meios de comunicação. O leitor pode pensar que a falta de cultura média do brasileiro também contribui, mas lembro que a escolaridade aumentou nas últimas décadas, não diminuiu. Por outro lado, como se pode gostar de algo que não se conhece, ainda mais quando o acesso à tv a cabo ainda não alcança sequer a metade da população brasileira?
E o público médio aprendeu a “gostar” deste tipo de música por não ter outra opção em grande escala, de modo que hoje já há uma “retroalimentação”: o grande público pede e consome cada vez mais este tipo de produto. Outras manifestações musicais, hoje, se restringem a guetos a termos nacionais, restritos à televisão a cabo e a rádios bastante segmentadas. Às vezes nem isso: fiquei muito surpreso em ouvir na extinta MPB FM aqui do Rio, estação de rádio bastante segmentada, Alexandre Pires e Chitãozinho e Xororó. Ou seja: até em espaços que deveriam ter o seu público segmentado esta música descartável está penetrando.
O caso do samba de raiz é uma exceção que confirma a regra: o gênero está se renovando e se reinventando a partir dos mais velhos, bebendo na fonte deles e gerando um produto que é moderno justamente por ser tradicional. Não alcança o grande público de massa a não ser marginalmente, mas encontrou seu público e, na medida do possível, vai bem, obrigado. Contudo precisou o gênero ser praticamente extinto na década de 90 para que houvesse esta renovação baseada, ironicamente, nesta “volta às origens”. De certa forma o samba de enredo – que passou por um processo de mediocrização semelhante nos últimos 15 anos – começa a trilhar timidamente o mesmo caminho: renovar-se bebendo em sua origem.
A MPB, porém, caminha para sua extinção ao menos da forma como a conhecemos. Como expliquei acima a música popularesca, mais que dominante, está se tornando monopolista.

A indústria agradece. E nossos ouvidos sofrem. Inté! 

Um comentário:

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