Capítulo 72 – A INDÚSTRIA AGRADECE
O panorama musical
brasileiro vem se notabilizando nos últimos anos por uma característica
insofismável: a falta de renovação da MPB, a denominada “Música Popular
Brasileira” – que caminha à extinção.
Os grandes nomes são
os mesmos da década de 60 do século passado, todos na casa dos 70 anos de
idade: Chico Buarque, Paulo Cesar Pinheiro, Caetano Veloso, Gilberto Gil,
Paulinho da Viola, Edu Lobo, Francis Hime e mais alguns menos votados. Das
grandes cantoras restaram apenas Maria Bethânia e Gal Costa. Quando se olha os
compositores e cantores de MPB mais novos percebe-se muito pouca coisa: com boa
vontade Lenine, Ana Carolina e… só. É muito, muito pouco.
A que se deve tal
fenômeno? Acredito que haja várias causas, mas irei me concentrar naquela que
para mim é uma das principais: a mudança do perfil da chamada “cultura de
massa” brasileira e em especial sua veiculação nos órgãos de longo alcance –
basicamente televisão aberta e rádios FMs.
Até a década de 90,
mais ou menos, coexistiam diversas formas de música na televisão aberta e nas
rádios FMs – estas mais segmentadas. Desde a MPB típica até músicas
internacionais, passando por um lado mais popularesco. Até mesmo a música
clássica tinha seu espaço, ainda que nas manhãs de domingo. Haviam festivais de
música e posteriormente programas como o “Chico e Caetano”, na década de 80 na
Globo. Volta meia, programas como o Chacrinha e mais recentemente o próprio
Fausto Silva abriam espaço para esta música.
Entretanto, estamos
assistindo a uma crescente homogeneização da chamada “cultura de massa'”, de
grande veiculação, baseada em música popularesca, descartável e de consumo
imediato. São os “Luans Santanas”, os “Telós”, os “Jorge e Mateus” e os
“Alexandres Pires” da vida que martelam nossos ouvidos dia após dia na
televisão e no rádio. Outras manifestações musicais tornaram-se guetos, na
prática – talvez com a exceção que confirma a regra do samba, mas sobre isto
falarei depois.
Historicamente a
demanda por este tipo de produto sempre coexistiu com outras manifestações, mas
por que se tornaram dominantes?
A meu ver esta
demanda foi criada pelo interesse da indústria cultural como um todo em
estabelecer uma espécie de “liinha de produção” musical: música descartável, de
mais fácil elaboração, mais rápida produção e calcada em elementos visuais e em
marketing agressivo. Paralelamente, por fatores que não discorrerei aqui este
tipo de música tornou-se monopolista nos veículos de massa, especialmente na
televisão aberta.
O que temos?
Música descartável,
muitas vezes diluições de gêneros originais, com letras paupérrimas e ritmo
acelerado – para “contagiar” o público. Então temos “gêneros” como o
pseudo-sertanejo, o sertanejo e o forró universitário, o “pagode romântico”
(que de samba e pagode não tem absolutamente nada) e este pop indefinível de
Luans Santanas, Telós, Wesleys e Anitas como monopolizadores dos grandes
espaços de divulgação.
Para a indústria é
algo confortável, porque é uma música de elaboração mais rápida e que tira do
artista a “griffe” e o domínio da arte. Hoje a indústria fonográfica e a
televisão não precisam esperar a inspiração de um Chico Buarque ou de um
Paulinho da Viola, por exemplo: basta acelerar o ritmo, rimar “amor” com “dor”,
dizer que “vamos pular no tcheretetê” e “que vai rolar a festa”, com um
rostinho bonito – que muitas vezes sequer canta – e aguardar o tilintar das
moedas na caixa registradora.
Na prática é uma
“linha de montagem” sem perenidade: daqui a dez anos ninguém vai se lembrar de
Luan Santana, por exemplo – embora aos 20 anos ele já tenha um patrimônio de 50
milhões de reais, o que é espantoso. Este tipo de música descartável sempre
existiu, mas tendo o monopólio atual da grande mídia está caminhando para em
duas ou três décadas ser o único tipo de expressão musical brasileira. É um
modelo que interessa especialmente à indústria por tirar a propriedade
intelectual do artista e transferi-la para ela mesma.
E a demanda por este
tipo de música acabou sendo criada através do monopólio dos meios de
comunicação. O leitor pode pensar que a falta de cultura média do brasileiro
também contribui, mas lembro que a escolaridade aumentou nas últimas décadas,
não diminuiu. Por outro lado, como se pode gostar de algo que não se conhece,
ainda mais quando o acesso à tv a cabo ainda não alcança sequer a metade da
população brasileira?
E o público médio
aprendeu a “gostar” deste tipo de música por não ter outra opção em grande
escala, de modo que hoje já há uma “retroalimentação”: o grande público pede e
consome cada vez mais este tipo de produto. Outras manifestações musicais,
hoje, se restringem a guetos a termos nacionais, restritos à televisão a cabo e
a rádios bastante segmentadas. Às vezes nem isso: fiquei muito surpreso em
ouvir na extinta MPB FM aqui do Rio, estação de rádio bastante segmentada,
Alexandre Pires e Chitãozinho e Xororó. Ou seja: até em espaços que deveriam
ter o seu público segmentado esta música descartável está penetrando.
O caso do samba de
raiz é uma exceção que confirma a regra: o gênero está se renovando e se
reinventando a partir dos mais velhos, bebendo na fonte deles e gerando um
produto que é moderno justamente por ser tradicional. Não alcança o grande
público de massa a não ser marginalmente, mas encontrou seu público e, na
medida do possível, vai bem, obrigado. Contudo precisou o gênero ser
praticamente extinto na década de 90 para que houvesse esta renovação baseada,
ironicamente, nesta “volta às origens”. De certa forma o samba de enredo – que
passou por um processo de mediocrização semelhante nos últimos 15 anos – começa
a trilhar timidamente o mesmo caminho: renovar-se bebendo em sua origem.
A MPB, porém,
caminha para sua extinção ao menos da forma como a conhecemos. Como expliquei
acima a música popularesca, mais que dominante, está se tornando monopolista.
A indústria
agradece. E nossos ouvidos sofrem. Inté!
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