quarta-feira, 20 de julho de 2016

Capítulo 10 – A PROPOSTA

Para minha surpresa, apesar da grande dificuldade em procurar as palavras certas, quando finalmente consegui soltar o pedido de empréstimo do violão, a atitude foi das mais amistosas e de compreensão, concedendo a mim, sem restrições e tempo de devolução, a oportunidade de praticar ou melhor, continuar as lições que já havia recebido. Como eu havia dito, nós tínhamos agora uma boa amizade, mas sei lá, pelo menos para mim, pedir emprestado alguma coisa que pertença a outra pessoa, não me deixa confortável, além da responsabilidade imensa no cuidado, existe também o desconforto que a pessoa que pede causa a outra; nesse momento quem pede não tem o direito de se ofender se houver recusa, tem que procurar entender, deixar de ser pidão e se gosta tanto do objeto: comprar um para si.

Violão emprestado, dentro da capa, com muito cuidado encostado ao corpo, viajando comigo no ônibus de volta para casa. Se não fosse o adiantar da hora, quando cheguei, eu bem que iria desencapa-lo e tocar, mas como morávamos num conjugado apertado me contentei em esperar até o dia seguinte. Pensa que é fácil assim? Porra nenhuma. Por mais que você seja já um burro véio, tanto quanto um novo, a espera tem o mesmo sabor, o tempo tem o mesmo espaçamento, ou seja, se ficar acordado, aquele gostinho amargo enjoando, aquele pensamento latejando, tentando arranjar um jeito, só vai aumentar, então o melhor a fazer é dormir, talvez demore a pegar no sono, mas, quando acontecer passará em um segundo. Quando abri os olhos, tive a impressão de ter sonhado com algo... mas, como não lembrava ficou só a cisma. Levantei-me e fiz e que normalmente fazia quando acabava de acordar, só um pouquinho mais rápido. Tendo terminado, não deu outra, voei na direção do violão. Ainda assim, existia mais um obstáculo, pelo menos naquele momento. Como era um domingo, e eu morava num conjugado, minha mãe que acordou antes de mim, só esperava que eu acordasse, pois não queria incomodar o meu sono, para poder ligar a televisão, então quando peguei no violão percebi que não ia rolar, pois o ambiente estava tomado pelo som do aparelho. Então o que fazer? Partiu banheiro! Foi assim o da inteiro, com algumas interrupções, fui até cansar. No dia seguinte, já na segunda-feira, o meu amigo do colégio chegou na hora combinada. Contei-lhe rapidamente como fora difícil pedir o instrumento emprestado, porém missão cumprida. Examinou o violão, se não me faia a memória era um Di Giorgio nº 36, olhou para mim, estendeu a mão, me parabenizou, e sentenciou: “esse é do bom”, eu ainda não entendia nada, mas fiquei feliz. Uma autonomia que só o tempo e muita prática vai nos dar, a não ser que você nasça com um belo dom, é saber exatamente o tom e a afinação das cordas sem precisar de muita ajuda. Claro que você pode e deve comprar um diapasão, contudo só ele não é suficiente, ele ajuda em muito a quem não tem o sentido apurado, porém, a prática apura os sentidos musicais, e claro, aquele iluminado, com ouvido absoluto, acontece mais rápido. O tempo era curto, curtíssimo, mas o suficiente para depois do violão afinado, ouvir o resto do arranjo daquela música apresentada no pátio do colégio, analisar até aonde eu tinha conhecimento, acrescentar novas lições, recomendar que praticasse, ouvir uma nova e finalmente fazer a proposta: Se no próximo final de semana, para ser mais exato no sábado, se eu poderia ir até o endereço que iria me dar, para ser apresentado aos seus amigos, que juntos estavam ensaiando com a intenção de formar uma banda e não tinham um vocalista, portanto pensou se eu não gostaria de ocupar essa vaga. A princípio aceitei entusiasmado e abismado, contudo, ficou bem claro que dependia da aprovação dos demais e, finalizou dizendo que durante a semana nós ensaiaríamos uma música para a apresentação, que poderia ser até uma das minhas. E assim durante a semana...

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