Capítulo 39 – CAMINHOS
Meus queridos leitores, eu sei que
estamos numa cronologia do passado para o presente, mas gostaria de participar
a vocês um relato interessante do começo, lá do comecinho, antes mesmo da
banda, que modificaria ou não o meu destino, mas certamente a minha vida.
Devia eu ter uns 18 para 19 anos.
Praticamente todas as noites nós, eu fazia parte de um grupo de aspirante ao
estrelato, nos reuníamos num restaurante, mas não ficávamos dentro dele,
ficávamos na porta, precisamente no balcão do café. Esse recinto tinha apenas
um posto de gasolina não muito grande entre a gravadora, só havia uma porta que
era a principal, e nós que não podíamos ficar na porta, então, ficávamos no café. Ali
ficavam e passavam, compositores querendo entregar uma fita demo para ver a
possibilidade de algum artista da casa gravar a sua obra e cantores com a
esperança de poderem conseguir uma audiência com um produtor, que era na época o
caça talento. Esses, eram indivíduos, que nunca deixaram de ser, inacessíveis,
mas como o vento a favor já havia soprado para outros, existia uma tênue
esperança. Dentre essa turma que ficava ali, havia de todos os tipos, na
maioria eram de outros estados e, portanto, sem família, alguns exerciam alguma
atividade remunerada, mas outros subsistiam. Todos tinham a mesma finalidade:
Se não conseguissem o estrelato, então, que pudessem viver de música.
Vou destacar dois casos e os chamarei
de caso 1 e caso 2, ok?
Caso 1 - Eu havia estreitado amizade
com um mineirinho muito gente boa. Ele já havia gravado com artistas que no
Sudeste ninguém conhecia, mas que no Nordeste eles vendiam bem, então,
praticamente ele só vinha para o Rio em época de escolha de repertório ou para
receber direitos autorais, que acontecia de três em três meses. Essas duas
situações as vezes coincidiam. Todas as vezes ficava hospedado num hotel barato
e perto da gravadora. Esbanjar não era a sua. Ficava um pouco, gastava pouco,
fazia o que tinha que fazer e retornava para sua cidade em Minas. Nós éramos
parceiros de sinuca, então, todas as vezes que ele aparecia era certo um
desafio. Nosso jogo era em alto nível. Eu frequentava os salões de sinuca já
algum tempo, depois de ter aprendido através de um instrutor as manhas do jogo,
penso que ele só se dispôs a ensinar por ter vislumbrado talento, mesmo porque
foi me oferecido de graça. Meu parceiro, em sua cidade era rotina esse jogo,
que também juntando ao talento foi jogando, vendo e aprendendo com os mais
experientes as manhas. Tínhamos um respeito mútuo. Havia muita felicidade
quando nos encontrávamos. Normalmente essa parte a do jogo, nós reservávamos
para a parte da noite; sinceramente, existem coisas que não dá para fazer
durante o dia, mesmo que eu não estivesse trabalhando, consequentemente
ocupando o meu dia. Durante o dia, ele que tinha acesso a gravadora, procurava
os seus contatos para entregar material já com o destino certo ou seja, cada
música tinha a característica do cantor que normalmente gravava naquele estilo.
Eu trabalhava num tipo de serviço que me possibilitava a escolha do horário, em
virtude disso, cansei de atender ao chamado da campainha abrindo a porta e me
deparando com o meu amigo desesperado, precisando de um violão, pois estavam
recolhendo material para tal cantor e ele não tinha ou não era suficiente,
então entrava e em questão de minutos fazia música e letra. Eu assistia aquela
fabricação estupefato. Não havia inspiração, só respiração. Era uma cria sem
sentimento, era uma montagem, mas funcionava assim, fazer o quê? Em menos de
meia hora, saia a colcha de retalhos que faria parte de um LP de algum cantor.
Quando eu falava alguma coisa sobre o processo criativo, ele sorria e levava a
mão aos lábios como se pudesse esconder o sarcasmo. Esse era um dos meios de se
fazer dinheiro dentro do ambiente musical, um dos.... Nunca pedi a ele que me
apresentasse nenhum dos seus contatos, não era a minha. Sua estada não chegava
a um mês, foram raríssimas as vezes.
Caso 2 – Havia um outro compositor,
não sei de que lugar do Brasil, que frequentava a esquina, mas em determinados
períodos da vida dele, noutros nós não conseguíamos ficar perto dele. Eu
explico: diferentemente do primeiro caso, as suas composições não eram
fabricadas, eram pura inspiração e de excelente qualidade. Eu mesmo ouvir
algumas, poucas, não todas, mas o suficiente para perceber o potencial, contudo,
os contatos dele se davam de uma outra forma. Penso eu, que começou assim e
assim ficara. Ele também não tinha casa e nem família no Rio, então também se
hospedava pelas imediações quando entrava o faz-me rir. Eu não estou aqui para
fazer revelações bombásticas e nem denegri ninguém, muito menos apontar para
aquilo que eu não ouvi. Eu só relato o que o próprio afirmava sem muitos
detalhes, mesmo porque era seu ganha pão, e se o fizesse perderia. Se fossemos
mensurar em cima do período de um ano, eu diria que mais da metade ele passava necessidades,
ficando sem moradia e, portanto, sem o básico. Coloco aqui no básico a
“higiene. ” Quando ele conseguia sucesso
com os seus contatos, aparecia com roupa nova, banho tomado, tinha lugar para
dormir e gostava de ser generoso, era uma alegria só. Muitos se aproveitavam,
nessas horas o que têm de deitão. Claro, que não demorava muito o faz-me rir
acabava, aí voltava tudo como antes no quartel de Abrantes. A roupa nova
passava a ser permanente. Diferente do meu amigo, que bebia moderadamente, esse,
enfiava o pé na jaca e acrescentava outros ingredientes. Essa montanha russa
era a sua vida. Suas músicas eram gravadas, mas não com o seu nome como
compositor, portanto, tinha que produzir sempre uma promessa de sucesso, para
poder transforma-la em dinheiro. As coisas também acontecem assim. Business!
Agora tenho um relato particular.
Quase que rotineiramente, havia um produtor que passava no café. Ele vinha,
falava com todos, tomava o seu café, aproveitava e convidava o pessoal e pagava
geral. Falando assim nada demais, só que a intenção era outra, não era
socializar. Se tivesse carne fresca e bonita, ali estaria o seu interesse.
Homossexual assumido, usava da sua posição para atrair. Da primeira vez que me
viu deixou bem claro as suas pretensões, a galera aproveitava para me sacanear
quando ele ia embora: “ Vai fundo que você grava! ” “ Vai ser disco de ouro!
Sem duplo sentido. “ Eu garoto novo, sem muito traquejo para lidar com essa
situação, toda vez que ele se dirigia para o café, eu começava a ficar nervoso.
O assédio era descarado. Os dias iam passando e com isso a minha insegurança ia
se dissipando, mostrando a ele que eu não era mais um garotinho assustado,
tanto, que no dia em que ele estacionou um lançamento automobilístico de uma
dessas marcas conhecidas e se ofereceu para me levar em casa, mesmo eu morando
bem próximo, eu resolvi aceitar para esclarecer de uma vez qual era a minha
opinião. O pessoal ficou de queixo caído. Não rodamos muito. Em poucos minutos
estávamos na rua onde eu morava. Carro parado, desligado, veio a já esperada
cantada. “Você sabe que eu sou produtor? ” “Sim. Sei. ” “E você quer gravar um
disco? ” “É, até que eu gostaria. “ “Então, eu posso providenciar isso, claro,
você terá que fazer um teste de estúdio, mas isso é coisa simples. “ “E quando
aconteceria isso. “ “Bem, você mora com quem? “ “Com a minha mãe. “ “Aí, você
teria que se mudar para o meu apartamento e morar comigo. “ “Ah! Já entendi.
Você não leve a mal, mas eu prefiro continuar morando com a minha mãe. “ “Mas,
e a gravação? “ “Esquece. Nessas condições sem chances. “ “Quer um tempo para
pensar? “ “Não. Não é preciso tempo, a resposta é essa. “ Virei a maçaneta, a
porta se abriu, pulei para fora, fechei-a e segui para a entrada do prédio onde
eu morava com a minha mãe. No dia seguinte, a galera veio para cima de mim,
cheios das sacanagens, mas o que eles queriam saber mesmo era o que tinha
rolado. Falei o que aconteceu e sem brincadeiras todos concordaram, cada qual
com uma observação de indignação. Isso acontece até hoje, com mulheres e
homens, em vários setores. Muita gente faz contrato com o capeta para conseguir
o tal sucesso. Cada um sabe de si. Eu não me arrependo. É um problema quando
você envereda por um caminho sem volta, mesmo sabendo que não é o seu caminho,
achando que mais na frente você vai achar atalhos para se livrar e eles não
existem. Aí nesse momento você para aplacar a sua dor, o seu sofrimento, a sua
solidão, o seu arrependimento, refugia-se, protagonizado por algum meio, em
algum lugar fora da terra.
Hoje não houve aplausos, nem
espetáculo. Mas, o show continua, afinal a música está acima desses contratempos.
Não vou colocar os gênios na balança, esses seres são extraterrestres, vou
apenas me ater aos normais: Se temos, mesmo uma pequena, sensibilidade musical
para discernirmos o que têm valor artístico do que não presta, já podemos nos
considerar abençoados, mas feliz não, feliz é aquele que gosta de qualquer
porcaria, seja ela um enlatado, industrializado, mal-acabado, atravessado,
desafinado, esse desprovido de qualquer sentimento criterioso, por ignorância,
gosta daquilo que se identifica com o seu mundo. Hoje a massificação num país
ou no mundo, depende de quem são os interessados, torna um reles refrãozinho
fruto de uma brincadeira, num tsunami. É vida de gado. Povo feliz! Inté!
Muito bom.
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